Ponto de orvalho: o dado escondido na previsão que anuncia doenças nas plantas
Aparece em todas as previsões horárias, logo ao lado da humidade, e quase ninguém sabe para que serve. É provavelmente o número mais útil da nossa página para quem tem plantas.

Há previsões que dão dez ou doze valores para cada hora do dia. Olhamos para a temperatura, para a chuva e talvez para o vento, e passamos ao lado de um número que explica metade do que acontece às plantas durante a noite.
Esse número é o ponto de orvalho, e vale a pena perceber o que faz.
O que é, e porque é melhor do que a humidade relativa
Ponto de orvalho: temperatura a que o ar teria de arrefecer para que o vapor de água que já transporta comece a condensar. É uma medida direta da quantidade de água no ar, e não muda quando a temperatura muda, ao contrário da humidade relativa.
Esta diferença é mais importante do que parece. Dizer que o ar está a 80 por cento de humidade não diz quanta água lá está, porque 80 por cento num dia de 30 graus é muitíssima mais água do que 80 por cento num dia de 8 graus. A humidade relativa diz a que percentagem o depósito está cheio, sem dizer o tamanho do depósito.
A conta que prevê folhas molhadas
Aqui está a aplicação prática, e é simples.
Durante a noite a temperatura desce. Se descer até ao ponto de orvalho, o vapor condensa nas superfícies mais frias, que são precisamente as folhas. E as folhas amanhecem molhadas sem ter caído uma gota de chuva.
Isto importa porque a maioria dos fungos que atacam as plantas precisa de várias horas seguidas de folha molhada para conseguir infectar. Não é a chuva que os traz, é a duração do molhamento, e o orvalho conta tanto como a chuva.
Basta então comparar dois números da previsão, a temperatura mínima prevista e o ponto de orvalho para essa noite. A tabela seguinte traduz essa diferença no que se pode esperar encontrar ao amanhecer.
Diferença entre a mínima e o ponto de orvalho | O que esperar de manhã | Risco de doença |
|---|---|---|
Mais de 5 ºC | Folhas secas | Baixo |
3 a 5 ºC | Orvalho ligeiro, seca cedo | Moderado |
1 a 3 ºC | Orvalho marcado, folhas molhadas várias horas | Alto |
Mínima igual ou abaixo do ponto de orvalho | Orvalho forte ou nevoeiro prolongado | Muito alto |
Ponto de orvalho negativo e mínima a atingi-lo | Geada em vez de orvalho | Risco de queima pelo frio |
| Relação entre a temperatura mínima prevista, o ponto de orvalho e o estado das folhas ao amanhecer. Os limiares são indicativos e o molhamento dura mais em locais abrigados, em vales e em plantas densas, onde o ar circula menos. Fonte: elaboração própria. | ||
Onde isto muda decisões concretas
Quando a mínima e o ponto de orvalho andam encostados, não regue por aspersão nem pulverize ao fim do dia. Vai acrescentar horas de molhamento a uma noite que já ia estar húmida.
Quando andam afastados, o ar está seco e o risco de doença é baixo, mas aparece outro problema: pulverizar com ar muito seco faz as gotas evaporarem antes de chegarem à folha, e aumenta a deriva. Nesses dias, trate de manhã cedo, quando o ar ainda tem alguma humidade.
E para colher aromáticas ou folhosas, espere que o orvalho seque. Folha molhada apodrece no frigorífico em dois dias.
Há também uma leitura geográfica. No litoral, em Aveiro, o ponto de orvalho mantém-se alto quase todo o ano, porque o ar vem do mar carregado de humidade, e por isso há orvalho com muita frequência. No interior, em Bragança ou em Évora, o ar é bem mais seco e há noites em que a temperatura desce muito sem nunca chegar ao ponto de orvalho.
O mesmo número também prevê geada
Se o ponto de orvalho estiver abaixo de zero e a temperatura chegar lá, em vez de orvalho forma-se gelo directamente sobre as folhas. É a geada branca.
Por isso, uma previsão de mínima de 1 ºC com ponto de orvalho de menos 4 ºC é um aviso muito mais sério do que uma mínima de 1 ºC com ponto de orvalho de 1 ºC, apesar de o número da temperatura ser o mesmo nos dois casos.
Porque é que um ar húmido protege do frio
Fica para o fim a parte que mais surpreende, e que explica noites que parecem contrariar a previsão.
Quando o vapor de água condensa, liberta calor. É o mesmo calor que foi preciso para o evaporar, devolvido ao ambiente. Isso significa que, assim que a temperatura chega ao ponto de orvalho, a condensação começa e passa a travar o arrefecimento. A temperatura deixa de cair com a mesma facilidade.

É por isso que, com um ponto de orvalho alto, é raro a temperatura descer muito abaixo dele. E é por isso que duas noites com a mesma mínima prevista podem acabar de maneiras completamente diferentes: a que tem ar seco atravessa esse valor sem travão nenhum e continua a descer, a que tem ar húmido fica ali presa.
Daqui sai um gesto prático que se usa há muito tempo e que agora faz sentido. Numa noite de risco de geada, regue o solo ao fim da tarde. A água que evapora durante a noite sobe o ponto de orvalho junto às plantas e cria esse travão, e o solo húmido guarda e devolve mais calor do que o solo seco. São uns poucos graus, mas são muitas vezes os graus que decidem.
A partir de agora, quando abrir a previsão horária da sua zona, repare nesse número ao lado da humidade. Está lá todos os dias e conta-lhe o que vai acontecer durante a noite.