Os modelos coincidem: uma ciclogénese explosiva irá alterar o tempo em Portugal daqui a cinco dias

Antes de se transformar no segundo ciclone-bomba do Atlântico Norte em menos de 7 dias, uma depressão deixará tempo instável nos Açores. Uns dias mais tarde, as frentes frias associadas provocarão chuva e vento em Portugal continental.
O tempo estável, quente, seco e soalheiro tem as horas contadas em Portugal continental. Dentro de poucos dias uma mudança abrupta das condições meteorológicas fará jus à estação do ano que arrancou ontem, pondo fim a um verão tardio e trazendo um ambiente mais típico do outono.
Entre hoje e sábado (26) imperará ainda um estado do tempo moldado pelas altas pressões, pelo que sem ser alguma variação ligeira nas temperaturas - pequenas subidas ou pequenas descidas conforme as regiões - não são expectáveis grandes mudanças.

É, porém, a partir de domingo (27) que o panorama começa lentamente a alterar-se em Portugal continental, com mais nebulosidade e alguns aguaceiros, estando à vista uma mudança mais significativa de terça-feira (29) em diante.
Antes disso, ainda entre hoje (24) e sábado (26), o arquipélago dos Açores registará um tempo algo variável, marcado pela alternância entre períodos soalheiros e aguaceiros fracos e irregularmente distribuídos.
Antes de se transformar em ciclone-bomba, passará pelos Açores como uma típica depressão outonal
Analisando as projeções atualmente disponíveis nas cartas sinópticas da Meteored, baseadas no nosso modelo de referência (Europeu - ECMWF), um olhar pelo curto e médio prazo conta-nos que uma perturbação atlântica - que eventualmente evoluirá para um típico centro de baixas pressões ou depressão - irá condicionar significativamente o estado do tempo no arquipélago dos Açores entre domingo (27) e segunda-feira (28).

A mais recente atualização do modelo ECMWF coloca o núcleo da já referida depressão atlântica a atravessar as ilhas dos Açores, diferindo da previsão anterior que a colocava centrada ligeiramente a norte do arquipélago. Ainda como uma típica depressão frontal de características outonais, e sem acarretar riscos para além de aqueles que seriam de esperar numa situação outonal deste género, a depressão irá entrar em processo de ciclogénese explosiva à medida que se afasta para nor-nordeste na sua travessia pelo Atlântico.
Não é uma depressão per se, mas sim o nome atribuído ao mecanismo físico que descreve o aprofundamento excecionalmente rápido e intenso de uma depressão extratropical. Normalmente, considera-se que o processo de ciclogénese explosiva ocorre quando a pressão central baixa cerca de 24 hPa ou mais em 24 horas.
Neste caso, de acordo com o modelo ECMWF, a depressão poderá transformar-se num ciclone-bomba durante a jornada de terça-feira (29), quando a pressão central mínima passar de 982 hPa às 22:00 de segunda-feira (28) para 952 hPa às 22:00 de terça-feira (29).
Felizmente para os Açores, tudo indica que o cavamento explosivo da depressão ocorrerá longe do arquipélago, com as primeiras horas desta intensificação rápida a ocorrerem a nordeste do território açoriano, a meio caminho entre Açores e Portugal continental, mas sem representar perigos acrescidos para os habitantes que ali residem.
Quanto aos efeitos expectáveis das condições meteorológicas adversas nesta geografia insular portuguesa, os mapas apontam para a possibilidade da depressão atlântica - ainda longe de atingir o estatuto de ciclone-bomba que ganhará entre 24 a 48 horas mais tarde - deixar períodos de chuva fraca no domingo (27), mais prováveis e frequentes na segunda metade do dia, sobretudo nas ilhas ocidentais e centrais.

Contudo, é durante a madrugada de segunda-feira (28) que as linhas de instabilidade geradas pela depressão poderão ganhar mais expressão, provocando períodos de chuva mais abundantes e intensos num menor espaço de tempo, pelo que não se exclui o risco de inundações rápidas e localizadas.
Deste modo, a primeira metade de segunda-feira, 28 de setembro, poderá ser bastante húmida e instável no arquipélago dos Açores, especialmente nos Grupos Central e Oriental, algo que difere da última projeção do modelo ECMWF, pelo que, de momento, embora o evento esteja confirmado, não adianta ainda estar a avançar com detalhes no que toca aos valores previstos de intensidade e distribuição da precipitação acumulada.

A mesma análise de incerteza na distribuição geográfica e intensidade pode-se aplicar ao cenário do vento, embora as primeiras estimativas do modelo europeu sugiram um período particularmente agreste ao longo da jornada de segunda-feira (28) um pouco por todo o arquipélago (rajadas compreendidas entre 50 e 80 km/h), sendo que no grupo Ocidental essa fase de vento mais intenso poderá iniciar-se ainda nas últimas horas de domingo, 27 de setembro.
As primeiras horas de terça-feira (29) ainda serão marcadas pela presença de vento relativamente intenso nos Açores, porém, a intensidade diminuirá gradualmente conforme o dia for decorrendo.
Modelos Europeu e Americano coincidem na formação do ciclone-bomba no Atlântico Norte
É então entre terça e quarta-feira, dias 29 e 30 de setembro, que este ciclone-bomba irá aumentar o risco de instabilidade atmosférica em vários países da Europa Ocidental à medida que o seu centro for rodopiando de forma vertiginosa sobre o Atlântico Norte, entre os quais Irlanda, Portugal, Espanha e França, entre outros.

Convém desde já referir que Portugal continental não será afetado diretamente por esta potente depressão atlântica, mas sim pelas suas frentes frias associadas que regariam o país na terça (29), na quarta (30) e na quinta-feira, 1 de outubro.
Como referido anteriormente, serão as frentes frias associadas a este ciclone-bomba que irão alterar o tempo em Portugal continental e não a tempestade propriamente dita. As últimas atualizações já não colocam o centro do ciclone-bomba tão próximo da Irlanda como anteriormente, mas sim da Islândia, onde chegaria posteriormente e já algo mais enfraquecido.
Frente frias associadas provocarão estes efeitos em Portugal continental... chegarão também à Madeira?
Em Portugal continental prevê-se que além da injeção do ar frio procedente do Atlântico, que provocará uma mudança térmica considerável e uma descida significativa das temperaturas, ocorram períodos de chuva frequentes, geralmente fracos e pontualmente moderados a fortes, bem como rajadas de vento intensas.
Embora ainda persista uma certa discrepância no que toca aos valores de pressão mínima central do ciclone-bomba e na distribuição e intensidade da precipitação e do vento daí decorrentes, os cenários modelados quer pelo modelo europeu (ECMWF), quer pelo modelo americano (GFS), simulam o processo de ciclogénese explosiva nos primeiros dias da próxima semana, com o ápice a ocorrer na terça-feira, 29 de setembro.

De acordo com o ECMWF, a precipitação poderá distribuir-se de norte a sul do nosso território continental, sendo potencialmente mais provável e frequente no Norte e no Centro entre terça (29) e quinta-feira (1).
Já o modelo GFS, bem mais conservador na sua projeção, revela períodos de precipitação menos intensos e frequentes, restritos espacialmente às regiões situadas a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela e limitados temporalmente aos dias de terça (29) e quarta-feira (30).
Quanto ao vento que acompanhará a precipitação em Portugal continental, tal como frisámos anteriormente, não adianta avançar com valores concretos, uma vez que fruto da incerteza inerente à trajetória do ciclone-bomba e ao horizonte temporal em questão, a previsão ainda deverá sofrer ajustes significativos. Mesmo assim, os primeiros sinais presentes nos mapas sugerem ventos tendencialmente mais fortes no litoral do país, especialmente na fase inicial do episódio.