Portugal está a perder costa mais depressa, mas ainda vamos a tempo de mudar esse destino
As tempestades tornam a erosão mais evidente, mas o recuo da linha de costa acontece todos os dias. O relatório da Greenpeace revela onde o problema se agravou e por quê.

Quase sempre, depois de uma sucessão de tempestades, chegam as imagens de praias destruídas, de arribas desmoronadas ou de passadiços suspensos sobre o vazio. Olhamos para a paisagem e concluímos que o mar voltou a avançar.
Centímetro a centímetro, o oceano remodela uma costa que nunca foi imóvel. O que hoje parece uma transformação brusca resulta, muitas vezes, de um processo lento que se prolonga há décadas.
É precisamente essa mudança de escala que o relatório Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco, da Greenpeace, torna evidente. Ao reunir dados científicos, informação oficial e uma análise das zonas mais vulneráveis do país, o estudo mostra que mais de um quarto da costa continental portuguesa está em recuo. Em alguns locais, a linha costeira perde vários metros por ano.

Mais do que quantificar um fenómeno conhecido, o relatório responde a uma pergunta decisiva. Porque é que algumas praias conseguem resistir melhor do que outras? A resposta não está apenas nas alterações climáticas.
A costa não perdeu apenas areia
Os registos do marégrafo de Cascais ajudam a perceber a dimensão da mudança. Nos últimos 25 anos, o nível médio do mar subiu 9,7 centímetros e, em 2024, atingiu o valor mais elevado desde que existem medições naquele local.
O aumento do nível do mar acelera a erosão e agrava o impacto das tempestades. Ainda assim, o relatório sustenta que a vulnerabilidade da costa portuguesa resulta também de escolhas feitas ao longo de várias décadas. Em muitas zonas, as dunas foram ocupadas, os sistemas naturais fragmentados e a construção aproximou-se demasiado da linha de água.
A consequência torna-se evidente sempre que chegam os temporais. Onde existiam dunas capazes de absorver parte da energia das ondas ou zonas húmidas que amorteciam o impacto do mar, surgem hoje estradas, edifícios ou infraestruturas muito mais vulneráveis.
Em muitos locais, o problema não está apenas no facto do mar ganhar terreno. Está também na forma como a ocupação humana retirou à costa a capacidade de responder às mudanças.
Um retrato de norte a sul
Os exemplos distribuem-se praticamente por todo o país. No Norte, a praia de Viana do Castelo perdeu cerca de 30% da sua largura desde 1990. Em Espinho, entre 2010 e 2023, a linha de costa recuou, em média, 5,2 metros por ano. Na Costa Nova, no município de Ílhavo, o avanço do mar manteve um ritmo semelhante ao longo das últimas cinco décadas.
Mais a sul, a Península de Setúbal surge como um dos casos mais evidentes da pressão exercida pela urbanização e pelo turismo sobre ecossistemas costeiros particularmente sensíveis.
Também as regiões autónomas enfrentam desafios distintos. Na Madeira, o risco estende-se às infraestruturas costeiras e às espécies endémicas. Nos Açores, a acidificação dos oceanos e as ondas de calor marinhas já afetam habitats de elevado valor ecológico, incluindo comunidades de corais negros e linhas de maré alta e maré baixa, chamadas de zonas intertidais.
Como devolver espaço ao mar
O relatório não apresenta a destruição do litoral como um destino inevitável, mas como uma trajetória que ainda pode ser alterada. A primeira prioridade passa por reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para limitar a subida do nível médio do mar e o agravamento dos fenómenos extremos. Mas os autores lembram que essa resposta, por si só, não chega.
Essa recuperação começa pela proteção e restauro de dunas, sapais e outros ecossistemas costeiros, capazes de dissipar a energia das ondas, reter sedimentos e amortecer o impacto das marés. O estudo defende também a renaturalização de áreas degradadas e uma revisão do modelo de ocupação do litoral, travando novas construções em zonas particularmente vulneráveis.

Em alguns casos, a solução poderá mesmo passar por uma decisão difícil. Em vez de insistir na permanência de infraestruturas expostas ao avanço do mar, será necessário planear a sua relocalização para locais mais seguros.
Os autores defendem ainda a revisão de planos municipais desatualizados, a suspensão de novos licenciamentos em áreas sensíveis e a remoção de barreiras físicas que limitam o acesso público às praias.
Adaptar sem deixar ninguém para trás
Adaptar a costa às alterações climáticas não significa apenas proteger o território. Significa proteger as pessoas que dele dependem. Comunidades piscatórias, mariscadores, pequenos empresários, moradores e utilizadores tradicionais do litoral deverão participar nas decisões que irão transformar a costa das próximas décadas.
Ao mesmo tempo, a Greenpeace propõe uma moratória para novos projetos turísticos, imobiliários e infraestruturas em zonas de risco de erosão, inundação ou instabilidade de arribas, defendendo que a prevenção continua a ser muito menos dispendiosa do que reparar os danos provocados pelas tempestades.
Uma fronteira que nunca esteve imóvel
Há uma tendência a imaginar a linha de costa como um limite permanente entre a terra e o mar. O relatório lembra que essa fronteira sempre esteve em movimento.
Durante muito tempo, procurámos fixá-la através de estradas, edifícios, paredões e outras infraestruturas. Em muitos casos, essa estratégia reduziu precisamente a capacidade de adaptação dos sistemas naturais que protegiam o litoral.
As praias, as dunas, os sapais e as arribas não são apenas paisagens. São também parte da proteção natural de um país com mais de 2.500 quilómetros de costa. O mar continuará a moldar o litoral, como sempre fez. A diferença est�� em saber se continuaremos a ocupar o espaço de que ele precisa ou se iremos aprender a partilhar essa fronteira em constante transformação.
Referência da notícia
Greenpeace. Destruição a toda a costa.