Alho: a data de plantação que decide o tamanho das cabeças

Toda a gente planta alho e quase toda a gente se queixa do mesmo: cabeças pequenas. O problema raramente está na terra ou no adubo, está no dia em que os dentes foram enterrados.

Dentes de alho a serem enterrados um a um, com a ponta virada para cima e a poucos centímetros.
Dentes de alho a serem enterrados um a um, com a ponta virada para cima e a poucos centímetros.

O alho é das culturas mais fáceis da horta e, ao mesmo tempo, das que mais desilude. Planta-se, nasce bem, passa o inverno verdinho, e em junho saem umas cabeças do tamanho de uma noz.

A explicação não está em nada do que se faz durante o inverno. Está numa decisão tomada agora, em outubro, e que depois já não se consegue corrigir.

O alho tem duas vidas separadas

Ao contrário da maioria das hortícolas, o alho não cresce de forma contínua até à colheita. Faz duas coisas distintas, uma a seguir à outra.

Primeiro cria folhas e raízes, e é nisso que gasta todo o outono e todo o inverno. Depois, a certa altura da primavera, pára por completo de fazer folha nova e passa a encher o bolbo com as reservas que essas folhas produziram.

Bulbificação:

Momento em que a planta deixa de investir em folhas e passa a formar e a encher os dentes. Não é desencadeado pela idade da planta nem pelo adubo, mas sobretudo pela duração do dia: quando os dias passam das doze ou treze horas de luz, conforme a variedade, o interruptor liga-se e já não há volta atrás.

Em Portugal, essa duração atinge-se por volta de abril. E atinge-se na mesma data, quer a planta tenha sido posta na terra em outubro, quer tenha sido posta em janeiro.

Cada folha é uma camada do bolbo

Aqui está a mecânica que explica tudo o resto.

Cada folha que o alho forma antes da bulbificação corresponde a uma camada do bolbo, e é nas axilas das folhas interiores que se formam os dentes. Uma planta que chegue a abril com dez folhas tem material para uma cabeça grande e bem compartimentada. Uma planta que lá chegue com quatro folhas não tem.

O alho não escolhe quando engrossar, é o calendário solar que escolhe por ele. Cada semana de atraso na plantação é uma folha a menos.

Por isso é que adubar em abril não resolve nada. Nessa altura a planta já não faz folha nova, e o fertilizante chega quando o tamanho possível da cabeça já está determinado.

A relação entre a data e o resultado é suficientemente direta para se poder pôr em números. A tabela seguinte mostra, para as condições médias do nosso território, quantas folhas a planta costuma conseguir formar consoante o mês em que vai à terra, e que tipo de cabeça isso acaba por dar.

Altura da plantação

Folhas até à bolbificação

Resultado provável

Outubro

8 a 10

Cabeças grandes e bem formadas

Novembro

6 a 8

Cabeças médias

Dezembro

5 a 6

Cabeças pequenas

Janeiro ou mais tarde

3 a 4

Cabeças muito pequenas ou bolbo único

Relação entre a data de plantação, o número de folhas formadas até à bolbificação e o tamanho esperado da cabeça, em condições médias de Portugal continental. Os valores são indicativos e variam com a variedade, com a região e com o rigor do inverno de cada ano. Fonte: elaboração própria.

Aquele bolbo único da última linha é uma cabeça sem dentes nenhuns, redonda como uma cebolinha. Acontece quando a planta não teve tempo nem frio suficiente para diferenciar os dentes, e é o sinal clássico de plantação tardia.

O provérbio marca o limite, não o ideal

Diz o ditado que no dia de São Martinho se planta o alho e se prova o vinho. É boa memória popular, mas convém lê-la como prazo e não como data recomendada.

Quem planta a 11 de novembro ainda apanha uma colheita razoável. Quem planta três ou quatro semanas antes apanha cabeças visivelmente maiores, porque dá à planta mais um mês de temperaturas amenas para fazer folha antes de o frio travar o crescimento.

Há também diferença de região. Em Vila Real ou noutra zona de inverno rigoroso, outubro é mesmo o mês, porque o crescimento pára cedo. Em Beja e no sul, com outonos mais longos e amenos, há margem confortável até meados de novembro.

O dente que se escolhe é o tamanho que se colhe

Esta é a parte onde se perde metade do resultado sem dar por isso.

Separe a cabeça apenas no dia da plantação e escolha os dentes maiores e exteriores. Os pequenos do interior dão plantas fracas e cabeças pequenas. Muita gente faz exactamente ao contrário, guardando os melhores dentes para a cozinha e plantando os miúdos, e depois não percebe o resultado.

Alho de supermercado: muitas vezes tratado para não abrolhar, e por isso pouco fiável para plantar
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Evite também alho de supermercado. Além de poder trazer doenças do solo, muito do alho de armazém é tratado para não abrolhar, e simplesmente não nasce.

Como plantar, sem complicar

Enterre cada dente com a ponta virada para cima, a três ou quatro centímetros de profundidade, deixando dez a quinze centímetros entre dentes e cerca de trinta entre linhas.

O alho não tolera terra encharcada, e em solos pesados vale a pena fazer camalhão para a água escoar. Nada de estrume fresco, que apodrece os dentes. Se o solo precisar de matéria orgânica, use composto bem curtido.

O que ainda vai decidir o tamanho na primavera

Ficam duas coisas para o ano que vem, porque são as únicas que ainda somam depois de outubro.

Se plantou alho roxo, a planta vai lançar uma haste floral no meio da primavera. Corte-a assim que aparecer. A planta deixa de gastar energia a fazer semente e passa a investi-la no bolbo, com ganhos que podem chegar a cerca de um quinto do peso. E essas hastes tenras são excelentes salteadas, portanto não se deita nada fora.

Depois, pare de regar duas a três semanas antes da colheita. Alho arrancado de terra húmida conserva-se mal e apodrece no armazenamento.

Nas próximas semanas, escolha o dia pela previsão da sua zona. O melhor momento é com o solo húmido mas trabalhável, alguns dias depois de uma chuvada e não na véspera de outra. O solo de outubro ainda guarda calor do verão, e é esse calor que faz a raiz pegar depressa.