Mudar ou não mudar a hora? Eis a questão que divide especialistas e decisores políticos

A Comissão Europeia apela ao fim da mudança de hora, mas os cientistas defendem a sua manutenção. Seja qual for a sua preferência, lembre-se de atrasar o relógio na madrugada deste domingo.

Não se esqueça de atrasar os relógios, este domingo. No continente e na região da Madeira, a mudança é às 2h00 e nos Açores é à 1h00 da manhã. Foto: Alexa via Pixabay
Não se esqueça de atrasar os relógios, este domingo. No continente e na região da Madeira, a mudança é às 2h00 e nos Açores é à 1h00 da manhã. Foto: Alexa via Pixabay

Às duas da manhã, deste domingo, 26 de outubro de 2025, os relógios atrasam uma hora no continente e na Madeira, acontecendo o mesmo nos Açores, à uma da manhã. Amanhece e anoitece mais cedo durante o outono e o inverno. No último domingo de março, porém, voltamos a acertar os ponteiros para a hora de verão. Há 25 anos que é assim.

Já o debate sobre a mudança da hora é um assunto que vem sempre à baila por estas alturas, dividindo as opiniões entre especialistas, sociedade civil e decisores políticos.

Ainda na passada quinta-feira, 23 de outubro, a Comissão Europeia apelou ao consenso entre os estados-membros para pôr fim ao acerto sazonal dos relógios na primavera e outono.

A discórdia no Parlamento Europeu

Esta não é uma questão consensual. Em 2019, o Parlamento Europeu votou a favor do fim da mudança horária até 2021, mas, sem a concordância dos países-membros, a alteração não avançou.

A proposta surgiu na sequência de uma consulta pública da Comissão Europeia, em que 84% dos europeus manifestaram a vontade de acabar com o atual modelo.

Na passada quinta-feira, a Comissão Europeia apelou ao consenso entre os estados-membros para pôr fim ao acerto sazonal dos relógios na primavera e outono. Foto: Vetsikas via Pixabay
Na passada quinta-feira, a Comissão Europeia apelou ao consenso entre os estados-membros para pôr fim ao acerto sazonal dos relógios na primavera e outono. Foto: Vetsikas via Pixabay

A representatividade desse inquérito, todavia, tem sido questionada por vários peritos, uma vez que, dos 4,6 milhões de europeus inquiridos, 3,5 milhões eram alemães. A sondagem deixou por isso de fora a população da esmagadora maioria dos países da UE.

Não sabemos, portanto, o que pensa, por exemplo, quem vive em Portugal. A posição dos especialistas, no entanto, é clara: o fim da mudança horária é uma péssima ideia.

Essa é, pelo menos, a conclusão do relatório A Hora Legal Portuguesa - O Impacto da Hora de Verão, do Observatório Astronómico de Lisboa. Recorrendo a vários estudos sobre as consequências na saúde, na economia e nas poupanças energéticas, o instituto, justifica manter o regime atual na União Europeia.

Atrasar o nascer do sol de inverno

Usar a hora UTC+1 sem horário de verão o ano inteiro pode, à primeira vista, parecer mais apelativo. Mas o relatório relembra as consequências negativas durante o inverno: o acréscimo de mais uma hora ao padrão legal levaria a que o nascer do sol acontecesse perto ou depois das 8h00 durante quase cinco meses, entre meados de outubro e meados de março.

UTC (Tempo Universal Coordenado) é o padrão internacional de referência para fuso horário, que não sofre alterações com a hora de verão e sincroniza eventos globalmente. Equivale à hora média de Greenwich (GMT), o ponto inicial para calcular os demais fusos horários.

A mudança implicaria, desde logo, grandes deslocações para o trabalho e para a escola durante períodos com pouca e difusa exposição solar, aumentando a probabilidade de acidentes.

Acabar com a mudança de hora, em outubro, levaria a que o nascer do sol acontecesse perto ou depois das 8h00 durante quase cinco meses, entre meados de outubro e meados de março. Foto: Thang Ha via Pixabay.
Acabar com a mudança de hora, em outubro, levaria a que o nascer do sol acontecesse perto ou depois das 8h00 durante quase cinco meses, entre meados de outubro e meados de março. Foto: Thang Ha via Pixabay.

O despertar ocorreria também “com as estrelas ainda no céu”, durante 40% do ano. Portugal, aliás, já experimentou a Hora Legal sem horário de verão em 1912-1915, 1922, 1923, 1925, 1930 e 1933, mas não mais a repetiu. E isso, para os especialistas, é um bom indicador de que milhões de pessoas, em três décadas diferentes, não apreciaram este regime.

Atrasar o por do sol no verão

A hipótese da Hora Legal UTC+1 com horário de verão, no ano inteiro, também acarreta consequências, adverte o Observatório Astronómico de Lisboa, relembrando as experiências de 1993 e 1996, que deixaram "más memórias" entre os portugueses.

Neste cenário, em particular, o sol põe-se depois das 21h ou mesmo às 22h na maior parte do verão. Entre inícios de junho e meados de julho a noite escuracomeça depois da meia-noite, já no dia seguinte, o que tem impactos negativos nas horas de sono.

O relatório o defende, como tal, que a soma de impactos negativos torna esta opção a pior de todas. Nenhuma destas hipóteses, aliás, seria uma boa solução, segundo os especialistas do observatório.

O peso da saúde e da economia

A completar a análise sobre os impactos da hora de verão durante o ano inteiro, o relatório aborda ainda os dois argumentos mais usados para defender o fim do acerto sazonal: a poupança de energia e a perturbação no ciclo do sono. Mas ambas as justificações não estão suportadas pela ciência, advertem os especialistas.

Os estudos científicos não encontram evidências de que os ciclos do sono são afetados com a mudança de hora no outono e na primavera. Foto: Tumisu via Pixabay

Ao analisarem 44 estudos sobre os ganhos energéticos, os autores concluem que o valor médio de poupança de energia na Europa não ultrapassa 0,34%, com variações entre os 2,5%, nos países a sul, e menos de 0,5% para países mais a norte.

As alterações a que o ciclo circadiano está sujeito nas transições de e para a hora de verão e o seu impacto no sono e vigília têm sido igualmente objeto de muitos estudos científicos, mas sem demonstrar até agora perturbações significativas em larga escala. O relatório conclui, portanto, que a perturbação é mínima, justificando-se, por isso a manutenção da hora de verão na União Europeia.

Coincidir a mudança de hora com o equinócio

O modelo bi-horário, todavia, poderia ser melhorado se a alteração da hora de verão, em outubro, passasse para o final de setembro em todo o continente europeu, como aliás já foi uma tradição.

Especialistas recomendam antecipar a hora de inverno para setembro, coincidindo com o equinócio. Foto: Peggychoucair via Pixabay
Especialistas recomendam antecipar a hora de inverno para setembro, coincidindo com o equinócio. Foto: Peggychoucair via Pixabay

As mudanças de hora costumavam ocorrer nos equinócios, no fim de março e no fim de setembro, quando o sol está mais perto da zona equatorial do planeta e os dias têm a mesma duração que as noites.

O acerto dos relógios na Europa começou na I Guerra Mundial com o intuito de aproveitar a luz do Sol e poupar carvão. Desde então, os ponteiros têm andado para trás e para diante ao ritmo dos governos, das economias, dos conflitos ou dos costumes.

A medida acabou em 1995, quando, por pressão dos britânicos, a comunidade europeia atrasou a mudança da hora de inverno para outubro. Desde então, não houve mais alterações, mas a discórdia, essa, está longe do fim.

Referência do artigo

A Hora Legal Portuguesa – O Impacto da Hora de Verão e a Escolha da Hora Legal – Observatório Astronómico de Lisboa