Mudança da hora: o que muda na horta quando anoitece uma hora mais cedo

No último domingo de outubro, o relógio atrasa uma hora e de repente é noite ao fim da tarde. Para as plantas não muda rigorosamente nada. Para quem trata delas, muda quase tudo.

No último domingo de outubro o relógio atrasa uma hora, mas o sol mantém o mesmo horário
No último domingo de outubro o relógio atrasa uma hora, mas o sol mantém o mesmo horário

A 25 de outubro, às duas da manhã, os relógios recuam para a uma. No dia seguinte ainda é dia às oito da manhã, mas às seis da tarde já está escuro, e a sensação é a de que o outono chegou de um dia para o outro.

Convém começar por desfazer uma ideia. As plantas não reagem a isto de maneira nenhuma.

O sol não sabe que mudámos os relógios

No dia 25 o sol nasce e põe-se exactamente como no dia 24. A duração do dia é praticamente a mesma, a trajectória é a mesma, a energia que chega às folhas é a mesma. O que mudou foi apenas o número que o relógio mostra quando isso acontece.

Hora solar e hora legal- A hora solar é dada pela posição real do sol, e o meio-dia solar é o instante em que ele está mais alto. A hora legal é a convenção que usamos nos relógios. No horário de inverno, em Portugal continental, as duas andam relativamente próximas, com diferenças de poucos minutos a cerca de meia hora conforme a região e a época.

Isto tem uma consequência prática que compensa. No horário de inverno, quando o relógio marca meio-dia, o sol está mesmo perto do ponto mais alto. Ou seja, as horas de maior radiação voltam a corresponder ao que o nome diz, ao contrário do que acontece no verão.

O que muda mesmo é a sua rotina

Aquela janela de trabalho ao fim da tarde, depois do emprego, desaparece de um dia para o outro. E não volta até fevereiro.

A consequência é que todas as tarefas que costumava fazer às seis ou às sete da tarde passam a ter de ser feitas de manhã ou ao fim de semana. Vale a pena rever a lista com atenção, porque algumas não se limitam a mudar de hora, mudam de lógica.

A tabela seguinte reúne as tarefas mais comuns da horta e mostra como se devem deslocar a partir do dia da mudança, assumindo um dia útil normal.

Tarefa

Até 25 de outubro

A partir de 25 de outubro

Regar

Manhã cedo ou fim da tarde

Só de manhã

Pulverizar

Fim da tarde, sem vento

Meio da manhã, depois do orvalho secar

Abrir a estufa

Por volta das 10h

Por volta das 10h

Fechar a estufa

Perto das 19h

Perto das 16h30

Colher folhosas e aromáticas

Fim da tarde

Meio da manhã

Transplantar

Fim da tarde

Meio da manhã ou início da tarde

Horários indicativos para Portugal continental em finais de outubro, pensados para quem trabalha durante o dia. As horas variam com a região e vão recuando ao longo do inverno, à medida que o pôr do sol antecipa. Fonte: elaboração própria.

Porque é que regar ao fim da tarde deixa de servir

Esta é a mudança de lógica mais importante, e não tem a ver com a escuridão.

Com o arrefecimento das noites, a humidade do ar sobe muito depois do pôr do sol. Água posta nas folhas às seis da tarde já não tem sol nem calor para secar, e fica lá a noite inteira.

Horas seguidas de folha molhada são exactamente o que a maioria dos fungos precisa para se instalar.

No verão, regar ao fim da tarde poupava água. No outono, regar ao fim da tarde é convidar as doenças a entrar.

O mesmo vale para a estufa. Fechar às sete da tarde, como se fazia, passa a significar fechar muito depois do sol se pôr, com o ar já húmido e frio lá dentro. Feche enquanto ainda há sol, para guardar calor seco em vez de humidade.

Onde o país não anda todo ao mesmo tempo

Há um pormenor geográfico que se nota mais nesta altura do ano.

Portugal continental tem a mesma hora de uma ponta à outra, mas o sol não. No interior nordeste, em Bragança, o sol põe-se perto de um quarto de hora mais cedo do que no litoral oeste, à mesma hora de relógio. Quem vive lá tem ainda menos tarde do que quem vive em Lisboa, e isso soma-se a um anoitecer que já é curto.

Os Açores, por sua vez, mudam a hora na mesma noite, mas mantêm sempre uma hora de diferença em relação ao continente.

O que realmente devia estar a acompanhar

Fica para o fim o que importa mesmo, porque a mudança da hora é um acontecimento de um dia e isto é um processo que já vem de junho.

Desde o solstício que o dia encurta, e nesta altura perdem-se cerca de dois a três minutos de luz por dia. Ao fim de um mês é mais de uma hora. A mudança de relógio não acrescenta nem tira nada a essa conta, apenas torna a perda subitamente visível.

É por isso que vale mais olhar para a hora do nascer e do pôr do sol na previsão da sua zona do que para o relógio. Esses valores dizem-lhe quando pode realmente trabalhar, quando é seguro regar, e a que horas começa a janela em que o orvalho já secou.

O relógio muda duas vezes por ano, em março e em outubro, e só a nossa rotina se altera.
O relógio muda duas vezes por ano, em março e em outubro, e só a nossa rotina se altera.

E há um número que passa a merecer atenção a partir de agora. À medida que o nascer do sol atrasa, a hora mais fria da noite empurra-se também para mais tarde, e a janela em que pode haver geada vai-se alargando semana a semana. Quando as mínimas começarem a aproximar-se de zero, é essa hora, e não o relógio, que lhe diz quando cobrir as plantas.