Uma reciclagem plastificada?

São diversos e interrelacionados os fatores que influem nas dinâmicas do clima da Terra. Um mecanismo que compreende uma equilibrada combinação quadrangular entre os domínios atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 14 Maio 2019 - 14:34 UTC
O Homem tem alterado o vínculo da dialética relacional com a Natureza, sendo cada vez mais percetíveis os efeitos dessa adulteração.

Continuamente, o Homem tem alterado os níveis da composição química da atmosfera, condicionado artificialmente ou esgotado os cursos de água, modificado os espaços e dizimado taxinomias animais e vegetais. Ora, a crescente moda do consumismo desenfreado, e que chega a parecer impossível de desenraizar, a par do igualmente contínuo crescimento demográfico, aceleram os normais e cíclicos processos de reorganização do caótico e delicado mecanismo que permite a existência de vida na Terra.

São sempre alvo de estranho espanto as notícias que retratam os efeitos nocivos que o Homem produz no meio, eventualmente porque não serão suficientemente ilustrativas do real perigo que representam, não só para uma área restrita, mas para todo o conjunto, uma vez que o planeta é esférico, e neste âmbito, é um circuito fechado, através o qual se percebe o chamado “efeito borboleta”.

O drama do plástico

É incontornável o papel que os polímeros sintéticos representam no desenvolvimento e modernização da sociedade. Possibilitaram uma extraordinária evolução, em áreas tão díspares como a medicina ou a agricultura, permitindo melhores condições de vida ao Homem. Contudo, apesar de toda uma panóplia de vantagens, a utilização deste material também representa uma pesada pegada ecológica.

Não obstante as campanhas que alertam para os perigos ambientais do “usar e deitar fora”, atualmente 91% do plástico produzido no mundo não é reciclado, indo anualmente parar aos oceanos cerca de 8 milhões de toneladas de resíduos plásticos! Mas isso representa um problema? Obviamente que sim! O plástico já se encontra presente na cadeia alimentar do Homem, uma vez que ingerimos seres aquáticos, e também eles, se alimentaram de apetecíveis polímeros que abundam nos mares, para além do alarmante número de fauna marinha morta por ficar presa nos resíduos de plástico!

Estima-se que cerca de 60% da famosa "ilha de plástico" do Pacífico é constituída por material de pesca abandonado! Porque não começar a responsabilizar armadores e pescadores, implementando a obrigatoriedade, por exemplo, de um selo identificativo no material de pesca?


12% do lixo de plástico é incinerado e, apesar de não ir parar aos oceanos, tem também um elevado custo ambiental.

Cerca de 25% do plástico presente no mar, provém dos despojos dos rios, sendo de destacar o considerável contributo de 8 rios asiáticos e 2 africanos, assim como, de acordo com a Ocean Conservancy, mais de metade do plástico presente nos oceanos provir de cinco países asiáticos: China (28%), Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietname. É pertinente ressalvar que, a maior parte dos produtos que o mundo ocidental compra são fabricados na Ásia, pelo que a nossa sede de consumo tem responsabilidade na poluição feita do outro lado do mundo!

Apostar na reciclagem é a solução?

Efetivamente, a média global de reciclagem representa uns singelos 9%, apesar de na Europa praticamente um terço do plástico ser reciclado. Aludir que grande parte do plástico de uso único (garrafas e sacolas), nunca chega a ser reciclado e, cerca de 80% destes resíduos terminam em lixeiras, potenciando o risco de acabar no mar. Porém, o imoral da epopeia da reciclagem, é o facto do mundo ocidental, exportar plástico reciclável para a Ásia por ser mais barato do que reciclar!

Mas o plástico não pode ser continuamente reciclado, uma vez que se vai degradando de cada vez que é transformado, até deixar de o poder ser de todo. A sua reciclagem tem um custo elevado por ser um processo complexo, devido à enorme variedade de densidades entre os diferentes tipos de plástico. Destaque-se aqui as sacolas de plástico! Foi imposto o pagamento das sacas que transportam compras, e aumentada a sua densidade, com o “falso propósito” de diminuir o seu consumo! Foi esquecido o pequeno grande pormenor que, uma vez mais grossos, mais densos, os sacos de plástico demoram ainda mais tempo a decompor-se! Foi realmente uma medida eficaz? Não parece de todo.

Não obstante, existem projectos que alvitram o bom caminho, como o Infinitum, na Noruega, que incentiva empresas e consumidores, tendo conseguido reciclar 97% das garrafas de plástico produzidas! Um mecanismo que funciona na base de empréstimos, e onde o consumidor que compra um produto que é transportado numa garrafa plástica, paga uma taxa adicional por ela, podendo essa taxa ser resgatada, ou, através do depósito numa máquina do projeto que devolve o valor ao consumidor, ou a embalagem é entregue em pequenas lojas e postos de abastecimento de combustível e o seu valor trocado por numerário ou crédito.

A destruição dos plásticos é um crescente e gravíssimo problema social e ambiental. É intrigante, por exemplo, não ter ainda sido difundido e implementado o método que potencia a aceleração da decomposição do plástico, através da ação combinada de moléculas biológicas (enzimas) que atuam numa escala evolutiva que se cinge a poucas décadas, em vez de se aumentar a densidade do plástico das sacolas!

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