Bolbos de primavera: o que plantar em outubro para florir em março
Enterram-se agora, esquecem-se durante o inverno e aparecem sozinhos em março. Mas há bolbos que se dão bem no nosso clima e outros que precisam de um frio que, em boa parte do país, não existe.

De todas as coisas que se fazem na horta e no jardim, poucas dão tanto por tão pouco trabalho. Abre-se um buraco, enterra-se, tapa-se, e cinco meses depois nasce uma flor sem se ter feito mais nada.
O que quase ninguém diz é que grande parte dos conselhos sobre bolbos vem de países onde o inverno é outra coisa. E isso explica muitas tulipas que nunca repetem.
Um bolbo é uma planta já montada
Vale a pena perceber o que se está a enterrar, porque explica porque é que é tão fácil.
Órgão subterrâneo formado por folhas modificadas e carnudas, que guardam reservas. Lá dentro já está tudo: as folhas, o caule e, na maioria dos casos, a flor do ano seguinte, em miniatura. O bolbo não é uma semente, é uma planta inteira em pausa, com despensa própria.
É por isso que não precisa de adubo no primeiro ano. Tudo o que vai aparecer em março já foi fabricado na primavera passada, com as folhas do ano anterior, e está ali guardado à espera.
O frio é a chave que falta no sul
A flor que está lá dentro não sai sozinha. Precisa de passar por um período de frio para que o caule se alongue e a flor suba, e cada espécie tem a sua exigência.
Nos invernos de Bragança ou da Guarda isso não é problema nenhum. Já em Faro, ou em boa parte do litoral, há anos em que as tulipas e os jacintos simplesmente não reúnem frio bastante.
Convém então separar os bolbos que se instalam e repetem todos os anos daqueles que, no nosso clima, valem por uma época e pouco mais. A tabela seguinte reúne os mais comuns, com a profundidade a que se enterram e o comportamento que costumam ter em Portugal.
Bolbo | Profundidade | Floração | Repete nos anos seguintes? |
|---|---|---|---|
Narciso | 12 a 15 cm | Fev. a abr. | Sim, e multiplica-se |
Muscari | 5 a 8 cm | Mar. a abr. | Sim, com facilidade |
Íris bolbosa | 8 a 10 cm | Abr. a mai. | Sim |
Freesia | 5 a 8 cm | Mar. a mai. | Sim, sobretudo no litoral |
Anémona | 5 cm | Fev. a abr. | Sim, se o solo drenar bem |
Allium ornamental | 15 a 20 cm | Abr. a jun. | Sim |
Jacinto | 12 a 15 cm | Fev. a mar. | Fraco no sul |
Tulipa | 15 cm | Mar. a abr. | Raramente, no sul |
| Profundidade de plantação, época de floração aproximada e capacidade de repetir a floração em anos seguintes, para as condições de Portugal continental. A floração varia com a região e com o inverno de cada ano, e a coluna da direita refere-se a bolbos deixados na terra, sem arranque anual. Fonte: elaboração própria. | |||
A regra da profundidade, e a que mais mata
Se não quiser decorar a tabela, há uma regra que funciona quase sempre: enterre o bolbo a duas ou três vezes a sua própria altura. Um bolbo de cinco centímetros vai a dez ou quinze.
Plantar à superfície dá caules fracos que tombam ao primeiro vento e bolbos que gelam. Plantar fundo de mais atrasa a floração e às vezes impede-a.
Mas o que mais mata bolbos em Portugal não é a profundidade nem o frio. É a água parada. Um bolbo é uma despensa cheia de açúcares, e num solo encharcado apodrece em poucas semanas. Em terra pesada, faça camalhão, junte areia grossa ao fundo do buraco, ou plante em vaso, que é onde se controla melhor a drenagem.
E ponha a ponta para cima. Se não perceber qual é, deite-o de lado, que a planta encontra o caminho sozinha.
O erro de depois da floração
Este acontece em maio, mas convém saber desde já, porque decide se há flores no ano seguinte.
Quando a flor murcha, ficam as folhas, geralmente feias e a amarelecer. É muito tentador cortá-las para arrumar o canteiro. Não corte. São essas folhas que estão a refazer as reservas do bolbo para o ano que vem, e cortá-las é condenar a floração seguinte.
Espere que amarelecam e sequem por completo, o que leva seis a oito semanas. Só aí se corta, ou se arranca o bolbo para guardar.
O truque do frigorífico, para quem vive no sul
Fica para o fim a solução do problema com que o artigo começou.
Se vive numa zona de inverno ameno e quer mesmo ter tulipas ou jacintos a sério, pode dar-lhes o frio que o clima não dá. Guarde os bolbos no frigorífico, dentro de um saco de papel, durante seis a oito semanas antes de plantar, a uma temperatura entre os quatro e os nove graus.
Um aviso que faz toda a diferença: longe da fruta. A maçã, a pêra e a banana libertam etileno durante o amadurecimento, e esse gás estraga a flor que está dentro do bolbo. Sai um pé de folhas e nenhuma flor.

Com esse tratamento, plante em novembro ou dezembro, quando o solo já estiver frio. E, sendo realista, trate-as como anuais: florescem uma vez em grande e, no ano seguinte, é melhor comprar novas. Para ter flor sem este trabalho todo, os narcisos, os muscari e as freesias fazem-no sozinhos, ano após ano, e em Lisboa ou no litoral dão-se particularmente bem.
Antes de escolher o dia, veja a previsão da sua zona. O momento certo é com o solo já arrefecido mas ainda trabalhável, depois das primeiras chuvas terem amolecido a terra e antes de ela ficar encharcada.