Viveremos sem nuvens no céu?

As nuvens são importantes reguladores climáticos, pois condicionam a quantidade de luz solar que atravessa a atmosfera. Assim, o fluxo de calor infravermelho é maior sob os oceanos, por serem zonas parcas em nuvens!

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 19 Mar. 2019 - 12:58 UTC
Algumas das atividades humanas estão a alterar a composição da atmosfera, com profundas consequências nos ciclos biogeoquímicos no planeta.

Na presente era Cenozóica, mas na época do Eoceno, há aproximadamente 50 milhões de anos atrás, o planeta Terra era ligeiramente mais aquecido -cerca de 13°C mais quente- e consequentemente, regiões como o Ártico eram desprovidas do manto de gelo que nos últimos tempos a tem caracterizado.

Atravessamos há já mais de 11 mil anos um período interglaciar, um intervalo geológico, entre períodos glaciares, caracterizado por temperaturas médias mais quentes, propício ao aumento quer de temperaturas quer de concentração de CO2.

É assim “natural”, por serem cíclicas, variações nas condições climáticas neste planeta. Todavia, estas “alterações” ocorreram sempre em escalas de tempo de longo prazo, incontáveis à escala da vida humana, mas o rápido aumento de gases de efeito de estufa na atmosfera, tem vindo a encurtar a escala temporal, particularmente nos últimos 200 anos, e mais substancialmente nos últimos 50 anos.

O que aconteceria se as nuvens desaparecessem?

Começar por referir que o delicado mecanismo que baliza o clima no planeta, o chamado efeito de estufa, é um sistema dinâmico onde ocorrem contínuos processos químicos, que envolvem o comportamento de gases, a energia recebida pelo Sol e reflectida pela Terra, e vapor de água. Neste seguimento, mencionar que cerca de 20% dos oceanos subtropicais são cobertos por uma baixa e fina camada de nuvens, as estratocúmulos, sendo que estas executam a indispensável tarefa de reflectir a luz do Sol ou permitir que esta as atravesse, regulando assim a temperatura, o equilíbrio energético do planeta.

As consequências das alterações climáticas são cada vez mais constatáveis no ambiente e na sociedade humana.

Recentes investigações científicas, consideraram análises estatísticas, correlacionando-as com projecções computorizadas de cenários climáticos, e obtiveram estimativas que apontam para a necessidade de uma concentração de dióxido de carbono, na ordem das 4 mil ppm, para que o estado climático do planeta propiciasse a uma situação congénere do Eoceno.

Contudo, este modelo informático, apurou que, se a concentração de CO2 exceder as 1200 ppm , as nuvens começarão a desaparecer. Sem a cobertura e inerente proteção destas, a luz do Sol, antes refletida, seria mais intensamente absorvida pela terra e pelo oceano, propiciando um “rápido” aquecimento de cerca de 8 a 10 ⁰C, significando o fim da vida como a conhecemos!

Ora, uma vez “sumidas”, as nuvens só reapareceriam quando os níveis de concentração de CO2 voltassem a cair para valores substancialmente inferiores aos que despoletaram a sua extinção. Alicerçada nesta investigação, a comunidade científica alvitrou que a interferência antropogénica será a causa da aceleração das alterações no sistema climático do planeta, com graves repercussões já no presente século. As nuvens são um dos componentes mais importantes do sistema climático, exercendo um papel determinante no balanço radioactivo e no transporte de energia à escala planetária.

Alterações na sua micro-estrutura, impactam quer com a circulação atmosférica, quer com o efeito albedo, quer com a produção e queda de precipitação! Reformular e readaptar o modo de vida que o ser humano pratica, interferido incisiva e abusivamente com os elementos que constituem o planeta, mais do que uma necessidade, é sensato e premente, para que, gerações vindouras tenham o privilégio de, para além do encantador azul do céu, possam admirar halos ou arco-íris, ou dar asas à imaginação ao apreciar as formas brancas e fofas das nuvens que se passeiam pelo céu!

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