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Surto de ciclones tropicais anómalos no Atlântico: Fiona, Gaston e outros!

A temporada de furacões do Atlântico em 2022 bem que pode ser apelidada de “sui generis”. Este setembro o Atlântico mostra-se frenético e repleto de ciclones tropicais anómalos, como o furacão Fiona, a tempestade tropical Gaston e o sistema que poderá afetar as Canárias.

furacão; tempestade tropical
Nestes últimos dias, o Atlântico tem estado "ao rubro", com um surto de ciclones tropicais...anómalos! De Fiona a Gaston, e outros possíveis sistemas, o que está acontecer?

A temporada de furacões do Atlântico 2022, nos seus primeiros meses, revelou-se “estranhamente” pouco movimentada. Entre junho e agosto, apenas três sistemas tropicais foram nomeados: Alex, Bonnie e Colin. Entre 3 de julho, último dia em que a tempestade tropical Colin esteve ativa, e 1 de setembro, nomeação da tempestade tropical Danielle, passaram praticamente dois meses inteiros, quase 60 dias!

Na verdade, não se registou nenhum ciclone tropical no Atlântico em agosto, facto que, de acordo com Philip Klotzbach, meteorologista e especialista na previsão sazonal de furacões da bacia do Atlântico, ganha outros contornos se observarmos que desde 1950 apenas dois meses de agosto não registaram tempestades tropicais atlânticas nomeadas: 1961 e 1997.

Fiona

O atual furacão Fiona começou por ser uma depressão tropical que se formou no Atlântico a leste das Caraíbas, a 14 de setembro. Entretanto, nove dias volvidos, não só provocou danos maciços, semeando caos e destruição por onde passou, como também se fortaleceu e solidificou em condições invulgares em pleno Atlântico.

Desenvolveu-se para tempestade tropical primeiro e, mais tarde, precisamente pouco antes de fazer landfall em Porto Rico a 18 de setembro, alcançou a categoria 1 na parte sul da Ilha.

No vídeo abaixo observa-se a magnitude deste sistema tropical, que, mesmo possuindo “apenas” categoria 1, lançou ventos fortíssimos, provocou cheias impressionantes e até mesmo arrastamento de pontes devido à poderosa força das águas. Também originou maré de tempestade.

Condições meteorológicas semelhantes ocorreram na sua passagem pela República Dominicana, onde também causou inúmeros estragos, a 19 de setembro principalmente.

Pouco depois de passar por esta ilha, o Fiona, alimentado pela humidade e pelas águas anormalmente quentes do Atlântico, aumentou de intensidade, alcançando a categoria 2 na escala de Saffir-Simpson.

Já pouco depois de ter atingido a categoria 3 de maneira rápida e “explosiva”, a pressão mínima central de Fiona baixou ainda mais, para 961 hPa, e tornou-se o primeiro grande furacão da temporada de furacões do Atlântico em 2022, sendo por isso classificado de “major”. A 20 de setembro, o poderoso Fiona alcançava terra firme (Ilhas Turcas e Caicos), deixando marés de tempestade, vento máximo sustentado de 185 km/h e chuva abundante.

Sem nunca parar de surpreender, Fiona, continuou a galgar mais umas centenas de quilómetros pelo Atlântico acima, rumando para norte a uma velocidade e intensidade impressionantes.

Entretanto sofreu um desvio para nordeste e evoluiu para categoria 4, transformando-se num furacão monstruoso no dia 21 de setembro, com pressão central mínima de 942 hPa e vento máximo sustentado de 213 km/h.

Tal não foi o espanto dos meteorologistas especializados em furacões, quando os principais modelos de previsão começaram a dar sinais do não abrandamento de Fiona em águas atlânticas e do possível landfall, histórico em todos os sentidos, na costa leste do Canadá, e imagine-se, a poder progredir até ao oeste da Gronelândia, já como ciclone pós-tropical.

O mais surpreendente deste furacão é, não só a duração do seu ciclo de vida, como também a intensidade, magnitude e estragos causados (e por causar). Além disso, a invulgar localização, demasiado setentrional para um sistema dito tropical!, dado que se prevê que atinja o leste do Canadá.

Saliente-se também o anormal aquecimento das águas atlânticas em várias áreas que favorecem a circulação anómala deste furacão. O Canadá Atlântico prepara-se para uma noite histórica de temporal (sexta 23 para sábado 24).

Espera-se ventos com força de furacão (superiores a 120 km/h), marés de tempestade, chuva forte, e muitos impactos (inundações e quedas de infraestruturas).

Gaston

Em terras lusas, a tempestade tropical Gaston, embora menos colossal em dimensão em relação a Fiona, é um sistema tropical que poderá causar inúmeros estragos nos Grupos Ocidental (Corvo e Flores) e Central dos Açores. Neste momento, o Aviso Vermelho já está em vigor para estas ilhas, aplicando-se o risco extremo de chuva forte na Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. O Grupo Oriental será pouco afetado.

Saliente-se, em particular, o Pico pela probabilidade de superar 150 l/m2 em pouco mais de 48 horas! Por isso mesmo, prevê-se inundações rápidas e possíveis deslizamentos de terra e de vertentes e derrocadas.

Outros possíveis impactos são a queda de infraestruturas e árvores por causa dos ventos fortes do quadrante Sul que poderão alcançar até 100 km/h nalgumas das ilhas ocidentais e centrais açorianas.

Gaston também é um sistema tropical anómalo porque a sua génese deu-se mais a leste do que é normal na bacia do Atlântico e porque, de novo, um sistema tropical atravessa-se pelos Açores.

Possivelmente induzida por um clima mais quente, a rota dos furacões começa a demonstrar sinais de alterações, dado que são cada vez mais frequentes as incursões de sistemas tropicais, em latitudes dantes “inabitadas” por estes ciclones.

Refira-se o furacão Lorenzo em 2019 nos Açores, ou a incursão até à Europa (Portugal), tanto em 2018 com Leslie, como em 2020 com a tempestade subtropical Alpha. Recentemente, já em 2022, os remanescentes da que foi a tempestade tropical Danielle atingiram Portugal continental e Espanha.

Sistema que poderá afetar as Canárias

Atualmente, há uma perturbação tropical situada entre as Ilhas de Cabo Verde e a costa oeste de África que, de acordo com o NHC possui a probabilidade de 80% de formação de ciclone tropical tanto em 48 horas, como num prazo de 5 dias. Tudo indica que se irá desenvolver.

Caso aconteça, há um cenário probabilístico muito indesejado “em cima da mesa” para os próximos dias por causa do potencial torrencial desta situação meteorológica.

Isto porque este ciclone tropical, também ele anómalo pela sua possível influência meteorológica nas Ilhas Canárias, arquipélago pouco habituado a ciclones desta magnitude, poderá deixar inundações repentinas e destrutivas neste território, entre outros potenciais estragos. Situação para acompanhar connosco, aqui.