Entre barreiras e apoios: um estudo qualitativo sobre a utilização de serviços de saúde mental por crianças migrantes
Desafios e facilitadores no acesso à saúde mental infantil para famílias migrantes em Portugal: burocracia, custos e redes de apoio. Saiba mais aqui!

Este estudo qualitativo explora as perceções e experiências de famílias migrantes relativamente ao acesso e utilização dos serviços de saúde mental para crianças e adolescentes em Portugal. A investigação aborda uma lacuna crítica no conhecimento nacional, considerando que a migração é um determinante social de saúde fundamental.
Metodologia e participantes
A investigação adotou uma abordagem qualitativa e exploratória através da realização de cinco grupos focais.
As famílias eram oriundas de diversas regiões, incluindo África, América do Sul, Ásia Central e Sudeste, e Médio Oriente. O recrutamento foi feito através de ONGs que apoiam migrantes em Portugal.
Padrões de utilização dos serviços
Os resultados revelaram que as trajetórias de utilização são marcadas por dificuldades significativas:
- Dificuldade nos cuidados primários: As famílias relataram grandes obstáculos em conseguir consultas nos centros de saúde, mencionando telefones que ninguém atende e falta de resposta a mensagens.
- Serviços de urgência: Devido às barreiras nos cuidados primários, as urgências hospitalares são frequentemente utilizadas como a principal porta de entrada no sistema de saúde mental.

- Setor privado: Alguns migrantes recorrem ao setor privado para evitar tempos de espera ou para dar continuidade a tratamentos iniciados nos países de origem.
Barreiras ao acesso
As famílias migrantes enfrentam obstáculos multidimensionais que dificultam o cuidado das crianças e adolescentes:
- Institucionais e burocráticas: A dificuldade extrema em obter o número de utente do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o desafio central, gerando exclusão sistémica e desconforto emocional.
- Económicas: A ausência de um número de utente obriga ao pagamento integral de consultas e medicamentos, sobrecarregando o orçamento familiar. Além disso, existe o risco de perda de rendimento ou de despedimento devido à necessidade de faltar ao trabalho para comparecer a consultas.

- Socioculturais e linguísticas: A barreira da língua impede a comunicação eficaz de sintomas e prejudica a precisão do diagnóstico. Embora os médicos sejam vistos como atenciosos, funcionários administrativos e seguranças são frequentemente descritos como arrogantes ou discriminatórios.
- Informação e geografia: Há um desconhecimento generalizado sobre a organização do sistema (como o papel do médico de família) e a receção de informações contraditórias. Geograficamente, a rede insuficiente de transportes públicos dificulta o acesso a centros especializados.
Facilitadores e fontes de apoio
Para superar estes desafios, as famílias recorrem a estratégias de suporte formais e informais.
No apoio formal (ONGs e escolas), as ONGs são pilares na assistência burocrática e social.
No apoio informal são o caso das redes de vizinhos, amigos e familiares que fornecem a orientação prática necessária para navegar no sistema, além de suporte emocional.
Por fim, a tecnologia. O uso de aplicações de tradução em tempo real nos telemóveis é uma ferramenta essencial para mediar a comunicação com os profissionais de saúde durante o atendimento clínico
O estudo conclui que são urgentes mudanças sistémicas para promover a equidade nos cuidados de saúde. É necessário simplificar processos burocráticos, melhorar a disseminação de informação e integrar mecanismos de apoio comunitário para garantir o bem-estar das crianças migrantes.
Referência da notícia
Rafael Inácio, Rita Gonçalves, Joana Pires, Maria J. Marques, Sónia Dias, Access and utilization of Portuguese mental healthcare services by migrant children and adolescents: perceptions and experiences of families, Children and Youth Services Review, Volume 178, 2025, 108535, ISSN 0190-7409, https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2025.108535.