Conseguiremos lidar com a escassez da água?

O contínuo aumento demográfico aliado à crescente cultura consumista, dimensionam a problemática da disponibilidade hídrica para cenários de elevada preocupação, considerando o bem água potável como elementar à existência de vida. Saiba mais aqui.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 20 Jul. 2019 - 13:59 UTC
A água é o mais crítico e importante elemento para a existência de vida humana.

Os recursos hídricos são algo constante, contudo, a população, que se estima de 10 biliões até 2050, a par da procura de água, tem aumentado, o que, aliado às cada vez mais frequentes ondas de calor, agravam e adensam o problema de escassez de água nos mais variados pontos do planeta. A redistribuição dos padrões climáticos, que ciclicamente ocorrem no mecanismo atmosférico do planeta, resultam em efeitos da ação combinada, quer da elevação do nível do mar, do aumento da temperatura média, da redução da precipitação, quer do aumento da frequência de episódios meteorológicos extremos, reflectindo-se nos recursos hídricos, na água doce, nos serviços dos ecossistemas terrestres e marinhos, e por inerência, na segurança alimentar.

Os impactes destas alterações refletir-se-ão, obviamente, de modo devastador sobre as regiões e os povos mais pobres, dependentes da agricultura, para a qual precipitação é essencial, e para os habitantes em zonas mais vulneráveis a inundações, com águas contaminadas e falta de saneamento básico. Um cenário que provocará mais migrações – os refugiados da água, e inevitavelmente, mais conflitos locais e regionais, que se poderão exponenciar além-fronteiras. Cresce assim a preocupação com as reais disponibilidades de água, quando considerados indicadores, que apontam para um futuro próximo personificado no ano de 2050, com cidades a disporem de menos de 2/3 de disponibilidade hídrica, relativamente ao que usufruíam em 2015.

Como podemos obter mais água?

Vão surgindo ideias inovadoras, como a publicada recentemente na Bloomberg Businesweek, uma auspiciosa ideia, que sugere rebocar gigantescos icebergues que se encontram ao largo da costa da Antártida, deslocando-os para costas onde a problemática com a disponibilidade de água doce, condiciona o quotidiano das populações.

O precursor é Nicholas Sloane, um sul-africano, residente na cidade do Cabo, cuja profissão é resgatar navios. Atualmente, a cidade do Cabo vivencia graves condicionalismos que implicam até com o “normal” fornecimento de água pela rede pública. No sentido de mitigar os efeitos da escassez de água, Nicholas Sloane e a sua equipa, propõem-se a navegar até uma zona próxima da ilha de Gonçalo Alvares, a cerca de 2600 km a sudoeste da cidade do Cabo, onde seria identificado o icebergue perfeito: um gigantesco bloco de gelo cujo volume se representaria por 900 m de comprimento, mais de 200 m de profundidade, e com mais de cem mil toneladas de peso.

Um monstro que seria deslocado por acção de 2 rebocadores, ligados por uma rede feita de cordas extremamente fortes, com cerca de 3 km de extensão, envolta no icebergue, e puxada por navios cisterna, guiados pelos rebocadores, e ajudados pelas correntes que se dirigem para o Cabo. Uma viagem, que ao fim de cerca de 90 dias, colocaria o icebergue a uma curta distância de cerca de 20 milhas náuticas da cidade do Cabo, donde se poderia proceder à recolha da água.

Consciencializar, poupar, bem gerir e inovar em mecanismos de potabilidade da água, representarão a eficaz estratégia de preservação dos recursos hídricos.

Um projeto audaz que já garantiu o financiamento para a primeira viagem, envolvendo a elevada soma de mais de 200 milhões de dólares, e que somente aguarda autorização governamental para zarpar. Uma possível solução que, a ser bem sucedida, permitirá abastecer a cidade do Cabo com 130 milhões de litros de água, todos os dias, durante um ano, o que, apesar de parecer um elevado volume de água, corresponde apenas a 20% do que a cidade consome anualmente.

O problema da cidade do Cabo é o problema do planeta

A ONU prevê que em 2030 a procura de água exceda a quantidade disponível em cerca de 40%, e particularmente no continente Africano, pelo contínuo crescimento demográfico, e pela expansão de regiões áridas, o cenário será ainda mais gravoso. Urgem assim, medidas eficazes, para assegurar o acesso a água potável.

O projeto em curso na África do Sul não é a única solução para mitigar a problemática da escassez de água potável. Israel, país onde metade da água consumida provém da dessalinização, tem feito consideráveis progressos no que toca às instalações e mecanismos que permitem a dessalinização das águas oceânicas. Trata-se pois, de um método encarado igualmente com alguma cautela e resistência, por ser incrivelmente dispendioso, uma vez que requer a utilização de muita energia eléctrica. Todavia, o paradigma tende progressivamente a alterar-se, com recurso a centrais solares.

À medida que a escassez de água se agrava, a comunidade e os líderes mundiais terão de ponderar investir conhecimento e recursos financeiros para garantirem a existência de um recurso que, lamentavelmente, ainda não se valoriza devidamente. Mas é já um relevante avanço, equacionar soluções, não obstante serem ousadas, como a dos icebergues na Antártida. O importante é ter grandes ideias, tão grandes como o problema.

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