O clima da Terra mudou radicalmente há um milhão de anos atrás

Uma mudança na circulação oceânica global conduziu a uma profunda alteração climática do planeta desencadeando um estado de glaciações extremas e duradouras. Esta é a conclusão de um estudo da revista Nature Geoscience.

Alfredo Graça Alfredo Graça 12 Abr. 2019 - 14:15 UTC
Por causas ainda desconhecidas, o sistema climático terrestre sofreu uma mudança abrupta à escala planetária há um milhão de anos atrás.

Há um milhão de anos atrás, o clima da Terra alterou-se radicalmente devido a causas que na verdade ainda são desconhecidas. As grandes massas de gelo continental acumularam-se nas regiões polares, os ciclos glaciares passaram a ser mais longos e frios – os mais intensos na história do Quaternário - e, como consequência, o sistema climático global foi alvo de uma transformação à escala planetária.

A natureza genuína dos mecanismos que alteraram de forma brusca e repentina o clima do planeta no período citado tem sido motivo de debate na comunidade científica internacional há várias décadas. De acordo com um estudo publicado na revista Nature Geoscience, uma redução abrupta na intensidade da circulação oceânica profunda ou termohalina há 950.000 anos – um fenómeno já documentado pelos oceanógrafos Leopoldo Pena e Steven Goldstein (Science, 2014) – potenciou a captura e o armazenamento nas camadas profundas do oceano de dióxido de carbono atmosférico (CO2) à escala planetária.

Como efeito desta desaceleração na circulação oceânica global, “uma parte deste CO2 ficou retida no oceano profundo e assim ficou apto a contribuir para uma mudança climática drástica no sistema planetário” afirmam os investigadores Leopoldo Pena e Maria Jaume-Seguí, membros do departamento de Dinâmica da Terra e do Oceano da Universidade de Barcelona e co-autores do trabalho.

Os autores deste artigo estimam que durante as fases mais extremas desta transição climática, o Atlântico profundo chegou a armazenar uns 50.000 milhões de toneladas de carbono adicionais, em comparação com os ciclos glaciares menos intensos que existiram previamente a um milhão de anos. Devido à retenção de enormes quantidade de carbono nas profundezas do oceano, o nível de dióxido de carbono sofreu uma diminuição na atmosfera, as temperaturas globais tornaram-se mais frias e as camadas de gelo expandiram-se pelo planeta durante este período conhecido como Quaternário.

Foraminíferos do Mar Adriático. Fonte: Wikimedia Commons, Psammophile.

Foraminíferos: os fósseis que desvendam a história climática dos oceanos

Nas profundezas oceânicas, os sedimentos marinhos preservam o registo climático deste período excecional que traduziu-se num momento de inversão, de curvatura do clima na Terra. No marco de investigação, os peritos analisaram a composição isotópica dos vestígios fossilizados dos foraminíferos planctónicos e bentónicos, organismos unicelulares capazes de conceber uma concha mineral de carbonato de cálcio. O estudo destes protozoários, abundantes nos registos fósseis dos sedimentos oceânicos, é decisivo para conhecer as características do clima e os ecossistemas marinhos do passado.

Mudança climática: do passado ao futuro do planeta

Compreender a natureza das alterações climáticas do passado é a chave para melhorar as previsões sobre a evolução do clima no futuro. Na atualidade, alguns dos grandes desafios na paleoclimatologia e na paleoceanografia prendem-se em conhecer com exatidão os mecanismos de retenção e emissão de CO2 nos ecossistemas oceânicos, identificar e determinar a dimensão destes reservatórios e descobrir a capacidade de resposta perante as mudanças na circulação oceânicas.

"O sistema climático da Terra, tal como o conhecemos, não é estanque. O nosso estudo propõe a existência de mecanismos que controlam o clima do nosso planeta que não entendemos por completo” explica Leopoldo Pena. Ainda assim será necessário desvendar muitas incógnitas sobre as alterações na circulação oceânica profunda que caracterizaram este período.

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