Vernalização: o frio de que algumas plantas precisam para florir

Semeou cenouras cedo de mais e, em vez de raiz, apareceu uma haste com flores. Não foi azar nem má semente. A planta contou o frio que passou e decidiu que já era primavera.

Couve coberta de geada, uma das culturas que precisa de semanas de frio para chegar a florir.
Couve coberta de geada, uma das culturas que precisa de semanas de frio para chegar a florir.

Há uma coisa que quem tem horta observa todos os anos sem lhe saber o nome. Certas plantas, por muito bem tratadas que sejam, recusam-se a florir enquanto não passarem um inverno. E outras, se apanharem frio na altura errada, florescem quando menos nos convém.

É o mesmo mecanismo nos dois casos, e tem tudo a ver com a forma como a planta mede o tempo que passa.

O frio funciona como calendário

Uma planta que dependesse da temperatura de um dia qualquer para decidir quando florir enganava-se com facilidade, porque há sempre dias quentes no inverno e dias frescos no verão. Por isso, várias espécies usam um sinal muito mais fiável: o frio acumulado ao longo de semanas seguidas.

Vernalização- Período prolongado de frio que algumas plantas precisam de viver para ficarem aptas a florir. Tipicamente são quatro a oito semanas com temperaturas entre os zero e os dez graus, consoante a espécie e a variedade. Sem esse frio, a planta continua a crescer em folha e nunca sobe a flor.

O nome vem do latim e refere-se justamente à primavera. A ideia é essa: o frio não faz a planta florir de imediato, faz com que ela fique preparada para florir quando os dias voltarem a aquecer e a alongar.

Não confundir com as horas de frio das árvores

Esta é a confusão mais comum, e vale a pena arrumá-la de vez.

As macieiras, as cerejeiras e os pessegueiros também precisam de frio no inverno, mas por outro motivo. Estão sem folhas, paradas, e o frio serve para as acordar do repouso. Chama-se a isso necessidade em horas de frio e diz respeito à quebra da dormência.

A vernalização é outra coisa. Acontece em plantas que estão vivas e em folha, e não serve para as acordar, serve para lhes dar autorização para florir.

Nas árvores, o frio serve para acordar a planta. Nas hortícolas, serve para lhe dar autorização para florir. São mecanismos diferentes.

Quem precisa de frio, e para quê

As culturas da horta têm necessidades de temperatura diferentes e essa informação deve estar presente na sua mente antes de decidir o que cultivar. Na tabela abaixo pode encontrar as necessidades de cada cultura relativamente à temperatura, efeitos na cultura e "eventos" seguintes.

Cultura

Frio necessário

O que acontece depois

Interessa-nos?

Cenoura

Várias semanas abaixo de 10 ºC

Sobe a semente na primavera

Só para guardar semente

Beterraba

Semelhante à cenoura

Sobe a semente

Só para semente

Cebola

Frio com a planta já desenvolvida

Sobe a semente e o bolbo não presta

Nunca

Couve-flor de inverno

Período de frio moderado

Forma a inflorescência que se come

Sempre

Couves para semente

Um inverno completo

Florescem no segundo ano

Sim, para semente

Centeio e trigo de inverno

Quatro a oito semanas de frio

Espigam na primavera seguinte

Sempre

Valores indicativos de exigências de frio de algumas culturas da horta. Fonte: elaboração própria.

Repare na coluna da direita. Nas plantas de que comemos a raiz ou o bolbo, a floração é o pior que pode acontecer, porque a planta passa a investir tudo na semente e a parte que nos interessa fica fibrosa e sem qualidade. Nas couves-flor e nos cereais de inverno, é exatamente o contrário: sem frio não há colheita nenhuma.

Quando o frio se torna um problema

Aqui está a parte prática que explica muitos fracassos de horta.

Se semear cenouras, beterrabas ou cebolas demasiado cedo, as plantas chegam ao inverno já crescidas. Apanham o frio todo, ficam vernalizadas, e na primavera seguinte fazem o que a natureza manda: sobem a flor em vez de engrossar.

O mesmo acontece com as couves plantadas cedo de mais, que em vez de repolhar sobem a semente logo em março.

A data de sementeira é que decide tudo

E porque é que umas plantas vernalizam e outras não, se todas passaram o mesmo inverno? Porque não basta o frio, é preciso que a planta tenha tamanho para o sentir.

Plantas ainda pequenas de mais para registarem o frio, a razão pela qual as datas de sementeira contam.
Plantas ainda pequenas de mais para registarem o frio, a razão pela qual as datas de sementeira contam.

Existe uma fase inicial de vida em que a planta é simplesmente incapaz de responder ao frio, por muito que ele seja. Só a partir de um certo desenvolvimento, que nas cebolas corresponde a um caule com meio centímetro de espessura e nas couves a um valor parecido, é que o sinal começa a ser registado.

É por isso que as datas de sementeira, que parecem tradição sem explicação, são afinal cálculo puro. Semeia-se numa altura que deixe a planta pequena de mais para vernalizar antes do frio chegar, mas com tempo suficiente para crescer depois dele.

E o frio também se pode perder

Fica para o fim o pormenor que menos se conhece e que mais depende do tempo que fizer.

O frio acumulado não é definitivo. Se, a meio do processo, vier uma semana de temperaturas altas, parte desse frio é anulado e a contagem recua. Chama-se a isso desvernalização, e explica porque é que em invernos irregulares, com períodos amenos pelo meio, algumas culturas se comportam de forma inesperada.

Tem também uma consequência geográfica. Em zonas de inverno frio e constante, como a Guarda ou Bragança, o frio acumula-se sem interrupções e as plantas vernalizam sem dificuldade. No Algarve, em Faro, há invernos em que certas variedades nunca chegam a reunir frio suficiente, e é por isso que ali se escolhem variedades com exigências mais baixas.

A partir de agora, comece a reparar nas temperaturas mínimas da previsão da sua zona. Não é o frio de uma noite que conta, é a soma de semanas seguidas, e é isso que as suas plantas estão a contabilizar em silêncio.