A premente sustentabilidade do 'ouro azul'

Correspondendo a aproximadamente 360 milhões de km2, 2/3 da superfície da Terra são ocupados por água. Um planeta coberto por um manto azul, uma riqueza líquida que balanceia o equilíbrio climático e alavanca a existência de vida.

Lago Baikal
Só o lago Baikal (Sibéria), com aproximadamente 23 mil km3, alberga cerca de 20% de toda a água doce não retida na forma de gelo.

Não obstante os cerca de 1.386 milhões de km3 de água existentes no planeta, apenas 2,5% desse volume é considerada como água doce pela sua baixa salinidade. Desta percentagem, 1,8% encontra-se aprisionada nos glaciares e zonas polares. Nesta matemática hidrológica, apenas 0,7% - 10.7 milhões de km3 de água, restam para provimento dos ecossistemas terrestres, e do assombroso número que ascende a mais de 7.5 biliões de humanos habitantes neste planeta azul.

Menos de 11 milhões de km3 de água, dinâmica e diferencialmente é distribuída no planeta. Seja armazenada em aquíferos subterrâneos, em lagos, a circular na atmosfera, incorporada em pântanos, solos e seres vivos, ou continuamente a escoar nos rios. 60% dos recursos de água doce disponíveis estão concentrados em menos de 10 países – Brasil, Rússia, China, Canadá, Indonésia, EUA, Índia, Colômbia e R.D. Congo. A água doce renovável no planeta flui em áreas de escoamento representadas por colossais bacias hidrográficas como a dos rios Yangtzé, Brahmaputra e Mekong na Ásia (18%), a dos rios Amazonas e Orinoco na América do Sul (15%), a dos rios Mackenzie e Yukon na América do Norte (10%), e a do Yenisey na Sibéria (5%).

Porém, condicionada pelas variações pluviométricas e escoamentos ocorridas nas diferentes estações do ano, a disponibilidade de água não converge linearmente com os períodos de maiores necessidades de muitas regiões, despoletando situações extremas de secas ou cheias, o que torna premente a gestão cuidada da antropogenia no ciclo hidrológico, visando assegurar o futuro da própria humanidade.

Em prol da sustentabilidade, as sociedades devem primar por serviços de água e saneamento eficientes e confiáveis.

A gestão e o uso da água

Quase 1 bilião de seres humanos não tem acesso a água potável. Atualmente, 30% da humanidade, cerca de 2.5 bilhões de indivíduos ainda não têm acesso a saneamento básico, o que exponencia atrozmente o número de doenças e mortes. Recorrentemente abordam-se problemáticas como desflorestação, biodiversidade, clima, esquecendo que os rios urbanos se transformaram quase em esgotos a céu aberto. Um grave problema que carece de assertiva resolução se o mote for o do chamado desenvolvimento sustentável.

Não obstante a crescente escassez, a qualidade da água agudiza problemáticos cenários no presente e futuro, se a sua elementaridade, persistentemente, for ignorada. Infere com a saúde pública, já que a inexistência ou ineficácia de saneamento, potencia patologias como diarreia, responsável, anualmente, em termos de mortalidade infantil, por um impiedoso número de cerca de 30 milhões.

Água
A água como um bem público, um recurso natural e limitado, é dotada de valor económico.

De acordo com a FAO, só a irrigação de culturas agrícolas absorve 70% de toda a água consumida no mundo, comparativamente com os 22% absorvidos pela atividade industrial. Já o uso doméstico, representa cerca de 8% de toda a utilização dos recursos hídricos. Atualmente, cerca de 40% de água é perdida no percurso entre as fontes de água potável e as torneiras das nossas casas. Razões de ordem física, como fugas, ou comerciais, como deficiente cobrança de consumos, intimam a investimentos na manutenção ou substituição de infraestruturas, para não delegar para gerações futuras a problemática da água enquanto fator de estabilidade, saúde e paz no mundo.

É almejado que até 2030, se alcance o acesso universal e equitativo, a água potável e segura para todos os habitantes do planeta. Vivenciam-se ameaças globais de saúde, desastres naturais, conflitos de extremismo violento, crises humanitárias decorrentes de migrações forçadas, esgotamento de recursos naturais, degradação ambiental, e de facto, a escassez, segurança e a qualidade da água, exacerbam o rol de desafios que a humanidade enfrenta, mas que tem de solucionar.

A água, a segurança energética e alimentar, representam a tríade que alicerça a dinamização da almejada economia verde, visando melhorar a qualidade de vida da população em geral. A água é tão essencial à economia e à sustentabilidade, que um país não se pode dar ao luxo de não a gerir bem. Garantir o abastecimento de água com qualidade a longo prazo requer, cada vez mais, o uso de iniciativas sustentáveis, de integrar e promover o engajamento entre os diversos setores da sociedade, a fim de criar soluções práticas e eficazes para o uso consciente da água.

As Nações Unidas quantificam em 110 como os litros de água que o ser humano necessita, por dia, para as suas necessidades básicas. Um número limitativo se consideramos, por exemplo, que por cada descarga de autoclismo são gastos 15 litros de água e que um duche de 5 minutos consome 60 litros. Uma garrafa de 1,5L cheia de areia, dentro do depósito da água, pode diminuir para metade a água de cada descarga, assim como um chuveiro com sistema redutor de caudal pode economizar em 50% o gasto de água no banho.

Pequenos gestos no dia-a-dia podem fazer toda a diferença. Não é apenas individual, doméstica e comercialmente, que o consumo de água deve ser reduzido. Imperiosamente, também os setores primário e secundário da economia devem adotar medidas de contenção da utilização de água.

Convergindo os efeitos decorrentes, quer da escassez de água, quer do seu consumo desaustinado, com as alterações nos padrões climáticos, cujas consequências se manifestam mais frequentes e extremas, vislumbra-se um cenário perigoso. Implementar sistemas de captação e distribuição de água, e infraestruturas de saneamento resilientes, reduzirão a vulnerabilidade, diminuirão o risco de conflitos, e protegerão a saúde do bioma Terra.