Solo ainda quente, ar já frio: porque é que outubro é o melhor mês para plantar
A primavera parece a altura óbvia para plantar, e é por isso que tanta gente planta nessa altura. Só que, em Portugal, quem planta no outono costuma ter plantas melhores e com menos trabalho.

Pergunte a dez pessoas quando se planta uma árvore e nove dizem que é na primavera. A ideia faz sentido, porque é a estação em que tudo rebenta e cresce.
Acontece que a parte da planta que mais precisa de se instalar não está à vista, e essa trabalha segundo outro calendário.
A terra não arrefece ao mesmo tempo que o ar
O ar muda de temperatura em horas. A terra demora semanas, porque é uma massa enorme que absorveu calor durante todo o verão e o liberta devagar.
Capacidade que o solo tem de resistir a mudanças de temperatura. Aquece devagar na primavera e arrefece devagar no outono, pelo que anda sempre atrasado em relação ao ar. É por isso que, em outubro, podemos ter noites já frias sobre uma terra que ainda guarda o calor de agosto.
Em boa parte do país, o solo a dez centímetros de profundidade ainda anda tipicamente pelos 15 a 18 ºC em outubro, enquanto as mínimas do ar já descem bastante abaixo disso. Esse desencontro dura algumas semanas e é a razão de ser de todo o calendário de plantação de outono.
Raízes e rebentos não obedecem ao mesmo sinal
Aqui está o mecanismo que explica tudo.
A parte aérea da planta responde sobretudo à luz e à temperatura do ar. Com dias curtos e noites frescas, abranda e prepara-se para parar. A raiz responde à temperatura do solo, e continua a crescer enquanto a terra estiver morna.
O resultado é que tudo o que a planta tem para investir vai para baixo. Passa o outono e o inverno a construir raiz, sem gastar nada em folha, e chega à primavera com um sistema radicular já instalado.
Quem planta em março faz o contrário. A planta tem de criar folhas e raízes ao mesmo tempo, com os dois a competir, e chega ao primeiro verão com uma raiz pequena para sustentar uma copa grande. É aí que começa a dependência da mangueira.
A janela não é igual em todo o lado, porque depende da rapidez com que o solo arrefece. A tabela seguinte dá uma ideia de como ela se fecha de norte para sul.
Região | Janela de plantação | Fecha quando |
|---|---|---|
Interior norte e terras altas | Outubro a meados de novembro | O solo desce abaixo dos 10 ºC |
Interior centro | Outubro a final de novembro | Com as primeiras geadas firmes |
Litoral norte e centro | Outubro a dezembro | Raramente fecha por frio |
Sul e Algarve | Outubro a janeiro | Praticamente não fecha |
| Períodos aproximados em que o solo mantém temperatura suficiente para as raízes crescerem, por grandes regiões de Portugal continental. A janela varia com a altitude, a exposição e o ano, e encurta em solos encharcados, onde a falta de oxigénio trava o enraizamento mesmo com calor. Fonte: elaboração própria. | ||
O que plantar nesta janela
Tudo o que seja perene e resistente ao frio aproveita. Árvores e arbustos, fruteiras, sebes, roseiras, aromáticas perenes como o alecrim e a lavanda, morangueiro, alho, bolbos de primavera e adubos verdes.
O que não entra nesta lista são as culturas sensíveis à geada. Um tomateiro ou uma courgette plantados agora não têm qualquer vantagem, porque não vão sobreviver ao inverno.
Em Bragança convém não deixar passar outubro. Em Coimbra há folga até ao fim de novembro, e em Faro a janela estende-se praticamente por todo o inverno.
A chuva faz metade do trabalho
Há uma vantagem prática que se soma a tudo isto e que muita gente subestima.
Uma planta posta na terra em outubro vai ter cinco ou seis meses de chuva natural para se instalar. Uma planta posta em março tem seis semanas de primavera e depois entra directamente no verão.
Isso traduz-se em menos regas, menos stress e, sobretudo, numa planta que chega a julho capaz de ir buscar água em profundidade em vez de depender do que lhe damos à superfície.
O erro que estraga uma boa plantação
Fica para o fim aquele que se comete com a melhor das intenções e que estraga o que o outono dá de graça.
Quando se planta uma árvore, é natural querer dar-lhe o melhor, e enche-se a cova com terra de compra, composto e adubo. O problema é que se cria assim um bolso de terra rica e fofa no meio de um terreno vulgar. A raiz encontra tudo o que precisa ali dentro e não tem motivo nenhum para sair. Fica a girar dentro da cova, como se estivesse num vaso enterrado, e anos depois a árvore tomba ao primeiro vendaval.

A cova faz-se larga, para a terra estar solta à volta, mas enche-se com a terra do próprio sítio. Se quiser melhorar o solo, melhore uma área grande e pouco, em vez de uma área pequena e muito. É a diferença entre uma planta que se agarra ao terreno e uma que fica ali de visita.
Para escolher o dia, veja a previsão da sua zona e procure a terra húmida mas trabalhável, alguns dias depois de chuva e não na véspera de mais. E repare nas mínimas: enquanto se mantiverem acima dos dez graus, o solo ainda está a trabalhar a seu favor.