A adaptabilidade climática do Homem

As dimensões da bio, hidro e atmosfera têm dinâmicas próprias e interrelacionais, que atuam em função de parâmetros de reequilíbrio. Uma delicada e assombrosa sincronia com inevitáveis impactes na vulnerabilidade humana. Contamos-lhe mais aqui.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 16 Out. 2019 - 19:58 UTC
Os oceanos funcionam como uma enorme esponja que absorve o superavit de calor que o planeta recebe da energia proveniente do Sol e emanada pelo planeta.

O relacionamento do Homem com a natureza narra uma história de adaptabilidade. Ao longo dos tempos, o instinto de sobrevivência, alguma astúcia e a ajuda de rudimentares instrumentos possibilitaram intervir na natureza, coletando alimentos que permitiram sobreviver. A mobilidade humana foi sendo dependente de condicionantes como o esgotamento de recursos ou profundas alterações no clima, até que, a observância da própria natureza, permitiu que as primeiras técnicas de cultivo agrícola fossem pioneiramente desenvolvidas, garantindo acessibilidade e disponibilidade constante de alimento, em detrimento da necessidade de deslocações – o Homem domestica e adapta a natureza às suas necessidades.

Alterações nos padrões dos climas regionais do planeta foram condicionando a sedentarização humana, e, o que outrora foi acontecendo numa escala temporal ritmada em desconexo com o tempo de vida humana, começa a impactar mais acutilantemente nos modos de vida da civilização atual, considerando a crescente ocorrência de eventos meteorológicos extremos. Em consequência da inata necessidade de sobrevivência, êxodos que historicamente foram conotados como movimentos de migrantes económicos, assumem atualmente a categorização de refugiados climáticos.

A debilidade económica de uma nação, gera a eclosão de conflitos na busca por uma assunção de direitos, como o de alimentação e de vida condigna, e, quando a um delicado cenário governativo destes se acoplam conjunturas meteorológicas, que influem nas disponibilidades dos recursos naturais (particular ênfase para a água potável) ou na produtividade dos solos, ficam reunidas condições para o surgimento de conflitos armados e fugas de milhares de pessoas na busca de segurança, alimentos e vida.

O potencial regulador do oceano

O clima do planeta é um intrincado sistema onde atuam, num caos harmonioso, diversos forcings que regulam a temperatura que permite a existência de vida nos moldes em que a conhecemos. De entre a importância de todos os atores nesse sistema, pela sua assombrosa dimensão volumétrica, assume preponderante destaque a função reguladora do oceano. Grande reservatório de CO₂, e onde, desde 1955, de acordo com a NOAA, foi absorvido mais de 90% do excesso de calor retido pelo planeta.

Pela primeira vez na história da Humanidade, e de acordo com a ONU, massivos movimentos demográficos assolam várias regiões do planeta.

Considere-se que próximo da superfície, os valores de temperatura da água oceânica levam apenas algumas décadas para aquecer, todavia, apesar de em profundidade, o aquecimento das águas oceânicas levar séculos ou milénios, durante todo o processo de aquecimento, o nível do mar é elevado, distendendo e submergindo costas. A monitorização da temperatura das águas oceânicas regista desde a década de 1990, uma tendência de aquecimento pelo aumento dos valores da Temperatura da Superfície do Mar (TSM), verificadas quer no Pacífico, com a materialização de fenómenos como o El Niño e La Niña, quer no Atlântico Norte, manifestando-se pelo exponenciar da formação de eventos meteorológicos extremos como furacões.

Outra consequência do aquecimento da TSM traduz-se na ocorrência de alterações no padrão espácio-temporal das precipitações, dando origem a catástrofes como secas prolongadas, cheias violentas que destroem explorações agropecuárias, arruínam culturas e inviabilizam colheitas, degradam os solos, induzindo a migrações forçadas que se lançam em severos desafios para alcançarem países de acolhimento.

Susceptibilidade vs vulnerabilidade

Neste âmbito dual refira-se que entre janeiro e junho de 2019 foram cerca de 10,8 milhões os novos deslocados, consequência de catástrofes ambientais (7 milhões) e violentos conflitos armados (3,8 milhões). Deslocações em massa que até então eram pontuais, estão a tornar-se norma em consequência de eventos como o ciclone Idai (março), que deslocou mais de 600 mil pessoas em Moçambique, Malawi, Zimbabwé e Madagáscar, o ciclone Fani (maio), que deslocou 3,4 milhões de pessoas na Índia e Bangladesh, inundações de primavera no Irão que obrigaram à deslocação de 500 mil pessoas, o ciclone Vayu (junho) que deslocou perto de 290 mil indianos, enquanto inundações forçavam à mudança de mais de 400 mil filipinos, 190 mil etíopes e 75 mil bolivianos.

Refira-se que no caso do ciclone Fani, os números aludidos consideraram os seres humanos evacuados com antecedência, possibilitando salvar milhares de vidas numa prática do já apreendido com os efeitos dos desastres passados. É inegável que o contínuo crescimento demográfico e as contingências socio-económicas aumentam a concentração das populações em aglomerados urbanos, muitas vezes em áreas com exposição a perigos naturais como movimentos de vertente, cheias e inundações, e áreas cujos solos se encontram mortos por efeito, quer de práticas agrícolas intensivas e desconexas do clima, quer em resultado de longos períodos de seca que alteraram a biologia do solo, tornando-o inóspito.

A frequência e intensidade na ocorrência de fenómenos naturais, constitui um gradual e preocupante risco de desastre a um elevado número de seres humanos, expostos a um grau de vulnerabilidade que urge mitigar. Os fenómenos meteorológicos continuarão a ocorrer, como parte da dinâmica da reorganização atmosférica do planeta. Os seus impactes na civilização, poderão ser minimizados, se a estratégia contemplar medidas preventivas e adaptativas do Homem ao Meio, em detrimento da modelação do Meio ao Homem.

Publicidade