O poder da diferença de pressão!

O tempo está directamente relacionado com as variações de pressão atmosférica no planeta, refletindo-se em fenómenos climáticos como ocorrência de ventos que se deslocam de zonas de alta para baixa pressão.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 01 Fev. 2019 - 19:00 UTC

Falemos então das poderosas forças denominadas de vórtices polares. Uma designação comumente utilizada para referir a forte massa de ar, que se encontra nas latitudes médias (quase-zonal), tratando-se de um sistema de vento estratosférico, que se desenvolve durante o inverno, como resultado do gradiente de temperatura entre as latitudes médias e os pólos.

Ou seja, neste planeta existem dois vórtices circumpolares, cada um deles com duas outras diferentes estruturas, uma na estratosfera e outra na troposfera. Estruturas essas, que implicam na sazonalidade, dinâmica e impactes no clima extremo, e no caso dos eventos severos de frio, estes, estão relacionados com a deslocação transitória na periferia do vórtice troposférico, o qual, é muito maior do que a sua contraparte estratosférica.

O maior contraste topográfico existente no Hemisfério Norte, gera ondas de propagação ascendente mais fortes do que no Hemisfério Sul, o que faz com que o vórtice estratosférico no norte seja mais fraco e mais distorcido do que no sul.

O último aquecimento estratosférico aconteceu sob a região da Sibéria, e o anterior havia ocorrido sob o Atlântico Norte.

Porquê falar do vórtice polar?

Porque nos primeiros dias do passado mês de janeiro, esta “bolha” de ar frio, que se situa entre 15 a 50 km acima da superfície do Polo Norte, dividiu-se em dois “vórtices irmãos”. Ora, o cerne é que, este tipo de ocorrência pode despoletar um efeito dominó em termos de eventos atmosféricos, a começar por exemplo, com a deslocação mais para sul, de células que transportam mais frio, afetando latitudes como o nordeste dos EUA e a Europa Ocidental, e instaurando um período invernal mais severo.

O que acontece é que, a cada outono, à medida que o Ártico vai recebendo menos luz solar, e por inerência, arrefece ainda mais, criando maior disparidade de temperaturas entre o Pólo Norte e o Equador, originando a formação de um tornado gigante - o vórtice polar, cuja validade de existência se confina até ao final da primavera.

A estatística mostra que, em média, a cada dois anos, ocorre um súbito aquecimento ao nível da estratosfera, onde as temperaturas, durante alguns dias, chegam aos 50 ⁰C, e os efeitos dessa ocorrência propagam-se até à superfície, dando-se a separação do vórtice, e a criação de uma área de altas pressões, fazendo sugerir que este se desloca para latitudes mais a sul. Contudo, não é o vórtice polar que se desloca, ele confina-se ao espaço da estratosfera acima do Ártico, é a corrente de jato (troposfera), que por efeito do rompimento do vórtice polar, desliza mais para sul, transportando consigo o ar frio do Ártico.

Qual o seu efeito no clima?

Não reúne consenso, mas é lógica a afirmação de que alterações nos padrões climáticos no Ártico (como a crescente diminuição do gelo polar – com efeito de enfraquecimento do vórtice, ou acentuada variação na TSM), propiciarão a que perturbações no vórtice sejam mais comuns, e com isso, eventos extremos como o que atingiu a Europa no ano passado (Besta do Oriente) sejam mais frequentes e se prolonguem temporalmente.

Este fenómeno, frui de grande variabilidade temporal, existindo registos quer da sua ocorrência consecutiva ao longo de uma década, quer em blocos de biénios, pelo que a sua monitorização é de relevante interesse para a comunidade cientifica, considerando acções adaptativas e/ou mitigadoras que poderão ser formuladas, com vista a uma melhor protecção civil.

O vórtice polar é manifestamente imprevisível, e sendo um dos constituintes do sistema caótico que é a atmosfera da Terra, a predictabilidade da sua ruptura é árdua, mas a hipótese de regiões em latitudes temperadas, vivenciarem eventos extremos de frio severo, expandidos temporalmente, são cada vez mais factuais!

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