Duelo de impactes: aquicultura e sobrepesca

A evolução da humanidade foi alicerçada na possibilidade da descoberta de fontes de alimento e, oferecendo o mar, o chamado “livre acesso”, o homem redesenhou a ocupação dos solos do planeta Terra.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 07 Mar. 2019 - 13:40 UTC
A história da exploração dos recursos piscatórios está intima e determinantemente relacionada com a história das sociedades.

A cada espécie animal, no caso, piscícola, corresponde uma zona de conforto térmico, a qual determina o seu desenvolvimento e/ou sobrevivência. Sempre que ocorrem oscilações climáticas personificadas em variações de temperatura, o sistema termodinâmico das águas é afetado, e por inerência, o ciclo de vida dos seus habitantes.

Isto é, o aquecimento e a acidificação da água, aliados à diminuição do oxigénio dissolvido, afetam a dinâmica dos mares, dos cursos de água, e resultam em efeitos como a migração de espécies, problemas com a desova, proliferação de algas, redução no crescimento dos peixes, aumento na predação, culminando em incontornáveis mudanças nos ecossistemas.

Com o contínuo crescimento demográfico verificado desde a segunda metade do século passado, assim como a galopante cultura consumista que não apresenta sinais de abrandamento, os recursos naturais do planeta Terra têm vindo a sofrer drásticos atentados que poderão personificar a extinção de taxinomias.

Exemplo disso é o que tem vindo a acontecer nos oceanos do planeta, não só consequência de elevados níveis de poluição, mas também em resultado de práticas de pesca agressivas, como o arrasto que, para além de destruir o leito oceânico, captura “espécies não-alvo”, bem como sobreexplora desnecessariamente a população marinha, olhando à exacerbada quantidade de pescado diariamente tornada "lixo”.

Oscilações nos padrões climáticos influem com a vida dos ecossistemas marinhos, sendo premente delinear estratégias que mitiguem os efeitos decorrentes.

Como contornar a escassez de alimento?

No sentido de mitigar os efeitos de decénios de más práticas, no que concerne ao modo como o ser humano tem lidado com o ecossistema aquático, a partir de meados da década de 1980, foi adotada a chamada “revolução azul”, fomentando uma acérrima aposta na criação de peixes em explorações industriais. Numa espécie de “jaulas” de rede fundeadas em águas costeiras, são criados milhões de peixes: um processo conhecido como aquicultura. Contudo, confinar um considerável número de indivíduos a áreas delimitadas, acarreta uma série de riscos ambientais, sanitários e até estratégico-financeiros.

Por exemplo, a contaminação fecal, uma vez que a enorme quantidade de fezes produzidas pelos peixes nestas explorações, perturba o equilíbrio natural do ecossistema aquático, podendo levar ao apodrecimento do fundo oceânico! Considerar igualmente as patologias, uma vez que confinar a um mesmo espaço limitado um elevado número de indivíduos, potencia o risco de rápida disseminação de doenças ou parasitas. Para contornar estas condicionantes, são compulsivamente administrados produtos químicos e antibióticos, que pouco mais fazem do que potenciar ainda mais a poluição do meio aquático, considerando os efeitos das carcaças de peixes mortos e o nível de toxicidade das rações não consumidas.

Para além de tudo isso, as variações nos padrões climáticos do planeta refletem-se, inevitavelmente, na base da cadeia, implicam na diminuição da disponibilidade e no aumento dos preços dos ingredientes que compõem as rações, o que torna esta cultura piscícola uma atividade de custos elevados e de alto risco!

Ironicamente, embora a aquicultura tenha sido concebida para combater o problema da pesca excessiva, deve na realidade ser percecionado que esta actividade acaba por contribuir também para o adensar da problemática que envolve a sustentabilidade dos oceanos. Um equilíbrio adaptativo personifica por isso uma necessidade premente, a bem da simbiose homem-meio!

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