Primeiras geadas: como saber se a sua zona já está em risco

A previsão dizia três graus e, de manhã, metade da horta amanheceu branca. Não foi engano da previsão. O termómetro está a dois metros do chão, e as plantas não.

Geada branca sobre couves depois de uma noite de céu limpo e sem vento, a combinação que a provoca.
Geada branca sobre couves depois de uma noite de céu limpo e sem vento, a combinação que a provoca.

Todos os anos acontece o mesmo. Olha-se para a previsão, vê-se uma mínima de três ou quatro graus, conclui-se que não há perigo, e no dia seguinte há folhas queimadas.

A previsão não estava errada. Estava apenas a medir noutro sítio.

O termómetro está onde as plantas não estão

As temperaturas das previsões são medidas em abrigo meteorológico, a cerca de um metro e meio ou dois do solo, ao abrigo do vento e da radiação. É uma convenção que permite comparar valores entre estações.

Numa noite limpa e sem vento, o solo perde calor para o céu e arrefece mais depressa do que o ar acima dele. Junto ao chão, onde estão as folhas das alfaces, podem registar-se dois a quatro graus a menos do que o valor previsto.

Uma previsão de três graus pode significar zero no canteiro. O risco de geada começa muito antes de a previsão chegar a zero.

Nem todas as noites frias são noites de geada

Há duas maneiras de o frio chegar a uma horta, e só uma delas é frequente em Portugal. Distingui-las é o que permite saber quais são as noites de risco a sério.

Geada de radiação-Forma-se em noites de céu limpo, sem vento e com ar seco, quando o solo liberta para o céu o calor que acumulou de dia. É a geada mais comum em Portugal, aparece em manchas e concentra-se nos pontos baixos do terreno. Distingue-se da geada de advecção, que chega com uma massa de ar frio e vento, afecta tudo por igual e é bem mais rara entre nós.

As três condições têm de estar presentes ao mesmo tempo. Com nuvens, o calor fica retido e não há geada. Com vento, o ar mistura-se e não arrefece junto ao solo. Com ar húmido, a condensação liberta calor e trava a descida.

É por isso que duas noites com a mesma mínima prevista podem acabar de maneiras completamente diferentes. A tabela seguinte cruza a mínima com o estado do céu e do vento, e traduz essa combinação no risco real junto ao solo, que é onde estão as plantas.

Mínima prevista

Céu e vento

Risco real junto ao solo

5 ºC ou mais

Limpo e sem vento

Baixo, mas possível em baixas

3 a 5 ºC

Limpo e sem vento

Alto, geada provável

3 a 5 ºC

Encoberto ou com vento

Baixo

0 a 3 ºC

Limpo e sem vento

Muito alto, geada certa

0 a 3 ºC

Encoberto ou com vento

Moderado

Abaixo de 0 ºC

Qualquer condição

Geada generalizada

Risco de geada ao nível do solo em função da temperatura mínima prevista e das condições de céu e vento. Os valores são indicativos e o risco aumenta em zonas baixas, em terrenos descobertos e em noites de ar seco, com o ponto de orvalho muito abaixo da mínima. Fonte: elaboração própria.

O frio corre como a água

Aqui está o que explica porque é que, no mesmo terreno, umas zonas gelam e outras não.

O ar frio é mais pesado do que o ar quente. Em noites calmas, escorre pelas encostas abaixo e acumula-se nas partes baixas, em covas, junto a muros e em qualquer sítio onde não tenha saída.

Uma horta encostada a um muro na base de uma encosta pode ser vários graus mais fria do que a mesma horta a vinte metros de distância, a meia encosta. É por isso que os olivais e os pomares antigos estão quase sempre nas encostas e raramente no fundo dos vales.

Em Bragança e na Guarda as primeiras geadas aparecem tipicamente ainda em outubro. Mas mesmo em zonas de inverno ameno, como Évora, há sempre pontos baixos que gelam enquanto o resto do terreno escapa.

O que fazer na véspera, e o que fazer de manhã

Cubra antes do pôr do sol, e não à noite. O que se quer é reter o calor que o solo acumulou durante o dia, e esse calor perde-se nas primeiras horas depois do anoitecer.

Use um tecido, uma manta térmica ou até um lençol velho, e evite plástico em contacto directo com as folhas, porque o gelo forma-se na própria superfície e queima.

De manhã, deixe as plantas descongelar devagar e à sombra, porque o degelo rápido faz mais estragos do que o gelo.
De manhã, deixe as plantas descongelar devagar e à sombra, porque o degelo rápido faz mais estragos do que o gelo.

Regue o solo ao fim da tarde. A terra húmida guarda e devolve mais calor do que a terra seca, e a água que evapora durante a noite sobe a humidade do ar junto às plantas, o que trava o arrefecimento.

E, de manhã, resista a duas tentações. Não regue as plantas geladas com água para as descongelar, e não as arranque. Uma planta congelada parece morta às oito da manhã e recupera por completo às onze, desde que descongele devagar e à sombra. Se puder, mantenha a cobertura até o sol estar alto, porque o que mais danos faz não é o gelo em si, é o degelo rápido ao sol directo.

Faça o mapa de geada do seu terreno

Fica para o fim o conselho que vale por todos os outros e que não custa nada.

Na manhã a seguir à primeira geada a sério, saia cedo e percorra o terreno antes de o sol bater. Repare onde está branco e onde não está. Marque no telemóvel ou num papel.

Esse desenho repete-se praticamente igual todos os anos, porque depende do relevo e não do tempo. Fica a saber exactamente onde não deve pôr as culturas sensíveis, onde vale a pena cobrir primeiro e onde pode plantar à vontade.

É o tipo de informação que nenhuma previsão lhe dá, porque funciona a uma escala de metros, e que só se obtém olhando para o próprio terreno numa manhã fria.