Está a nascer um novo mercado de carbono para proteger a natureza da Amazónia ao Norte de Portugal
Investigadores portugueses e brasileiros estão a testar um novo modelo de certificação de carbono que irá ajudar a proteger florestas e populações desfavorecidas nos dois lados do Atlântico.

Nove investigadores portugueses deixaram, em março de 2025, o Centro de Engenharia e Desenvolvimento (CEiiA), na cidade de Matosinhos. Atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil, já junto da fronteira com a Bolívia
Em Porto Velho, capital do estado brasileiro da Rondónia, encontraram-se com quatro especialistas brasileiros do Embrapa, instituto de pesquisa de agropecuária do Ministério da Agricultura, e outros quatro cientistas da Universidade Federal de Rondónia.
No Brasil, a equipa multidisciplinar luso-brasileira está a desbravar os densos caminhos pela floresta Amazónia, mas também pelas culturas típicas da região, como cafezais, plantações de cacau e pastagens agropecuárias.
Em busca de uma economia de baixo carbono
A expedição “Rondónia Carbon” está a avançar no terreno com tecnologias de última geração para proteger o bioma amazónico e o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono na região. Os especialistas do CEiiA estão a medir e a estudar o potencial de sequestro de carbono numa missão que envolve uma estreita articulação com os governos federais do Pará e da Rondónia.
Num esforço conjunto com os colegas brasileiros, os nove investigadores portugueses vão testar uma gama alargada de soluções científicas e tecnológicas com o intuito de criar oportunidades de desenvolvimento económico e sustentável na Amazónia.

A parceria com estes dois estados amazónicos incide sobre três eixos estratégicos: Clima, Florestas e Serviços de Ecossistemas; Clima e Saúde; e Mobilidade Urbana e Cidades Inteligentes. Todas estas vertentes estão assentes num modelo que tem como finalidade certificar o sequestro de carbono do estado de Rondónia.
O que se pretende é obter créditos de carbono que possam ser transacionados no mercado internacional, gerando receitas para financiar a conservação ambiental e promover benefícios socioeconómicos destinadas às comunidades locais.
O que é e como funciona o mercado de carbono?
O mercado de créditos de carbono está agora a dar os primeiros passos na Europa e no Mundo, funcionado como um processo de compra e venda de permissões para emitir gases de efeito estufa (GEE).
Na prática, uma tonelada de CO2 não emitida ou removida da atmosfera gera um crédito, correspondendo a uma tonelada de CO2 equivalente (CO2e). O sistema opera em mercados regulados, que podem ser geridos por governos, entidades públicas ou organismos supranacionais como é o caso da União Europeia.
As empresas que querem reduzir ou compensar as suas emissões podem também participar nestas operações, vendendo e comprando créditos de carbono para incentivar a descarbonização e apoiar projetos ambientais, como o reflorestamento ou a disseminação de energias renováveis.
Tecnologias ajudam a orientar políticas públicas
O projeto que está a ser testado na Amazónia utiliza uma combinação de tecnologia espacial, sensores de solo e algoritmos para recolher dados fiáveis e continuamente atualizados, que irão orientar as decisões públicas e privadas.

Usando várias abordagens em simultâneo, os investigadores estão a cruzar soluções como sensores para medir variáveis biofísicas do solo, dados de satélites de muito alta-resolução para observar em tempo-real áreas de floresta e de cultivo e ainda algoritmos de inteligência artificial que vão criar modelos internacionalmente certificados de créditos de carbono.
O que se espera é que, no final desta empreitada, seja possível desenvolver uma tecnologia de medição de carbono que possa servir de referência a uma metodologia certificada a nível internacional.
O trabalho continua no Norte de Portugal
Concluída a operação no Brasil, os especialistas do CEiiA vão regressar a Portugal, e juntar-se às equipas das universidades do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro.
A metodologia usada na Amazónia será então aplicada a uma escala mais reduzida no Norte de Portugal, especificamente em regiões como o Parque Natural da Peneda-Gerês, o Douro Vinhateiro e as Terras Quentes de Trás-os-Montes.
Tudo isso irá custar alguns milhões, mas o financiamento já está assegurado por ambos os países. No Brasil, os governos do Pará e da Rondónia irão investir uma verba superior a dois milhões de euros, enquanto em Portugal é a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte que irá disponibilizar 1,5 milhões de euros aplicados num projeto com tecnologias desenvolvidas em Portugal.
Referências da notícia
CCDR NORTE e Estado de Rondónia assinam acordo para certificação de carbono. CCDR-N
CEIIA reforça cooperação com Rondónia e Pará para proteger o bioma da amazónia. Centro de Engenharia e Desenvolvimento (CEiiA)