Nesta ilha, o Ano Novo ainda não chegou

Enquanto o mundo celebra a 31 de dezembro, os habitantes de Foula seguem um calendário antigo e só entram no novo ano em janeiro.

Foula
Foula: a ilha que vive fora do relógio do mundo. Foto: Wikimedia // Dr Julian Paren

3, 2, 1, Feliz Ano Novo! A Passagem do Ano é uma das poucas celebrações praticamente universais. Há fogo de artifício nas grandes cidades de todos os países e festas de rua até nas aldeias mais pequenas. Mas será que é assim em todo o lado?

Quando o relógio marca meia-noite em 31 de dezembro em Foula, uma pequena ilha do arquipélago das Shetland, na Escócia, nada acontece. Em vez dos tradicionais fogos, festas e música, não há nada. Literalmente.

Não há contagem regressiva, não há fogos de artíficio — apenas silêncio, vento e tradição.

Porquê? Não, não é porque Foula se recusa a celebrar. Com cerca de 35 moradores (segundo os últimos dados, citados em 2021 pela ‘BBC’), esta ilha segue um calendário próprio, baseado no antigo calendário juliano. Aliás, ali acabou de ser Natal.

E, não, também não é uma decisão turística, nem folclórica. É cultural. Os moradores mantêm costumes que sobreviveram por séculos ao isolamento, a epidemias, às tempestades e ao avanço do mundo moderno, encarando a diferença de datas não como atraso, mas como herança cultural transmitida entre gerações.

Uma ilha remota com história e tradições únicas

Assumidamente a ilha mais remota do Reino Unido, Foula nunca adotou o calendário gregoriano moderno. Em vez disso, continua a seguir algumas das tradições do calendário juliano. Por isso mesmo, o Natal e a Passagem de Ano são celebrados a 6 e 13 de janeiro, respetivamente, em vez dos habituais 25 e 31 de dezembro.

O que é o calendário gregoriano?
“O calendário gregoriano é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos países. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII (1502–1585) a 24 de fevereiro do ano 1582 pela bula Inter gravíssimas em substituição do calendário juliano implantado pelo líder romano Júlio César (100–44 a.C.) em 46 a.C”, lê-se no Wikipédia’. Basicamente, o objetivo era alinhar o ano civil com os equinócios solares. Desde então, as datas foram alteradas na maioria do globo.

A 13 de janeiro, os habitantes da pequena ilha (tem apenas oito quilómetros de comprimento e está situada a cerca de 26 quilómetros da região principal de Shetland), juntar-se-ão, então, para celebrar a Passagem de Ano de forma intimista.

Foula
Uma ilha peculiar. Foto: Visit Scotland // Paul Tomkins

“Vamos de casa em casa beber um copo, ficar um bocado e pôr a conversa em dia”, explicou um morador, citado pela revista ‘NiT’. “Depois, podemos regressar a casa para jantar e, em seguida, ir a algum lado para uma festa até altas horas da madrugada.”

Uma das atividades mais frequentes nesta noite consiste em tocar instrumentos e cantar em grupo. Além disso, é habitual entre os habitantes, maioritariamente idosos, dedicarem-se a tarefas e práticas que procuram aperfeiçoar ao longo do ano seguinte, como cuidar de jardins, pescar ou trabalhar na agricultura.

E no Natal?

No Natal não é muito diferente. Se antes era habitual os homens irem à caça de aves, que eram depois cozinhadas pelas mulheres, agora a tradição é outra. De manhã, os residentes juntam-se em casa com a família, para abrir os presentes e comerem juntos.

Ainda assim, “a ilha mantém uma forte ligação à natureza, seguindo um modo de vida comunitário”. “Nesta região, toda a gente se conhece e se ajuda, desde os mais novos até aos mais velhos. Apesar de ser um núcleo fechado, ao longo do ano, a ilha é visitada regularmente por turistas ou familiares dos habitantes”, lê-se na revista ‘NiT’.

“Todos contribuem com algo, o que mantém a comunidade unida”, comenta Robert Smith, um morador local, citado pelo site ‘Gizmodo’.

Neste sentido, o calendário funciona não apenas como forma de organizar os dias, mas também como um símbolo de pertença e continuidade histórica.

Como visitar Foula e o que esperar da experiência?

Apesar de “ficar no fim do mundo”, Foula pode ser alcançada por ferry a partir de Walls, por excursões marítimas de um dia ou através de pequenos voos regionais, sempre dependentes das condições meteorológicas.

Além das diferenças no calendário, a ilha também surpreende pela paisagem — e pelas centenas de póneis que correm livremente pelos seus vales.

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Tem mais póneis do que pessoas. Muito mais. Foto: Visit Scotland // Paul Tomkins

Foula reúne ainda outras curiosidades. Aqui, por exemplo, não há pubs, lojas, bares, wi-fi ou transporte público, nem conexão com a rede elétrica nacional. “Os habitantes precisam de gerir o próprio sistema de geração de eletricidade. Trata-se de um sistema híbrido, com três turbinas eólicas, uma central hidrelétrica, painéis solares, bancos de baterias e uma rede de distribuição”, explica o Departamento de Turismo, citado pelo site ‘Casa Vogue’.