Equinócio de Outono: o encanto da terceira etapa

O relacionamento do homem com o planeta estabeleceu-se pela dependência do primeiro às condições do meio. Na impossibilidade de perceber e dominar o que o circunda, o Homem criou antropomorfismos para os fenómenos naturais.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 22 Set. 2019 - 18:00 UTC
A órbita terrestre não é constante. Quando o planeta está no periélio, mais próximo do Sol, viaja mais depressa do que no afélio.

O planeta Terra percorre a uns velozes 30 km por segundo, um percurso elíptico de 942 milhões de quilómetros na sua ininterrupta viagem em torno do Sol. Um cíclico itinerário de 365 dias que, por efeito da inclinação, do ângulo esférico de 23,5⁰ entre o plano elíptico, que descreve a órbita do planeta ao redor do Sol, e o plano equatorial, que divide a Terra em norte e sul, permite experienciar quatro diferentes estações, que se traduzem nos padrões climáticos da primavera, outono, verão e inverno, estas definidas por dois equinócios e dois solstícios.

Imagine-se o céu que vemos todos os dias como uma esfera que circunda todo o planeta, a esfera celeste, e nessa ótica, é possível perceber que o plano elíptico e o equatorial se cruzam numa linha reta que atravessa em dois pontos essa esfera celeste. Quando, pela posição do Sol em relação à Terra, ocorre a incidência dos raios solares de modo perpendicular, significa que um desses dois pontos está a ser atravessado, denominando-se a etapa de equinócio. Nesse momento acontece um fenómeno astronómico chamado de “Ponto Libra” (diametralmente oposto ao Ponto Áries – Equinócio da Primavera), sendo o momento em que, no Hemisfério Norte, a ascensão reta e a declinação astronómica são zero, permitindo que o Sol incida de modo mais intenso, equilibrado e alinhado com a linha do Equador, a linha imaginária que divide o globo terrestre entre os hemisférios norte e sul.

O planeta Terra encontrar-se-á pela segunda vez na sua expedição anual, a uma menor distância do Sol, às exatas 08h50 de segunda-feira, dia 23 de setembro, marcando o instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, passará no equador celeste, e teremos o fenómeno astronómico chamado de dia perfeito, com doze horas de luz solar a doze horas de escuridão nos dois hemisférios: no Norte começa o Outono e no Sul a Primavera, prolongando-se este estágio por 89,8 dias até ao próximo Solstício que ocorrerá no dia 22 de Dezembro.

Voltando o planeta a passar mais próximo do Sol, por que ficará menos calor?

Porque a origem dos padrões climáticos, a que chamamos de estações do ano, está relacionada não só com a distância que separa o planeta do Sol, como também com a inclinação de 23,5⁰ do eixo da Terra em relação ao Sol, uma peculiaridade que faz com que os raios solares incidam de forma diferente ao longo do ano.Para além disso, há que considerar fatores como a circulação atmosférica e oceânica planetárias, assim como, a retenção do calor pelo chamado efeito de estufa, como determinantes disseminadores graduais e contínuos do calor em torno do planeta.

Ao longo da história da humanidade, a combinação mística do significado dos termos Equinócio e Outono influiu culturas.

O que acontece é que no verão, o Sol “está alto no céu” e por consequência, os dias são mais longos e a incidência dos raios é quase perpendicular à superfície do planeta, deixando a energia mais concentrada. Já no inverno, quando o Sol “está mais baixo no céu”, eles incidem num ângulo mais agudo, dispersando a energia, pelo que, cada metro quadrado de Terra recebe menos calor, o que faz a temperatura diminuir. E isso começa a acontecer com a chegada do Outono.

Equinócio de Setembro marca a transição entre o fim do Verão e o início do Outono

O termo Equinócio deriva do latim aequinoctium - aequus (igual) noctium (noite), significando “noite igual ao dia”, com igual duração. Efetivamente, entre o instante da manhã a Este, em que o Sol está a uma distância zenital de 90⁰ e o instante da tarde, a Oeste, em que se encontra novamente a uma distância zenital de 90⁰ passam-se 12 horas. Analogamente, Outono provém do latim autumnus, significando “mudança”, sendo por isso esta época considerada um período de renovação.

Culturas como a Maia, entendiam o Equinócio de Outono como o dia em que as maiores divindades desciam à Terra, sendo a mais proeminente dessas Kukulcan, a serpente de plumas, deus da água e do vento. Era considerada uma entidade criadora, tendo esta civilização erguido muitos templos em sua homenagem, destacando-se no caso Chichén Itzá, uma das principais pirâmides maias, e que ainda na atualidade atrai legiões de visitantes aquando do fenómeno anual do Equinócio do Outono.

No dia em que ele ocorre, pode ser observado na escadaria do templo durante apenas algumas horas, um feixe de luz ladeado por uma sombra, a descer degraus abaixo a escadaria da pirâmide, uma imagem denominada de “serpente de plumas”. Este fantástico espetáculo acontece porque, a construção do templo tem uma inclinação de 20⁰ em relação ao norte geográfico, situando-se em concordância com o ângulo do sol em relação à estrutura. A história da humanidade narra a importância dos fenómenos astronómicos ao conferir-lhes, por meio da sincronia matemática, edificações honrosas, como modo de participar na energia das forças da natureza e do cosmos. Celebremos então a chegada de mais uma Outono!

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