Mudanças no clima afectarão o néctar do Douro!

A variabilidade climática influi determinantemente o sucesso ou fracasso dos sistemas agrícolas que incontornavelmente afecta a sustentabilidade produtiva, qualitativa e económica das regiões.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 13 Fev. 2019 - 06:50 UTC
O clima de uma região dita o seu potencial agrícola.

Num cenário de alterações nos padrões de circulação atmosférica, de mudanças climáticas que incontornavelmente afetam a sustentabilidade produtiva, qualitativa e económica das regiões, também na vitivinicultura o factor clima é indissociável do potencial desta actividade, considerando a determinante influência na adaptação da casta à região, e por determinar pilares como a qualidade e sustentabilidade produtiva.

Isto é, o clima influencia esta atividade agro-alimentar, quadruplamente em termos escalares – ao nível da videira, ao nível local, ao nível regional e sinopticamente. Isto porque, variáveis meteorológicas como a radiação solar, a temperatura média, o vento, a precipitação, a acumulação de calor, os extremos de temperatura, a humidade e o balanço hídrico do solo afetam, quer o normal desenvolvimento da videira, quer a produção e a qualidade do fruto, quer a disseminação de doenças.

Do mesmo modo que o quadro climático de uma região define a aptidão das castas, a volubilidade de eventos climáticos, como os extremos de temperatura mínima e máxima ou a severidade de geadas ou granizos, determina tanto a produção, como a qualidade do fruto.

Sabia que Portugal conta com mais de 30 regiões vinícolas?

Efetivamente, Portugal faz parte do TOP 10 da produção mundial de vinho, pretendendo aqui destacar-se a região demarcada do Douro, onde a paisagem ilustra uma história com cerca de dois mil anos de produção de vinho. Falamos da mais antiga região vinícola demarcada no mundo com particular destaque para o seu produto de excelência: o vinho fino, vulgo vinho do Porto. Trata-se, pois, de uma região que abrange mais de 250 mil hectares, composta por 3 sub-regiões: o Baixo e o Alto Corgo e o Douro Superior, onde a altitude média ronda os 440 metros, balizada entre os cerca de 40 e os 1400 metros registados ao longo da cadeia montanhosa do Marão, a qual funciona como barreira defensiva das intempéries provenientes do Atlântico, criando um microclima único no mundo!

As mudanças climáticas influem com a vida das vinhas.

A região demarcada do Douro goza de um clima mediterrânico, com valores de temperaturas normalmente mais baixos a oeste e nas cotas mais elevadas, e mais elevados ao longo do núcleo principal da bacia fluvial e a este, personificando um tipo de clima caracterizado por uma forte consistência inter-anual em termos de insolação, temperatura e evapotranspiração, mas uma significativa variação inter-anual em termos de precipitação, variabilidade esta que, condiciona quer a produção, quer a qualidade da vindima. Num cenário de mudanças nos parâmetros atmosféricos e oceânicos que regulam o padrão climático da região, e que comprometem o seu ciclo hidrológico, o cultivo da vinha, fica consideravelmente mais vulnerável!

O que prevêem os modelos climáticos?

O panorama não parece muito facilitador à continuidade do sucesso da produção da vinha no Douro, sendo premente a adopção de medidas adaptativas! Considerar, que se preconiza uma tendência progressiva, para um aumento das temperaturas médias ao longo do presente século, particularmente significativo no verão, e com uma maior frequência de dias com extremos de temperaturas máximas, assim como, uma tendência generalizada para uma menor precipitação acumulada anualmente, bem como, uma maior amplitude e frequência de anomalias na temperatura mensal.

Ou seja, progressivamente, confluem condições climáticas que afectarão incontornável e determinantemente a produção de vinho na região do Douro, quer no que concerne à quantidade, quer à qualidade do vinho. O mote é mesmo a adaptação, até porque, muitas castas, como a syrah, não são autóctones, e não aguentariam regimes de temperaturas em crescendo.

Assim, acções efectivas terão de ser praticadas, no sentido de serem “reabituadas” castas, estas mais resistentes ao calor e a dias consecutivos de temperaturas elevadas, às ondas de calor que, actualmente se contabilizam em 4 a 5 dias, mas que passarão a prolongar-se por muitos mais dias. Agir com antecedência para mitigar os efeitos é o que se está já a verificar, uma vez que alguns produtores estão a “deslocalizar” as vinhas para as cotas mais elevadas, em prol da defesa do néctar do vale do Douro na escala do tempo!

Publicidade