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Porque Mirandela acordou vestida de branco?

Nem tudo o que é branco e frio é neve! Na passada terça-feira, a cidade de Mirandela, acordou vestida de branco, porém o fenómeno meteorológico não decorreu de um nevão.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 09 Jan. 2019 - 16:24 UTC
Ao longo da sua evolução, a humanidade tem-se familiarizado com a variação estacional dos estados do tempo.

Atravessamos a estação do ano designada de Inverno, caracterizada, efeito do movimento aparente do Sol no céu e em função da latitude, por dias mais curtos, uma vez que o Sol permanece menos tempo acima da linha do horizonte. Ora, com menor tempo de insolação, as temperaturas são mais baixas!

Efectivamente, consequência do movimento de translação e da inclinação do eixo do planeta em relação à sua trajectória ao redor do Sol, actualmente, um ângulo de 23,5⁰ em relação ao plano da sua órbita, faz com que, ciclicamente, em cada ano, durante um período de três meses, os raios solares incidam no planeta de modo mais “inclinado” e por isso, ocorram dias mais curtos e frios, o chamado inverno, num hemisfério, inversamente ao outro, onde o Sol atinge a superfície quase perpendicularmente oferendo mais luz e por maior período de tempo, originando dias mais longos e quentes, estação designada de verão.

Presentemente, aqui, no Hemisfério Norte, vivenciamos as condições meteorológicas típicas do inverno, o mês onde se registam as temperaturas mais baixas – estamos em pleno mês de janeiro, histórica e estatisticamente caracterizado pelos dias e noites mais frias do ano. Ou seja, estamos na “altura do frio”, perigosamente estranho seria se assim não fosse!

A problemática mediática gerada em torno do frio, em Portugal, poderá eventualmente ser mais relacionada com o chamado conforto térmico. Ao contrário dos países de latitudes mais elevadas (onde o frio impera por maior período de tempo, e mais intensamente), nem o parque habitacional está edificado de modo a reunir condições adaptativas em termos de conforto térmico considerando as estações do ano, nem existe uma cultura à “moda dos estratos”, isto é, ao uso de vestuário em camadas, como estratégias mitigadoras dos efeitos do frio.

Em função do fluxo de água e da temperatura, os sincelos nascem quando uma gota de água pendurada começa a congelar.

Então, mas o frio está mais arrefecido?

Nos últimos dias, meteorologicamente, temos estado sob a influência de um anticiclone localizado a sul das ilhas Britânicas, que se tem vindo a estender em crista até às ilhas Canárias, e que transporta na sua circulação o chamado ar polar, um ar frio e seco que provoca um acentuado arrefecimento nocturno e uma grande amplitude térmica. Uma condição que permite a ocorrência de cenários de espectacularidade natural, como o ocorrido em Mirandela na madrugada de ontem.

Na passada terça-feira, a cidade de Mirandela, localizada no nordeste transmontano, um vale do rio Tua, acordou vestida de branco, porém o fenómeno meteorológico não decorreu de um nevão, tratou-se de um "depósito de hidrometeoros"! Ora, este depósito ocorre quando o arrefecimento das superfícies sólidas é suficiente para condensar ou solidificar a humidade do ar, estando reunidas condições para o aparecimento de uma “família” de fenómenos meteorológicos, da qual fazem parte o orvalho, a geada, e o sincelo, este último o que ocorreu em Mirandela!

Ora, os sincelos são pequenas colunas de gelo suspensas, semelhantes a “pirolitos”, formadas pela congelação da água do orvalho, e que escorre da beira de telhados ou outros sólidos, quando a temperatura regista valores inferiores a 0⁰C, abaixo da de congelação. E, a parte que congela primeiro, a mais próxima do pé da gota, forma um tubo oco que continua a crescer verticalmente para baixo, sendo que, por crescerem mais rápido na ponta do que nos lados, ficam com uma forma cónica.

Como referido, tratando-se de um vale, uma região topograficamente propensa à formação de nevoeiros, estes, quando muito densos, podem despoletar a ocorrência de precipitação destes cristais de gelo, daí confundir-se com geada ou nevão. Inegável é que, efectivamente, este tipo de ocorrência meteorológica compõe quadros de belíssimas paisagens naturais, como o que ornamentou ontem Mirandela, carecendo, no entanto, o cumprimento dos cautelosos cuidados inerentes aos efeitos dos extremos de frio, por exemplo, o perigo do gelo nas estradas!

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