Colheita da azeitona: como a chuva e o frio decidem a data da apanha

Cada semana a mais na árvore dá mais quilos de azeite e tira qualidade ao que sai. A decisão não se toma pelo calendário, toma-se a olhar para a chuva e para as mínimas.

Azeitonas ainda verdes no ramo, numa fase anterior ao ponto em que se decide a apanha.
Azeitonas ainda verdes no ramo, numa fase anterior ao ponto em que se decide a apanha.

No olival, a pergunta de outubro e novembro é sempre a mesma: apanha-se agora ou espera-se mais uma semana?

Quem espera ganha rendimento, porque a azeitona continua a acumular gordura. E quem espera arrisca, porque basta um episódio de tempo mau para transformar uma boa colheita num azeite medíocre.

Duas coisas que puxam em sentidos contrários

A azeitona muda de cor de verde para arroxeada e depois para preta, e ao longo desse percurso o teor em gordura vai subindo até estabilizar.

Só que, ao mesmo tempo, descem os compostos que dão ao azeite o amargo, o picante e a resistência à oxidação. Um azeite de azeitona verde rende menos mas dura mais e tem muito mais carácter. Um azeite de azeitona preta rende mais e é mais suave, mas oxida muito mais depressa.

Índice de maturação:

Escala que classifica a azeitona pela cor da pele e da polpa, de zero, totalmente verde, a sete, totalmente preta por dentro e por fora. Calcula-se numa amostra de cem azeitonas e serve para decidir a data da apanha sem depender de impressões.

Para azeite, o ponto que a maior parte dos produtores procura situa-se na transição, com boa parte da amostra já arroxeada mas ainda poucas completamente pretas. Em boa parte do país, isso cai entre o fim de outubro e meados de novembro.

O tempo é que decide se vale a pena esperar

Aqui está o ponto central. O ganho de esperar é lento e previsível, mas a perda por mau tempo é rápida e irreversível.

Cada semana a mais na árvore acrescenta uns quilos. Uma noite de geada ou uma semana de chuva tira muito mais do que isso.

Vale a pena perceber o que cada tipo de tempo faz à azeitona que ainda está na árvore, porque a decisão de antecipar ou esperar depende quase sempre disso. A tabela seguinte reúne os episódios mais frequentes nesta altura do ano.

Episódio de tempo

O que provoca na azeitona

Decisão habitual

Chuva forte e prolongada

Fruto incha, o azeite dilui e o terreno fica intransitável

Antecipar, se o ponto já permitir

Geada firme

Dano nas células, oxidação e sabores a defeito

Apanhar de imediato

Vento forte de depressão

Queda de fruto, que no chão ganha acidez

Antecipar e recolher o caído à parte

Dias amenos e secos

Maturação continua sem risco

Esperar compensa

Granizo

Feridas que abrem porta a podridões

Apanhar em poucos dias


Efeito dos episódios de tempo mais comuns no fim do outono sobre a azeitona ainda por colher, e decisão que costuma ser tomada em cada caso. As respostas variam com a variedade, com o estado de maturação e com o destino da azeitona, e a azeitona de mesa segue critérios próprios. Fonte: elaboração própria.

Porque é que a chuva faz mais estrago do que parece

A chuva antes da apanha tem três efeitos que se somam.

O primeiro é a diluição. A azeitona absorve água e o rendimento por quilo desce, o que significa mais fruta para o mesmo azeite.

O segundo é o chão. Um olival encharcado não deixa entrar máquinas nem redes em condições, e em Mirandela ou em Elvas pode custar duas semanas de espera forçada, com a azeitona a amadurecer de mais entretanto.

O terceiro é a terra que vai agarrada ao fruto. Azeitona suja traz consigo microrganismos do solo, e isso traduz-se depois em acidez e em defeitos de prova que nenhum lagar corrige.

A geada é o caso em que não se discute

Com a chuva há margem de manobra. Com a geada não há.

Quando a temperatura desce abaixo de zero com a azeitona na árvore, a água dentro das células congela e rompe as paredes celulares. A partir daí, a oxidação dispara e aparecem aqueles sabores que na prova se classificam como defeito, e que tornam o azeite não comercializável como virgem extra.

Se a previsão para a sua zona anunciar mínimas negativas e ainda tem azeitona por apanhar, deixa de haver decisão a tomar. Em zonas como Bragança ou o interior da Beira, isso pode acontecer já em finais de novembro.

O relógio que começa quando a azeitona sai da árvore

Fica para o fim a parte que estraga mais azeite em Portugal e que não tem nada a ver com a data da apanha.

Assim que a azeitona é colhida, começa a fermentar. Em pilha ou dentro de sacos, aquece por dentro, e em dois ou três dias o azeite que lá está já perdeu a classificação. Não há lagar que recupere isso.

Azeitona de mesa já curada, que segue critérios de colheita diferentes dos da azeitona para azeite.
Azeitona de mesa já curada, que segue critérios de colheita diferentes dos da azeitona para azeite.

A regra é levar ao lagar no próprio dia, e no limite no dia seguinte. Até lá, caixas vazadas e empilhadas de forma a deixar circular o ar, nunca sacos, nunca montes, e sempre num sítio fresco e à sombra.

Separe também o que caiu ao chão. Essa azeitona tem acidez muito mais alta e, misturada com a boa, arrasta a qualidade do lote inteiro para baixo.

E apanhe de manhã, enquanto a fruta ainda está fresca. Uma azeitona a vinte e cinco graus dentro de uma caixa fermenta bem mais depressa do que uma a doze, e nesta altura do ano a diferença entre apanhar às nove e apanhar às três da tarde é precisamente essa.