Semeou cenouras cedo de mais e, em vez de raiz, apareceu uma haste com flores. Não foi azar nem má semente. A planta contou o frio que passou e decidiu que já era primavera.
Rosa Moreira é licenciada em Ciências e Tecnologia do Ambiente e mestre em Engenharia Agronómica pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Sistemas de Informação Geográfica aplicados a recursos agroflorestais e ambientais pela Universidade Aberta. Começou o percurso profissional como técnica de laboratório no sector da biotecnologia e passou depois pela EDP, pelo Instituto Nacional de Estatística, na equipa do Recenseamento Agrícola, e pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, como técnica de investigação. Actualmente é consultora de projectos agroambientais e dedica-se à educação e comunicação de ciência agrícola. Fundou em 2018 A Cientista Agrícola, projecto que traduz conhecimento técnico em linguagem acessível a quem está a começar a cultivar, através de formação online, vídeo, podcast e newsletter. Dá formação a agricultores iniciantes, participa em eventos do sector e colaborou em campanhas europeias de agricultura sustentável.
Semeou cenouras cedo de mais e, em vez de raiz, apareceu uma haste com flores. Não foi azar nem má semente. A planta contou o frio que passou e decidiu que já era primavera.
Montar uma cobertura em dezembro, com o frio já instalado, chega tarde de mais. O que decide a colheita de inverno é aquilo que estiver de pé e plantado nas próximas semanas.
De um dia para o outro aparecem sementeiras revolvidas, frutos bicados e galerias junto aos canteiros. Não é coincidência. Setembro é o mês em que a horta passa a ser o melhor restaurante da zona.
Durante o verão o olival esteve calmo e deu a ideia de que o problema tinha passado ao lado. É agora, com as temperaturas a suavizar, que a praga encontra o que esperava.
Passa a primeira chuvada a sério e, dois dias depois, a terra está irreconhecível. Só que a culpa não é toda da chuva, é sobretudo do que fazemos nos dias a seguir.
Quem tentou semear estas duas em julho sabe como acabou: plantas a florir em três semanas e folhas amargas. Semeadas agora, comportam-se de outra maneira, e o sabor até melhora com o frio.
A rotina que salvou as plantas em agosto passa a ser um problema agora. Continuar a regar como há um mês é o erro mais comum do outono e o que mais plantas mata.
A rotina é a mesma de sempre, a casa está à mesma temperatura, e no entanto as plantas começam a perder folhas. O que mudou está do lado de fora da janela.
Num setembro que ainda vai a 30 ºC, as plantas começam a mudar de comportamento. Não estão a responder ao calor nem à chuva, estão a medir uma coisa muito mais fiável.
Nas últimas semanas antes da colheita joga-se uma corrida com duas frentes. Cada dia a mais na planta melhora a maturação, mas também aumenta o risco de perder o cacho.
Depois de um verão inteiro sem chover, a primeira chuvada raramente é a bênção que parece. Grande parte da água escorre à superfície e leva consigo a melhor camada da terra.
Ainda dá para semear, mas o tempo disponível mudou. A partir de agora não é o calor que manda, é a conta dos dias que faltam até a planta deixar de conseguir crescer.
Regar de dois em dois dias funciona até deixar de funcionar. A quantidade de água que a horta gasta muda todos os dias, e a temperatura sozinha não chega para explicar essa diferença.
Rega todos os dias, a terra até está húmida, e a planta continua a murchar. O que está a falhar não é a água, é a temperatura a que as raízes estão a viver dentro daquele vaso.
Vê formigas a subir e a descer pelos caules e assume que são elas que estão a estragar a planta. Na verdade, andam ali por causa de outra coisa, e é essa que está a fazer o estrago.
Ao contrário de quase todas as doenças das plantas, esta não precisa de chuva para se instalar. Prospera nas semanas secas de agosto e usa a humidade da noite para se multiplicar.
Uns racham de um dia para o outro, outros ganham uma mancha escura na ponta. São dois problemas diferentes, mas a origem é a mesma e nenhum deles se resolve com adubo.
A data da vindima não se decide em setembro, decide-se agora. O calor destas semanas, as noites e a chuva que cair até ao fim do mês já estão a escrever o perfil do vinho deste ano.
Enquanto no interior o sol nasce a bater com força, aqui as manhãs são de neblina cerrada. Isso muda a rega, adianta as doenças e explica porque há tomates que teimam em não amadurecer.
De um dia para o outro aparecem espigas brancas no topo e as folhas deixam de saber ao que sabiam. Não é falta de jeito, é o próprio calendário a mandar na planta.