Lesmas e caracóis: o regresso com a humidade e como proteger as sementeiras novas
Semeou um canteiro de alfaces e, três dias depois, não resta nada. Eles não chegaram agora de lado nenhum. Estavam ali enterrados o verão inteiro, à espera da primeira chuva a sério.

Durante o verão parecem não existir. Passam semanas sem se ver um, e é fácil concluir que a horta se livrou deles.
Depois chove, e numa única noite desaparecem as plântulas todas de um canteiro acabado de semear.
Não desapareceram, estavam à espera
O que explica este regresso em massa é um comportamento com nome próprio, e é o mesmo que lhes permite atravessar um verão português sem morrer de secura.
Estivação-Estado de dormência que alguns animais adoptam para atravessar o verão, quando o calor e a secura tornam a vida à superfície impossível. É o equivalente estival da hibernação. As lesmas e os caracóis enterram-se, selam a abertura da concha ou retraem-se num muco endurecido, e esperam pela humidade.
Basta uma chuvada decente e algumas noites amenas para toda essa população voltar a estar activa ao mesmo tempo. Não é uma invasão, é um regresso.
E apanha a horta no pior momento possível, porque é exactamente quando temos sementeiras acabadas de nascer, com folhas tenras e plantas tão pequenas que um só ataque as elimina por completo.
Como saber se foram eles
Antes de agir, convém confirmar o culpado, porque os estragos confundem-se.
Procure buracos irregulares, com bordos lisos e sem forma definida, começados muitas vezes pelo meio da folha. E procure rasto de muco, que brilha à luz rasante da manhã e é a assinatura que não falha.
Se houver buracos mas nenhum muco, e se encontrar pequenos excrementos escuros nas folhas, o responsável é provavelmente uma lagarta.
O que resulta mesmo, e o que não
Há muita coisa escrita sobre lesmas e nem tudo aguenta a prova do terreno. A tabela seguinte separa o que compensa do que é desperdício de tempo, com a eficácia que cada método tem na prática.
Método | Eficácia real | Nota |
|---|---|---|
Apanha à mão, à noite | Muito alta | O mais eficaz de todos, e gratuito |
Retirar abrigos junto aos canteiros | Alta | Age sobre a causa, não sobre o sintoma |
Armadilhas de cerveja | Média | Apanham, mas também atraem de longe |
Isco granulado autorizado | Alta | Seguir sempre a dose e o rótulo |
Barreiras de cinza ou areia | Baixa | Deixam de funcionar assim que molham |
Fita de cobre | Baixa a média | Resultados inconsistentes em canteiro aberto |
Casca de ovo partida | Muito baixa | Não constitui barreira real |
| Eficácia prática dos métodos mais divulgados para controlo de lesmas e caracóis em horta familiar. A avaliação refere-se a condições de outono com solo húmido, em que a pressão é máxima, e qualquer método isolado rende menos do que a combinação de vários. Fonte: elaboração própria. | ||
Aquela linha das barreiras secas merece explicação, porque é das sugestões mais repetidas. Cinza, areia grossa e casca de ovo criam uma superfície desconfortável enquanto estão secas. Com o orvalho da noite ou a primeira chuva, deixam de ter qualquer efeito, e é precisamente nessas noites que a pressão é maior.
Proteger as sementeiras, que é o que interessa
Uma planta adulta aguenta alguns buracos. Uma plântula de três dias não aguenta nada, por isso é aí que vale a pena concentrar o esforço.
Semeie em viveiro sempre que a cultura o permita e transplante já com algum porte, em vez de deixar as plântulas expostas durante semanas no canteiro.
Limpe uma faixa de meio metro à volta dos canteiros novos, retirando restos de vegetação, tábuas e vasos encostados ao chão, que são os abrigos onde passam o dia.
E regue de manhã em vez de ao fim da tarde. Um canteiro regado às seis da tarde está húmido e convidativo precisamente às horas em que eles saem.
Duas ou três noites que resolvem o problema
Fica para o fim o que mais resultado dá e que quase ninguém faz com método.
Depois de uma chuvada, entre as nove e as onze da noite, saia com uma lanterna e percorra os canteiros. Vai encontrar quase toda a população à vista, porque é a essa hora que estão em actividade. Duas ou três noites seguidas chegam para reduzir drasticamente o problema durante semanas.

Em zonas de outono muito húmido, como Ponte de Lima ou Braga, vale a pena repetir sempre que vier uma série de dias de chuva.
E fica um aviso que contraria o instinto de limpeza. Não limpe tudo. Se arrasar todos os abrigos do terreno, também fica sem os predadores, que são os sapos, os ouriços, os escaravelhos do solo e os melros, e esses fazem o trabalho todas as noites sem que lhes peçam nada. Deixe um canto com pedras, folhada e vegetação por cortar, bem afastado dos canteiros de sementeira, e limpe a sério apenas a faixa imediatamente à volta das plantas novas.
Nas próximas semanas, acompanhe a previsão da sua zona e repare em duas coisas: a chuva acumulada e as mínimas. Depois de uma chuvada seguida de noites entre os dez e os vinte graus, conte com eles e saia com a lanterna.