Mais de 80% das aves de rapina que sobrevoam os céus de Portugal estão contaminadas com veneno para roedores

Os investigadores apelam a medidas urgentes para controlar o uso generalizado de raticidas anticoagulantes que está a ameaçar a vida selvagem nas regiões rurais.

Coruja-das-torres
O estudo de monitorização de envenenamento por raticidas na vida selvagem é o primeiro a ser realizado em Portugal. Foto de coruja-das-torres: Luc Viatour, CC BY-SA 3.0, via Wikimédia, Commons

O uso de raticidas é uma prática generalizada em Portugal, sobretudo nas zonas rurais. A sua aplicação indiscriminada, no entanto, está a pôr em risco a vida selvagem. Essa é a conclusão do estudo conduzido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em parceria com a Universidade de Gran Canaria, em Espanha.

A investigação esteve focada nas aves de rapina portuguesas, com os resultados a revelarem que mais de 80% das espécies analisadas estão contaminadas por raticidas anticoagulantes.

O número é tão avassalador que os especialistas temem estar diante de uma grave ameaça à sobrevivência de várias espécies, como o bufo-real (Bufo bufo), o Peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinuculus) ou a coruja-do-mato (Strix aluc), cujas percentagens atingiram os 90%.

O trabalho incidiu sobre 210 aves de 15 espécies, ao cuidado de centros de recuperação de animais selvagens no Continente e na Região Autónoma da Madeira. As contagens mostraram que a exposição a compostos usados nos tóxicos para roedores está a provocar um envenenamento secundário em animais selvagens não visados.

Estudo inédito no continente e Madeira

Do total de aves analisadas entre 2017 e 2024, 83% apresentaram sinais de pelo menos um raticida anticoagulante no fígado. Em quase 60% dos casos positivos surgiram dois ou mais compostos, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.

Os estudos de monitorização de envenenamento secundário por raticidas são recorrentes em vários países europeus, mas este é o primeiro realizado em Portugal, segundo os investigadores.

O fenómeno é preocupante nas áreas rurais de todo o território nacional, mas, na Madeira, as proporções são ainda mais graves, segundo os investigadores. Quase 90% das aves apresentavam contaminação múltipla. As concentrações médias foram superiores às registadas no Continente, sugerindo um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas insulares.

Peneireiro-de-dorso-malhado
Os raticidas usados no controlo de pragas de roedores entraram nas cadeias alimentares da fauna selvagem, colocando várias espécies, como o peneireiro-de-dorso-malhado, em risco. Foto: CE3C

Os raticidas anticoagulantes, usados para controlar roedores, provocam hemorragias internas fatais ao impedir a coagulação do sangue. Ao persistem nos tecidos, porém, acumulam-se em predadores que consomem presas contaminadas, representando, portanto, um risco para a vida selvagem.

Estes compostos nas aves podem provocar sintomas graves como hemorragias internas, fraqueza, perda de coordenação e, em casos extremos, conduzir à morte. Mesmo em doses não letais, o envenenamento reduz as habilidades de caça, aumenta o risco de acidentes, comprometendo também a capacidade de reprodução dos animais.

Entre os compostos detetados destacam-se o Brodifacoum e a Bromadiolona, substâncias altamente persistentes e tóxicas. O estudo concluiu que as aves mais velhas apresentam maiores concentrações, o que faz sentido, tendo em conta o efeito de bioacumulação ao longo dos anos.

Medidas urgentes e monitorização contínua

Os biólogos que participaram no estudo acreditam que espécies comuns em todo o território, como o peneireiro-de-dorso-malhado e a coruja-das-torres, podem servir como sentinelas. Será preciso, como tal, prosseguir a monitorização para conseguir acompanhar a evolução da contaminação e o seu efeito na vida selvagem.

“Estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos.”
Sofia Gabriel, coordenadora do estudo e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C).

O estudo confirma que o impacto dos raticidas já não é pontual, mas sim um fenómeno persistente e transversal, afetando várias gerações de aves e fragilizando populações que já são vulneráveis, mesmo sem a ameaça de raticidas.

As consequências para a biodiversidade são significativas, podendo comprometer o equilíbrio dos ecossistemas se espécies essenciais diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.

bufo-real
O bufo-real é uma das aves mais afetadas pelo envenenamento provocado por raticidas. Foto: Pixabay

Os autores defendem, por isso, medidas urgentes, como a monitorização regular, restrições ao uso indiscriminado de raticidas, promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores e ações de sensibilização e pedagogia junto das populações.

Referências da notícia

Ana Carromeu-Santos, Beatriz Martín-Cruz, Tomé Neves, Andrea Acosta-Dacal, Ana Macías-Montes, María Casero, Maria da Luz Mathias, Octavio P. Luzardo & Sofia I. Gabriel. Toxic legacy: The hidden impact of anticoagulant rodenticides on Portuguese raptors. Science of The Total Environment


João Silva. Contaminação por raticidas ameaça aves de rapina em Portugal. Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C). Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa