Espinafres e rúcula: as folhas que preferem o frio ao calor

Quem tentou semear estas duas em julho sabe como acabou: plantas a florir em três semanas e folhas amargas. Semeadas agora, comportam-se de outra maneira, e o sabor até melhora com o frio.

Espinafres, alfaces e couves no mesmo canteiro, culturas que aproveitam o arrefecimento do outono.
Espinafres, alfaces e couves no mesmo canteiro, culturas que aproveitam o arrefecimento do outono.

Há hortícolas que só damos por elas quando falham. O espinafre e a rúcula são disso um bom exemplo. Semeados na primavera ou no verão, parecem plantas difíceis: nascem mal, crescem pouco, florescem à pressa e sabem a coisa nenhuma ou a coisa amarga de mais.

Semeados a partir de agora, transformam-se. São das poucas culturas que ficam melhores à medida que o tempo arrefece.

Porque é que o verão lhes corre mal

Os problemas começam logo na sementeira. O espinafre germina bem entre os 10 e os 20 ºC e praticamente deixa de nascer acima dos 25 ou 30 ºC. É uma das sementes mais exigentes da horta nesse aspeto, e explica metade das sementeiras falhadas de verão.

Depois vem a floração, que nestas duas é rapidíssima. Com calor e com dias compridos, a planta deixa de investir nas folhas e sobe a flor em poucas semanas. A partir daí, as folhas ficam pequenas, duras e sem interesse nenhum para a cozinha.

Em setembro acontece o contrário. A terra arrefece o suficiente para a semente germinar bem e os dias estão a encurtar, o que trava esse impulso de florir. A planta fica onde nos interessa que fique, que é na folha.

Duas culturas parecidas com exigências diferentes

As diferentes variedades de espinafres e rúcula disponíveis para compra diferem entre si relativamente a alguns parâmetros: temperatura de germinação, tempo necessário para colheita, exigências de temperatura e época de sementeira. Na tabela abaixo, pode consultar algumas dessas informações.

Cultura

Germina melhor a

Tempo até colher

Aguenta até

Semear

Rúcula

15 a 20 ºC

30 a 45 dias

Cerca de 5 ºC negativos

Todo o mês

Espinafre

10 a 20 ºC

45 a 60 dias

8 a 10 ºC negativos

Todo o mês

Rúcula selvagem

15 a 20 ºC

50 a 60 dias

Muito resistente

Primeira quinzena

Espinafre de inverno

10 a 15 ºC

60 a 70 dias

Muito resistente

Segunda quinzena

Valores indicativos para Portugal continental relativamente a algumas características dos espinafres e rúcula. Fonte: elaboração própria.

A rúcula é a impaciente das duas. Nasce em três a cinco dias e há gente que a colhe um mês depois da sementeira. O espinafre leva o seu tempo, mas compensa com uma resistência ao frio que poucas hortícolas têm.

Rúcula em canteiro, com as folhas recortadas típicas. Em tempo fresco sai mais tenra e menos picante.
Rúcula em canteiro, com as folhas recortadas típicas. Em tempo fresco sai mais tenra e menos picante.

Vale ainda distinguir a rúcula comum da rúcula selvagem, que é uma planta diferente, de folha mais recortada, sabor bem mais intenso e ciclo mais longo. A selvagem dura vários anos e vai rebentando, a comum é anual e cumpre-se depressa.

O sabor muda com o frio, e muda para melhor

Esta é a parte que surpreende quem experimenta pela primeira vez. Um espinafre colhido depois das primeiras geadas é visivelmente mais doce do que o mesmo espinafre colhido em outubro.

Endurecimento ao frio- Processo pelo qual uma planta se prepara para as temperaturas negativas. À medida que o frio se instala, acumula açúcares e outras substâncias no interior das células, o que baixa o ponto a que a seiva congela e funciona como um anticongelante natural. O efeito secundário, para quem come, é que as folhas ficam mais doces.

Com a rúcula passa-se algo semelhante, embora ao contrário. Aquele ardor picante que por vezes se torna insuportável vem de compostos que a planta produz quando está sob stress de calor ou de falta de água. Em tempo fresco e com humidade regular, a mesma variedade sai muito mais suave e tenra.

A rúcula que arde não é uma variedade diferente. É a mesma planta a responder ao calor e à sede.

Como semear, e onde cada uma se dá melhor

As duas semeiam-se diretamente no local, a cerca de meio centímetro de profundidade, em linhas espaçadas 20 a 25 centímetros. Não gostam de transplante e não vale a pena o trabalho do viveiro.

Semeie de forma folgada e desbaste depois, deixando as plantas a 10 ou 15 centímetros no espinafre e a 5 ou 10 na rúcula. Amontoadas, ficam com folhas pequenas e com muito mais humidade retida entre elas, que é convite a doenças no outono.

No interior norte, em Vila Real ou em Viseu, semear na primeira quinzena dá à planta tempo de se instalar antes das geadas. No sul, em Faro, há margem até ao fim do mês e ainda se pode repetir em outubro.

Um aviso sobre a rúcula: é da família das couves e atrai a altica, aquele besouro pequeno e escuro que deixa as folhas cheias de furos redondos. Uma rede fina por cima resolve, e o problema diminui bastante com o arrefecimento.

Colher sem arrancar a planta

Aqui está o que muda tudo no rendimento destas duas culturas, e que muita gente desconhece.

Não arranque a planta inteira. Corte as folhas exteriores, ou corte tudo a três ou quatro centímetros acima do solo, deixando o centro intacto. Daí a duas ou três semanas há folha nova, e de uma mesma sementeira tiram-se três ou quatro colheitas antes de a planta se cansar.

Colha sempre com as folhas secas, já a meio da manhã, depois do orvalho levantar. Folha molhada apodrece no frigorífico em dois dias e perde textura.

E acompanhe as mínimas na previsão da sua zona. Quando começarem a aproximar-se de zero, é altura de cobrir com um tecido leve, não porque as plantas morram, mas porque folha gelada parte-se ao mais pequeno toque. Espere que descongele naturalmente antes de colher.