Morangueiro: o mês de plantar e os erros que comprometem a colheita

A planta de morangueiro chega sem uma folha e com ar de raiz seca. O que acontece nos dez minutos seguintes, e sobretudo a profundidade a que fica, decide a colheita da primavera.

Morangueiro de raiz nua a ser plantado, com a coroa a ficar exactamente ao nível do solo.
Morangueiro de raiz nua a ser plantado, com a coroa a ficar exactamente ao nível do solo.

O terreno já devia estar preparado desde o verão, e agora chega a parte que parece a mais simples de todas: abrir um buraco e pôr lá a planta.

Só que é precisamente aqui que se perde a maior parte das colheitas de morango, e quase sempre por causa de poucos milímetros.

Tudo se decide na altura a que fica a coroa

Quando se olha para a planta que chega, vê-se um feixe de raízes e, no topo, um engrossamento curto de onde vão sair as folhas. É aí que está o que decide a plantação inteira.

Essa zona engrossada entre as raízes e as folhas chama-se coroa. É a parte viva do morangueiro, aquela de onde nascem todos os rebentos, e a única que não pode ser enterrada nem deixada ao ar. Tem de ficar exactamente ao nível do solo.

Enterrada, a coroa apodrece nas primeiras semanas de chuva e a planta morre sem nunca chegar a arrancar. Demasiado alta, as raízes ficam expostas, secam ao primeiro vento e a planta definha.

A diferença entre um morangueiro que vinga e um que apodrece é de poucos milímetros, e está na altura a que fica a coroa.

Vale a pena plantar com calma e verificar planta a planta, porque é um gesto que não se corrige depois.

Da caixa para a terra, no mesmo dia

A planta chega dormente e sem folhas, e é normal duvidar que esteja viva. Está, mas tem pressa. E tem um nome próprio, que aparece nos catálogos e nas etiquetas dos viveiros.

Planta frigo-Planta de morangueiro arrancada do viveiro em repouso vegetativo, limpa das folhas e conservada em câmara frigorífica, a cerca de um a dois graus negativos, até ao momento da venda. Chega sem folhas e com aspecto de raiz seca, mas está viva e carregada de reservas, e arranca com vigor assim que encontra terra húmida.

Ao lado desta aparece também a planta fresca, arrancada no viveiro e vendida de imediato, ainda com algumas folhas e com a raiz em actividade. Serve igualmente para plantar nesta altura, e tudo o que se segue vale para as duas.

Se as raízes forem muito compridas, apare-as até cerca de dez centímetros, para caberem direitas no buraco. Raízes dobradas para cima dentro da cova são outro erro frequente e dão plantas fracas.

Morangueiro enterrado em terra solta, com cuidado para a coroa não ficar coberta
Morangueiro enterrado em terra solta, com cuidado para a coroa não ficar coberta

Mergulhe as raízes em água durante quinze a trinta minutos antes de plantar, e não mais do que isso. O que se pretende é rehidratar, não afogar.

E, acima de tudo, não deixe as plantas ao sol enquanto trabalha. As raízes secam em minutos. Mantenha-as tapadas com um pano húmido e tire uma de cada vez.

Os erros desta fase repetem-se todos os anos e são sempre os mesmos. A tabela seguinte reúne os mais comuns, com o que provocam e como se evitam.

Erro

O que acontece

Como evitar

Coroa enterrada

Apodrece com as chuvas de inverno

Deixar ao nível exacto do solo

Coroa alta de mais

Raízes expostas que secam

Chegar terra até à base da coroa

Raízes dobradas na cova

Planta fraca e produção baixa

Aparar a dez centímetros e pôr a direito

Raízes ao sol antes de plantar

Morte em poucos dias

Tapar com pano húmido e plantar uma a uma

Plantas apertadas

Pouco ar, mais doenças, fruto pequeno

Trinta a trinta e cinco centímetros entre plantas

Estrume fresco na cova

Apodrecimento da coroa e das raízes

Composto curtido, aplicado no verão

Erros mais frequentes na plantação de morangueiro de outono, com a consequência habitual e a forma de os evitar. As distâncias indicadas referem-se a plantação em camalhão com duas linhas. Fonte: elaboração própria.

Depois de plantar, três semanas de atenção

A planta não tem folhas para transpirar, mas tem de criar raiz nova, e para isso precisa de terra húmida de forma constante.

Regue logo a seguir à plantação, mesmo que o solo pareça húmido, para assentar a terra à volta das raízes e eliminar bolsas de ar. Depois mantenha a humidade sem encharcar, durante as primeiras três a quatro semanas.

É também a altura de cobrir. Um plástico preto aquece o solo, abafa as infestantes e mantém o fruto limpo na primavera. Uma camada de palha faz quase o mesmo e é mais barata, embora exija reposição.

Onde plantar, e quando em cada região

O morangueiro quer sol pleno, solo bem drenado e, sobretudo, terra onde não tenha estado morangueiro, tomate, batata ou pimento nos últimos anos.

Em Odemira e no sul, a janela de plantação estende-se confortavelmente por novembro. Em Leiria e no centro litoral, outubro e a primeira metade de novembro são o melhor período. Em Braga e no interior norte, convém não passar muito de outubro, porque a planta precisa de tempo para enraizar antes de o solo arrefecer.

Os estolhos, que são o erro silencioso

Fica para o fim aquele que não dá problema nenhum agora e tira metade da produção depois.

Chega a primavera e o morangueiro começa a mandar para fora uns caules compridos, que se espalham pelo chão em todas as direcções. Parece vigor da planta, e em parte é, mas tem um custo que se paga na colheita.

Estolho-Caule rastejante que o morangueiro emite a partir da coroa e que enraíza nos nós, dando origem a uma planta nova geneticamente igual à planta mãe. É a forma de multiplicação vegetativa da espécie, e cada estolho é alimentado com reservas que de outro modo iriam para o fruto.

No primeiro ano, corte-os todos assim que aparecerem. A planta concentra tudo na coroa e nos frutos, e a diferença na colheita é visível.

No segundo ano é que se inverte a estratégia. Aí, deixe enraizar alguns estolhos das plantas mais saudáveis e mais produtivas, porque é com eles que vai renovar o morangal. Um morangueiro produz bem durante dois ou três anos e depois cai de rendimento, por isso convém ter sempre plantas novas a caminho.

Para escolher o dia, veja a previsão da sua zona. Plante com a terra húmida mas trabalhável, de preferência alguns dias depois de chuva, e evite os dias de vento, que secam as raízes expostas muito mais depressa do que o sol.