Depressões de outono: o que o vento forte faz às árvores e às estufas
Chegam as primeiras depressões do Atlântico e, com elas, as árvores tombadas e os plásticos pelo ar. Quase sempre o estrago não vem da força do vento, vem de uma combinação que se podia ter evitado.

A partir de outubro, Portugal volta a ficar na rota das depressões que atravessam o Atlântico. Trazem chuva, trazem queda de temperatura e trazem sobretudo vento.
E há uma razão para o outono ser a estação em que mais árvores tombam, que não tem a ver com o vento ser mais forte do que no inverno.
O número a vigiar é a rajada, não a média
Nas previsões de vento aparecem sempre dois valores, e é fácil olhar para aquele que não interessa. Convém saber qual é qual, porque só um deles explica os estragos.
Velocidade máxima atingida pelo vento num curto instante, por oposição ao vento médio, que é a média ao longo de um período. Nas previsões aparecem os dois valores. Os estragos em árvores, estufas e culturas são provocados quase sempre pela rajada, que pode ser o dobro da média.
Um dia com vento médio de 30 km/h e rajadas de 80 km/h não é um dia de vento moderado. É um dia em que, várias vezes, a estrutura apanha um empurrão três vezes mais forte do que aquilo que o número da média sugere.
Porque é que o outono é pior do que o inverno
Aqui está a combinação que explica tudo.
No outono, as árvores de folha caduca ainda têm a copa cheia, e cada folha é uma pequena vela que apanha vento. Ao mesmo tempo, as primeiras chuvas já encharcaram o solo, e uma raiz em terra saturada agarra muito menos do que em terra firme.
Copa cheia e solo mole é a receita do desenraizamento. Em janeiro, com a árvore já sem folhas, o mesmo vento passa por entre os ramos sem fazer força nenhuma.
Vale a pena perceber o que esperar a cada escalão de rajada, porque é esse número que aparece na previsão e é com ele que se decide o que fazer na véspera.
Rajada prevista | O que costuma acontecer | O que fazer antes |
|---|---|---|
50 a 60 km/h | Queda de fruta, ramos finos partidos | Colher o que estiver maduro |
60 a 80 km/h | Plásticos levantados, tutores vergados | Reforçar amarrações e fechar estufas |
80 a 100 km/h | Estufas caseiras perdidas, ramos grandes partidos | Retirar coberturas soltas e vasos altos |
Acima de 100 km/h | Árvores desenraizadas, estragos estruturais | Nada a fazer na hora, só prevenção prévia |
| Efeitos mais frequentes em função da rajada máxima prevista, para condições de outono com o solo já húmido. Os limiares são indicativos e os estragos ocorrem com valores mais baixos em terrenos expostos, em solos encharcados e em árvores com copa densa ou mal enraizadas. Fonte: elaboração própria. | ||
As estufas não se perdem por empurrão, perdem-se por sucção
Este é o erro de raciocínio mais comum de quem monta uma estufa ou um túnel.
O vento não derruba a estrutura empurrando-a de lado. O que acontece é que o ar entra por baixo ou por uma abertura e cria uma pressão de dentro para fora, que levanta a cobertura como se fosse a asa de um avião.
Daí resultam três regras práticas. Enterre bem os bordos do filme em toda a volta, sem deixar nenhuma ponta solta. Mantenha as portas e as janelas fechadas quando se anuncia vento, sobretudo as do lado de onde ele vem. E prenda o filme com fio cruzado por cima, que é o que impede o levantamento.
Em zonas expostas como Viana do Castelo, Peniche ou Sines, a ancoragem importa bastante mais do que a qualidade do plástico.
A véspera, em dez minutos
Quando se anuncia uma depressão com rajadas fortes, há uma ronda rápida que evita a maior parte dos estragos.
Recolha ou deite vasos altos, que tombam e partem. Retire coberturas soltas, redes e lonas que possam voar. Verifique tutores e amarrações, porque um tutor partido é pior do que nenhum, pois fere o tronco durante toda a noite. Colha a fruta que estiver madura, porque no chão perde-se. E feche portões e estufas.

Também vale a pena esvaziar depósitos que estejam quase cheios e mal apoiados, porque um reservatório de água em cima de uma estrutura instável é um perigo a sério.
A tentação de podar, e porque é má ideia
Fica para o fim o erro que se comete com a melhor das intenções.
Ao ver uma árvore a abanar, a reacção natural é querer aliviá-la, cortando ramos para reduzir a resistência ao vento. É das piores coisas que se pode fazer nesta altura do ano. As feridas de outubro não cicatrizam, porque a árvore está a entrar em repouso, e ficam abertas a fungos durante todo o inverno. Além disso, uma poda forte estimula rebentos novos e fracos na primavera seguinte, que são os primeiros a partir no ano seguinte.
E há uma coisa ainda mais contraintuitiva sobre os tutores. Uma árvore amarrada com força a uma estaca, impedida de se mexer, não engrossa o tronco como devia, porque é justamente o balanço que a leva a reforçar a base. Fica dependente da estaca e, no dia em que esta cede, parte. O tutor deve ser baixo, amarrar só o terço inferior, permitir algum movimento, e sair ao fim de um ou dois anos.
Nas próximas semanas, habitue-se a olhar para a rajada de vento e não só para a média na previsão da sua zona, e a cruzá-la com a precipitação dos dias anteriores. É essa combinação, e não a velocidade sozinha, que diz se a noite é de risco.