Estaremos preparados para os extremos térmicos?

É premente percecionar que a velocidade a que estão a ocorrer alterações nos padrões climáticos que caracterizam o planeta, está a influir direta e determinantemente com a fisiologia do ser humano.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 23 Jan. 2019 - 12:23 UTC
A relação entre clima e saúde está relacionada com a duração que a mudança de tempo infere na sensibilidade do ser humano.

Em conformidade com as previsões delineadas pelo cientista Nobel da Paz Rajendra K. Pachauri (chairman do IPCC 2002-15), estima-se que as alterações, já em curso, nos padrões climáticos, num curto prazo (poucas décadas), tornarão Portugal um território mais desértico. Incontornavelmente, tudo será afetado - da agricultura à pesca, da orografia à saúde humana!

Os modelos climáticos utilizados na exponenciação de cenários preditivos, e considerando a tendência actual de um aumento da temperatura média global de cerca de 0,2⁰ por década, assim como, o contínuo aumento demográfico, o qual tem associada maior demanda por energia e alimentação, apontam para um Portugal com um padrão climático, onde progressivamente se farão sentir extremos térmicos com maior frequência, quer por temperaturas mais elevadas (1ºC a 4⁰C) e em mais picos de dias consecutivos mais prolongados, quer por, paradoxalmente, dias de frio mais intenso com uma descida, verificada já desde 2014, da média anual das temperaturas mínimas.

Apontam igualmente, para maior irregularidade nos episódios de precipitação, quer em termos sazonais, espaciais e volumétricos, o que personificará severas implicações, as quais despoletarão uma cadeia de stresses: solos, plantios, alimentação de animais, preços de alimentos, Homem.

Isto é, comparativamente com a vivência climática com que a humanidade se familiarizou, no curto prazo, passar-se-á a classificar o clima do planeta como violento, considerando que eventos meteorológicos extremos, como cheias, secas, e episódios de ventos de forte intensidade, ocorrerão cada vez mais, com maior frequência e severidade.

O aumento das temperaturas e a diminuição da precipitação ao longo de todo o ano, potenciará um elevado risco de incêndios florestais!

Acções proactivas serão determinantes!

As praticas agrícolas e as culturas desajustadas, face a um padrão climático em “acelerada” mudança, enfrentarão desafios como, alteração das épocas de floração, crescimento e colheita. Do mesmo modo que, a produtividade de culturas como arroz, milho e trigo, enormemente dependentes de regadio, face ao perigoso cenário de escassez do precioso bem água sofrerão drásticas quebras de produção. Urge por isso, diversificar áreas de cultivo, e apostar em espécies, cuja evolução e desenvolvimento natural seja adequado a temperaturas quentes, necessidade de pouca água, com a implementação de mecanismos de rega eficientes e sustentáveis como o milenar “gota-a-gota”.

Acresce considerar que, na generalidade do território português, os edifícios não foram concebidos para mitigar os efeitos de desconforto térmico que os extremos de frio ou calor inferem ao ser humano. Por consequência, e com todas as implicações associadas - económicas e exploração de recursos naturais - haverá um crescente dispêndio energético com mecanismos de arrefecimento, de aquecimento, e na excessiva iluminação dos edifícios e locais públicos. Implementar a chamada arquitetura bioclimática poderia ajudar a uma vivência mais equilibrada Homem – meio – clima. Ou seja, na conceção do edificado, para além da variável local, abordar e considerar o clima – sol, vento, água, como de fundamental relevância para o processo projectual, resultaria eficaz e positivamente, uma vez que é a interação destas condicionantes que propiciam os estados de conforto térmico adequados a cada espaço, e por inerência, aos seus utilizadores.

Atentar ainda que, um cenário de aumento do número de dias com temperaturas mais elevadas, potenciará à proliferação de doenças rotuladas de tropicais. Ficarão reunidas condições, para que o habitat de veículos transmissores de parasitas e vírus como o Aedes aegypti que transmite a dengue, se desloquem para áreas geográficas até então não propícias ao seu desenvolvimento holometabólico, o que despoletará perigosas epidemias. Recordar que os pequenos e frágeis mosquitos, estatisticamente, conseguem ser mais letais que tubarões, serpentes ou grandes felinos, uma vez que têm a capacidade de transportar e transmitir doenças, que anualmente, causam milhões de mortes em todo o planeta!

A adaptação traduz-se num conjunto de modificações, através das quais se consegue um reajuste às condições do meio, e este, deve ser o foco! É assim premente uma mudança de hábitos, a bem de uma vivência mais harmónica com o planeta!

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