A ponte que a UNESCO quer mostrar ao mundo liga muito mais do que Portugal e Espanha
Há 30 anos, um grupo de professores percebeu que a melhor forma de preservar o património comum luso-galego era colocá-lo nas mãos das crianças.

Em 1995, a inauguração de uma nova ponte sobre o rio Minho aproximou Monção, em Portugal, de Salvaterra de Miño, na Galiza. Mas, entre os professores que assistiram ao momento, houve quem percebesse que ainda faltava construir outra travessia. Não seria de betão nem de aço, mas de vozes, curiosidade e vontade de escutar.
Reconhecida pela UNESCO, em 2022, como modelo de boas práticas de salvaguarda deste património, a iniciativa prepara-se agora para dar mais um passo na sua projeção internacional. Será apresentada como "exemplo para o mundo" durante a 21.ª sessão do Comité Intergovernamental da organização, a decorrer entre 30 de novembro e 5 de dezembro, em Xiamen, na China.

A distinção internacional confirma a importância de um projeto que procura aproximar comunidades através da educação. Para compreender a razão deste reconhecimento, contudo, é preciso regressar ao momento em que tudo começou.
Uma ponte construída com perguntas
A primeira grande aventura da Ponte… nas Ondas! aconteceu com uma maratona radiofónica, colocando alunos portugueses e galegos a comunicar em direto. A emissão inaugural mostrou que a rádio pode ir muito além de um mero exercício escolar.
Foi essa descoberta que acabou por definir a identidade do projeto. Em vez de limitar os alunos ao papel de ouvintes, os professores desafiaram-nos a sair da sala de aula e a procurar respostas junto de quem guardava as memórias das aldeias.
As entrevistas multiplicaram-se. As perguntas também. Como eram as festas de antigamente? Que cantigas se cantavam? Que histórias passavam de geração em geração? Como se brincava antes dos telemóveis e da internet?
Cada conversa revelou um património vivo que não aparece nos manuais escolares. Os mais velhos, por sua vez, descobriam que aquilo que aprenderam ao longo da vida continuava a despertar interesse.
Lendas, adivinhas, coplas, mezinhas, jogos tradicionais e expressões populares deixavam de existir apenas na memória de quem as conhecia para entrarem em gravações, programas de rádio e arquivos digitais acessíveis a qualquer escola. O património deixou de ser uma herança distante para fazer parte das conversas entre avós e netos, entre vizinhos, entre alunos e comunidades.
Preservar é também aproximar gerações
Em muitas localidades da raia, marcadas pelo envelhecimento da população e pelo isolamento, os encontros promovidos pelas escolas originaram diálogos entre gerações que dificilmente ocorreriam espontaneamente.
Para os alunos, essas conversas representam uma descoberta. Perceberam que o património cultural imaterial não vive apenas em museus ou em livros. Vive nas pessoas. Existe enquanto alguém conhece uma cantiga antiga, recorda uma lenda, explica uma tradição ou recupera uma palavra caída em desuso.

Foi essa relação que acabou por conferir ao projeto uma dimensão muito maior do que a rádio usada como ferramenta educativa. O verdadeiro legado da Ponte… nas Ondas! constrói-se quando cada gravação deixa de ser apenas um registo sonoro para se transformar numa passagem de testemunho.
Hoje envolve estabelecimentos de ensino pré-escolar, básico, secundário e superior, reunindo professores, alunos, famílias, associações culturais e comunidades locais em torno de um propósito comum.
O passado e as novas tecnologias lado a lado
A rádio continuou a ser o ponto de encontro, mas ultrapassou o seu formato original. Aos programas em direto juntaram-se podcasts, vídeos, plataformas digitais e uma mediateca acessível às escolas de ambos os lados da fronteira. Ainda este ano, cerca de 60 estabelecimentos de ensino participaram numa jornada de rádio interescolar que totalizou mais de 20 horas consecutivas de emissões.
O passo seguinte, entretanto, já está em marcha. A Ponte… nas Ondas! explora atualmente o conceito de "rádio visual", um formato que combina áudio e vídeo para divulgar o património material e imaterial através de conversas com músicos, artesãos, investigadores e outros protagonistas da cultura tradicional.
Uma ideia simples que atravessou fronteiras
Ao longo de três décadas, a iniciativa tornou-se também pioneira na forma como encara a salvaguarda do património cultural imaterial. Muito antes de receber reconhecimento internacional, promoveu uma das primeiras candidaturas conjuntas luso-galaicas à UNESCO, defendendo que o acervo partilhado entre as duas margens do Minho merecia ser preservado de forma colaborativa.
Esse trabalho acabaria por ser distinguido em 2022, quando a Ponte… nas Ondas! foi inscrita no Registo de Boas Práticas de Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO.
Mais do que distinguir um projeto educativo, a organização reconheceu um modelo capaz de demonstrar como a escola, a comunidade e as tecnologias digitais podem trabalhar em conjunto para proteger um património que só permanece vivo enquanto continua a ser transmitido.
O percurso iniciado por um grupo de professores do Minho será apresentado como referência para outros países que procuram formas inovadoras de envolver as novas gerações na preservação das suas identidades culturais.
A ponte mais importante não é a de betão
Há pontes que ligam comunidades e outras encurtam viagens. A Ponte… nas Ondas! aproximou tempos. Juntou crianças a avós e fez regressar cantigas, lendas, jogos e expressões que estariam condenados a desaparecer. O património cultural imaterial sobrevive porque continua a ser contado, cantado e partilhado.

A ponte inaugurada em 1995 une as duas margens do rio Minho. Mas a outra, construída pelas vozes de milhares de alunos, professores e comunidades, chegou muito mais longe. Trinta anos depois, continua a ligar Portugal e a Galiza, mas também passado e futuro, tradição e inovação.
Referência da notícia
PNO!. Ponte nas… Ondas.