Cochonilha e aranhiço: as pragas que entram em casa com as plantas

Recolhe os vasos antes do frio e, seis semanas depois, as plantas estão cheias de bichos. Não os apanharam dentro de casa. Vieram no vaso, e lá dentro encontraram as condições perfeitas.

Massas brancas de aspecto algodoado, com os insectos escondidos lá dentro, facilmente confundidas com bolor ou sujidade.
Massas brancas de aspecto algodoado, com os insectos escondidos lá dentro, facilmente confundidas com bolor ou sujidade.

Todos os outonos se repete a mesma cena. As plantas que passaram o verão na varanda entram para casa com óptimo aspecto e, por volta do Natal, estão irreconhecíveis.

A explicação não está na casa nem na falta de cuidado. Está no facto de o interior ser, para duas pragas em particular, o melhor sítio do mundo.

Lá dentro não há nada que as trave

Cá fora, as populações destas pragas são controladas por três coisas: a chuva, que as lava fisicamente das folhas, os predadores naturais, e o frio, que trava a reprodução.

Dentro de casa não existe nenhuma das três. Pelo contrário, há aquecimento, que seca o ar de forma extrema, e temperatura constante durante meses.

Lá fora, a chuva e os predadores controlam-nas. Dentro de casa não há chuva, não há predadores e ainda se liga o aquecimento.

O resultado é que uma população que cá fora passava despercebida, dentro de casa multiplica-se sem travão nenhum.

Duas pragas diferentes, com sinais distintos

São duas pragas distintas, com sinais diferentes e tratamentos diferentes, e confundi-las faz perder semanas. A primeira é a mais visível das duas e, curiosamente, aquela que mais passa despercebida.

Cochonilha- Grupo de insectos que se fixam na planta e se alimentam da seiva, protegidos por uma carapaça ou por uma massa branca de aspecto algodoado. Movem-se muito pouco depois de se instalarem, o que leva a confundi-los com sujidade, bolor ou uma anomalia da própria planta.

O aranhiço-vermelho é outra coisa. É um ácaro minúsculo, quase invisível a olho nu, que vive na página inferior das folhas e produz teias finíssimas nos ângulos entre as folhas e os caules.

Praga

Onde procurar

O que se vê

O que a favorece

Cochonilha algodão

Axilas das folhas e base dos caules

Massas brancas de aspecto algodoado

Ar parado e plantas apertadas

Cochonilha de carapaça

Caules e nervura central

Saliências castanhas, fixas e duras

Plantas sem folhas lavadas

Aranhiço-vermelho

Página inferior das folhas

Pontilhado claro e teias muito finas

Ar seco e quente, junto ao aquecimento

Melada e fumagina

Folhas e superfícies por baixo

Brilho pegajoso e camada preta por cima

Presença das cochonilhas acima


Onde inspeccionar e o que procurar nas pragas mais comuns das plantas de interior no outono e inverno. A melada é o líquido açucarado libertado pelas cochonilhas, e a fumagina é o fungo preto que se instala sobre ela, sem atacar a planta directamente. Fonte: elaboração própria.

Antes de entrar os vasos, vale a pena saber onde procurar e o que esperar encontrar em cada caso, porque os sítios não são os mesmos.

A quarentena, que quase ninguém faz

Aqui está a medida mais eficaz de todas e a mais fácil de ignorar.

Antes de juntar os vasos que vêm de fora às plantas que já estão dentro de casa, deixe-os separados durante duas a três semanas, numa divisão à parte. Inspeccione-os duas vezes por semana.

Esse período chega para revelar qualquer coisa que tenha vindo escondida, e evita que uma planta contamine a colecção inteira. A mesma regra vale para plantas compradas, que são uma das vias de entrada mais comuns.

Aproveite também para lavar bem as folhas antes de entrar, com água corrente, pelos dois lados, e para rever o vaso por baixo, onde costumam esconder-se lesmas, bichos de conta e formigas.

Quando já estão instaladas

Comece sempre pelo mais simples, porque resulta mais do que parece.

Para a cochonilha, um cotonete embebido em álcool, passado uma a uma sobre as massas brancas e as carapaças, resolve em infestações pequenas. Demora, mas é eficaz e não deixa resíduo nenhum.

Para o aranhiço, uma lavagem forte da página inferior das folhas, repetida de cinco em cinco dias durante três semanas, quebra o ciclo. A repetição é essencial, porque os ovos não são afetados e é preciso apanhar as gerações seguintes à medida que nascem.

O ácaro e as teias finíssimas que produz, sempre na página inferior da folha, onde passa despercebido.
O ácaro e as teias finíssimas que produz, sempre na página inferior da folha, onde passa despercebido.

Em ambos os casos, isole a planta afectada enquanto a trata, e corte e deite fora as partes muito atingidas em vez de tentar salvar tudo.

Contra o aranhiço, faça o contrário do que o instinto manda

Fica para o fim a medida mais contraintuitiva, e também a mais eficaz.

O aranhiço-vermelho prospera em ar seco e quente. É literalmente aquilo que um radiador cria à sua volta. E, no entanto, o sítio onde quase toda a gente põe as plantas no inverno é precisamente junto à fonte de calor, por achar que estão mais protegidas do frio.

Afaste as plantas do aquecimento e suba a humidade à volta delas. Um prato largo com água e seixos por baixo do vaso, sem que a base toque na água, cria uma zona húmida permanente. Agrupar vários vasos tem o mesmo efeito, porque as plantas transpiram umas para as outras. E uma pulverização de água sobre as folhas, de poucos em poucos dias, torna o ambiente desconfortável para o ácaro.

É uma medida que não custa nada, não envolve produto nenhum, e sozinha resolve a maior parte dos casos.

Antes de recolher os vasos, veja as mínimas na previsão da sua zona. Em Bragança, a altura de entrar as plantas sensíveis chega bem mais cedo do que em Lisboa, mas em qualquer dos casos vale mais entrar cedo e com calma, com tempo para a quarentena, do que à pressa na véspera da primeira geada.