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A subida do nível do mar não será tão catastrófica como se tem dito

Uma nova investigação da Universidade de Aveiro integrou, pela primeira vez, modelos numéricos de elevada resolução espacial e adaptados a cada local para concluir que o nível da água vai subir, sim, mas sem catastrofismos. Saiba mais aqui!

inundações
Este estudo fornece uma visão global dos mecanismos físicos que determinam a extensão da inundação em estuários com características geomorfológicas distintas.

Um novo estudo da Universidade de Aveiro (UA), afirma que as notícias sobre o impacto da subida do nível médio do mar decorrente das alterações climáticas nos principais estuários do país são indiscutivelmente exageradas. Praça do Comércio, Algés e Vila Franca de Xira debaixo de água? Marginal da Figueira da Foz alagada? Aveiro, Tróia e todo o litoral algarvio submersos? Tudo isto é um exagero, conclui este estudo da UA.

Os investigadores preveem que, em 2055, cerca de 66 km² de áreas agrícolas e de pastagem estejam inundadas. Em 2100 serão 95 km². Atendendo à densidade populacional, na UA estima-se que mais de 6500 pessoas possam ser afetadas pela subida da água do estuário do Tejo, em 2055. Já em 2100 o número de pessoas afetadas será superior a 12500.

Do mesmo modo, no que às áreas urbanas diz respeito, na Ria de Aveiro (6,4 km² de área inundada em 2055 e 8 km² até 2100), na foz do Mondego (1,4 km² em 2055 e 1,7 km² até 2100), no estuário do Sado (5,6 km² em 2055 e 6,7 km² até 2100) e na Ria Formosa (3,6 km² em 2055 e 4,4 km ² até 2100) os números não são alarmantes, apesar de todos os prejuízos decorrentes da perda de território.

Mas, afinal, o que é que contribui para a subida do nível do mar?

O valor do nível máximo da água nos estuários, derivado da subida do nível médio do mar decorrente das alterações climáticas, depende de vários fatores. Se o nível médio do mar subir meio metro, por exemplo, não implica necessariamente uma subida de meio metro do nível máximo da água em todo o estuário.

As previsões de inundação nos estuários nacionais que têm sido divulgadas na comunicação social são exageradas e consideravelmente superiores às obtidas neste estudo, pois decorrem de trabalhos que desprezam os processos físicos que determinam a propagação da onda de inundação ao longo dos estuários”, esclarece o investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Física (DFis), João Miguel Dias, um dos autores do estudo, publicado na revista Scientific Reports.

Neste estudo, aponta Carina Lopes, uma das autoras, “verificámos que a energia da onda de inundação é fortemente dissipada durante a inundação de planícies de maré e aluviais, e que essa dissipação se traduz numa redução do nível máximo da água, e consequentemente da extensão de inundação”. Este mecanismo é particularmente importante na Ria de Aveiro e nos estuários do Tejo e do Mondego, que possuem extensas planícies de maré e aluviais.

Os investigadores da UA verificaram ainda que “a onda de inundação é amplificada nas regiões a montante da entrada dos estuários do Tejo e Sado, devido à sua configuração geométrica divergente”.

Apesar de ser inevitável um aumento do nível médio do mar, as previsões feitas até agora tendem a ser alarmistas. Este novo estudo da UA utiliza novos dados que dão uma nova perspectiva a este aumento.

No entanto, “esta amplificação não resulta num aumento da área inundada, uma vez que as regiões adjacentes à entrada destes estuários apresentam cotas relativamente elevadas”. Por tudo isto, “concluímos que os modelos de inundação simplificados projetam extensões de inundação particularmente exageradas na Ria de Aveiro e nos estuários do Mondego e Tejo”.