Rosa Moreira, agrónoma: "as favas e as ervilhas semeadas agora dão colheita em março"
Há quem guarde as sementes de fava para fevereiro, à espera de tempo melhor. É o engano mais caro do calendário da horta, porque estas duas culturas precisam exactamente do contrário.

Novembro parece o pior mês possível para semear seja o que for. Os dias estão curtos, a terra está fria e vem chuva atrás de chuva.
Para a maior parte das hortícolas é mesmo. Para as leguminosas de inverno é o momento certo, e por uma razão que nada tem a ver com aguentarem o frio.
Porque é que se semeiam agora e não na primavera
A planta semeada em novembro não cresce quase nada durante o inverno, e é precisamente isso que se pretende. Enquanto a parte de cima parece parada, a raiz desce e instala-se.
Quando as temperaturas sobem, em fevereiro e março, a planta já tem raiz feita e arranca de imediato para a floração. Uma fava semeada em fevereiro tem de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, raiz e flor, e chega sempre atrasada.
E o atraso cobra-se duas vezes. Primeiro porque a floração apanha calor, e com calor a flor vinga mal e caem muitas vagens novas. Depois porque a explosão de pulgão-preto chega em abril e maio, e encontra a planta tardia ainda tenra e em plena flor, em vez de já com vagem formada.
Quanto frio aguentam, e onde convém proteger
Aguentar o inverno não é o mesmo que aguentar qualquer noite do inverno. A tabela seguinte reúne os limites aproximados de cada uma, e sobretudo a fase em que o frio faz estragos a sério.
Cultura | Aguenta até cerca de | Fase mais sensível | Nota |
|---|---|---|---|
Fava | -6 ºC em planta jovem | Flor e vagem recém-formada | A mais rústica das duas |
Ervilha rasteira | -5 ºC em planta jovem | Flor | Dispensa tutor |
Ervilha de trepar | -4 ºC em planta jovem | Flor e rebentos novos | Tutor colocado logo na sementeira |
| Resistência aproximada ao frio das leguminosas de inverno, com a fase em que o dano é maior. Os valores referem-se a plantas jovens e bem enraizadas, variam com a variedade e com o estado da planta, e o risco é sempre maior nos pontos baixos do terreno, onde o ar frio se acumula, e em noites de céu limpo e sem vento. Fonte: elaboração própria. | |||
Daqui sai a diferença entre regiões. Em Bragança e nas terras altas convém semear na primeira quinzena de novembro, para a planta chegar ao frio a sério já com algum porte. Em Leiria e no litoral a janela estende-se confortavelmente por dezembro. Em Beja e no sul há margem até janeiro, embora quem semeia cedo colha sempre mais.
O que estas plantas fazem ao solo enquanto crescem
Há uma razão para as leguminosas entrarem em todas as rotações de culturas, e ela não está à vista. Está debaixo da terra, agarrada às raízes.
Se arrancar uma planta no fim do ciclo e sacudir a terra, vê os nódulos sem dificuldade: bolinhas do tamanho de uma cabeça de alfinete agarradas às raízes finas. Corte uma ao meio, e se estiver rosada por dentro é porque esteve a trabalhar.
Daqui saem duas regras práticas. Não adube com azoto, porque a planta, tendo-o à mão, deixa de o fixar e gasta tudo em folha. E não repita leguminosas no mesmo canteiro dois anos seguidos, para não acumular as doenças de raiz que as afectam.
Semear, na prática
A fava enterra-se a quatro ou cinco centímetros, com vinte a vinte e cinco centímetros entre plantas e cerca de sessenta entre linhas. A ervilha fica mais à superfície, a dois ou três centímetros, e mais junta na linha.

Não ponha as sementes de molho antes de semear, por muito que o conselho ande por aí. A semente embebida absorve água depressa de mais, racha, e em terra fria e húmida apodrece em vez de nascer.
Se semear ervilha de trepar, ponha o tutor no mesmo dia. Espetar canas num canteiro já cheio de plantas é a melhor maneira de cortar raízes que estavam a trabalhar há meses.
E semeie em linha dupla, com as duas linhas próximas. As plantas apoiam-se umas nas outras e aguentam muito melhor as rajadas das depressões de inverno do que uma linha isolada.
O erro que se comete na colheita
Fica para o fim o gesto que decide se todo este trabalho serve só para esta colheita ou também para a seguinte.
Quando a produção acabar, não arranque as plantas. Corte os caules rente ao solo e deixe as raízes na terra. Os nódulos ficam lá e vão libertando o azoto à medida que se decompõem, exactamente no sítio onde vai semear a seguir. A parte de cima vai para o composto ou fica à superfície, como cobertura.
É nesse canteiro que deve pôr o tomate, a courgette ou as couves da época seguinte. Arrancar as plantas pela raiz leva embora, num gesto, o adubo que elas passaram o inverno a fabricar.
E fica outra coisa, para abril. Assim que as primeiras vagens estiverem formadas na fava, corte os vinte centímetros da ponta de cada planta. O pulgão-preto instala-se precisamente nos rebentos tenros do topo, e tirá-los afasta boa parte do problema sem produto nenhum, além de mandar a energia para as vagens. Essas pontas comem-se salteadas, como se fossem espinafres.
Para escolher o dia, veja a previsão da sua zona. Semeie com a terra húmida mas ainda trabalhável, alguns dias depois de chuva e nunca na véspera de uma série de dias de chuva forte. A semente da fava é grande e rica, e em solo encharcado apodrece antes de chegar a nascer.