Vivemos alheados da perniciosidade do metano

Na atmosfera, a concentração desequilibrada dos gases com efeito estufa, acrescida dos efeitos antropogénicos à natural reorganização climática, exponenciam a ocorrência de graves alterações nos padrões climáticos, os quais se manifestarão, com menos espaçada frequência, ao longo do século XXI.

Sol; clima; energia
O Sol é a fonte de energia do sistema climático terrestre, pelo que, variações no fluxo total de energia radiativa solar recebido na Terra, têm impacte no clima.

Alguns componentes da atmosfera, cuja propriedade é a de absorver a radiação infravermelha, os denominados gases com efeito estufa – dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, ozono, clorofluorcarbonetos e o vapor de água desempenham papel crucial no equilíbrio radiativo da atmosfera. A superfície do planeta recebe em média 343 Wm2 de radiação solar, dos quais cerca de 103 Wm2 são refletidos de volta ao espaço pelas nuvens e pelas áreas de superfície cobertas pela neve e desertos. Os restantes 240 Wm2 são absorvidos e aquecem o sistema Terra-atmosfera (superfície, nuvens e gases com efeito estufa), voltando a ser irradiados para o espaço sob a forma de radiação infravermelha, mantendo assim o equilíbrio radiativo.

Porém, neste equilíbrio radiativo da atmosfera atuam também forcings como a queima de combustíveis fósseis, e algumas atividades industriais e agrícolas, que produzem aerossóis que ao ser lançados para a atmosfera, refletem a radiação solar. O desequilíbrio na concentração dos gases com efeito estufa, o seu aumento, traduz-se em temperatura mais elevada na troposfera.

De entre os demais intervenientes no efeito estufa, por ser um gás muito mais potente no curto prazo do que o dióxido de carbono, apesar de permanecer menos tempo na atmosfera, o metano personifica elevada perigosidade no mecanismo das alterações climáticas. Presente naturalmente na atmosfera, a sua proporção tem aumentado, facto de grande preocupação uma vez que se trata de uma substância com potencial de aquecimento global dezenas de vezes maior do que o CO2, falamos do CH4.

A emissão de 150 Toneladas de metano por hora, equivalem a 10 centrais movidas a carvão operando na capacidade máxima.

A nefasta ação do metano

O metano é um gás incolor e inodoro, pouco solúvel em água, mas quando adicionado ao ar, pode ser altamente explosivo. Pertencente ao grupo dos hidrocarbonetos, compostos formados por carbono e hidrogénio, pode-se apresentar na forma de gases, partículas finas ou gotas, e sendo precursores para a formação do ozono troposférico, são vetores do desequilíbrio do efeito estufa.

metano; atividades humanas; agricultura
Só a agricultura contribui com cerca de dois terços de todo o metano libertado pelas ações humanas.

O metano surge na natureza decorrente de processos como a decomposição de resíduos orgânicos (aterros sanitários), a produção de gado para o consumo humano, atividades agrícolas (bactérias da rizicultura), reservatórios de hidroeléctricas, processos industriais, metabolismo de certos tipos de bactérias, atividade vulcânica, degelo do permafrost, extração, produção e queima de combustíveis (petróleo, gás, carvão) e aquecimento de biomassa anaeróbica.

O metano também está presente no biogás, termo genérico utilizado para a mistura de gases - CO2, H2S, CH4(60%) e água, gerada pelo processo de fermentação, produzida pela decomposição biológica da matéria orgânica, sendo que nos aterros de resíduos sólidos urbanos, é reaproveitado, com a sua conversão em energia elétrica. Uma pretensa fonte de energia sustentável, porém de perniciosidade ecológica, considerando os seus subprodutos – metano e dióxido de carbono.

Atualmente, habitam o planeta cerca de 7,5 biliões de seres humanos. Em média, anualmente, consomem-se aproximadamente 355 milhões de toneladas de arroz, e 330 milhões de toneladas de carne de animais que produzem estrume. Em 2019, circulavam no planeta, cerca de 29 milhões de veículos movidos a gás.

Para além de presente em pântanos, uma quantidade desconhecida de metano, mas previsivelmente colossal, está presa no sedimento marinho e sob os glaciares, conhecidos como campos de gás natural ou depósitos geológicos. Só nos denominados hotspots de metano, áreas como Argélia, Rússia e Turquemenistão, onde se mensuram 3.000 ppm entre um sensor aéreo e o solo, as emissões aumentaram cerca de 40% desde 2019. Facto pertinente quando considerado que o gás natural usado como combustível para veículos, tem cerca de 70% de metano na sua composição.

gado; vacas; metano; clima
O metano surge de processos como a produção de gado para consumo humano.

O peso da pegada humana no planeta

Modelos matemáticos perspetivam que as temperaturas globais de superfície do planeta provavelmente aumentarão entre 1,1 e 6,4 °C, e que o nível médio das águas do mar subirá entre 9 a 88 cm até ao ano 2100. Não obstante as previsões sobre a intensidade, causas e consequências de potenciais alterações climáticas envolverem complexas questões científicas, qualquer modificação nos tidos como normais padrões climáticos, representam um fenómeno de larga escala, humanamente impossível de evitar, porém passível de delongar, se adotada uma estratégia antropogénica de mitigação.

Comparativamente, a concentração atmosférica global média de Co2 (dióxido de carbono) aumentou de 280 ppm em 1750, para 415 ppm em 2019. Já a concentração atmosférica global média de Ch4 (metano) aumentou de 715 ppm em 1750, para 1870 ppm em 2019.

As nuances que o clima do planeta experiencia ciclicamente, espelham uma incontornável e imprescindível dinâmica natural. Durante a era Paleozóica (570 a 225 milhões de anos atrás), a temperatura média da Terra era superior aos atuais 15 ⁰C, período durante o qual as regiões polares do planeta não se apresentaram cobertas de gelo. Não obstante a rotina climática do planeta, para a qual os seres que o habitam têm inevitavelmente de se adaptar, o Homem assume neste mecanismo a missão de alterar comportamentos e mitigar o efeito das suas ações, em prol de uma mais longa sobrevivência.

A tecnologia para reduzir as emissões de metano na indústria de óleo e gás já está disponível. De acordo com a Agência Internacional de Energia, se a indústria começasse a implementar essa tecnologia, poderia reduzir as suas emissões de metano em três quartos, já durante a próxima década. No espaço de uma hora, o planeta recebe grátis do Sol, energia que alimenta a demanda da humanidade para uso durante um ano, e para a qual, seriam necessárias milhares de milhões de toneladas de carvão, petróleo e gás natural. O Sol é, efetivamente, a única fonte de energia ecologicamente limpa, e renovável à escala da vida humana. Holisticamente, será altura de passar de conceitos a ações, verdadeiramente assertivas!