Poderão os agricultores em fúria mudar o paradigma da agricultura na Europa?

Enquanto caminhamos a passos largos para mais uma eleição europeia, os protestos dos agricultores mantêm-se, podendo levar a uma mudança na política, no sistema de produção alimentar e até no sistema político do continente. Fique a saber mais, aqui!

Protestos.
Os protestos dos agricultores têm-se verificado um pouco por toda a Europa. No nosso país, face à mudança de Governo, os protestos abrandaram no último mês.

O descontentamento que grassa no seio do setor agrícola e pecuário já levou a inúmeros protestos, a nível europeu, ao longo do último ano, mas está, em última análise, a levar muitos a ponderar o abandono da atividade, algo que pode levar a uma mudança significativa na forma em como a Europa produz os seus alimentos.

O futuro desta atividade é sempre incerto, pois depende sempre do comportamento de vários fatores, que podem ser de ordem natural ou humana.

Se, por um lado, a magnitude e a dimensão dos protestos pode ter como consequência o enfraquecimento dos objetivos climáticos para os próximos anos, por outro, verifica-se um abalar da unidade europeia em relação à grande Rússia, na medida em que a guerra com a Ucrânia não tem perspetivas de acabar tão cedo.

Os protestos das últimas semanas, que levaram à invasão das ruas de várias capitais europeias, já tiveram como resultado algumas concessões por parte das autoridades, que podem ter impactes diretos no ambiente. Aparentemente, voltou a ser permitido o uso de certos pesticidas e fertilizantes na atividade agrícola, cujo uso estava praticamente interdito devido a questões ambientais.

Os ministros da Agricultura da União Europeia (UE) reuniram-se há cerca de uma semana, em Bruxelas, para aprovar um pacote de ajudas aos agricultores em protesto, já que a reunião contou com mais uma manifestação do setor no exterior do edifício da Comissão Europeia.

Contudo, as preocupações dos agricultores não ficam por aí: a entrada de produtos cultivados com mão de obra mais barata, seja do leste da Europa ou do Norte de África, bem como o excesso de regulamentação europeia continuam a ser temas objeto de discussão.

Futuro da agricultura no velho continente

O futuro desta atividade é sempre incerto, pois depende sempre do comportamento de vários fatores, que podem ser de ordem natural ou humana. Do ponto de vista humano, tem-se registado de forma paralela uma diminuição sustentada da população ligada ao setor primário e um progressivo envelhecimento dessa população.

Os custos de produção não param de subir, numa escalada que teve o último grande salto com o início da guerra na Ucrânia. Os custos com rega e eletricidade mais do que duplicaram em 2023 e os custos com fertilizantes triplicaram no mesmo período, exatamente quando a União Europeia cortou os apoios e subsídios aos agricultores, especialmente aqueles que não adotaram métodos de produção mais ecológicos.

Do ponto de vista político, é a extrema-direita que mais lucra com o “estado a que isto chegou”. Caracterizam esta situação como um confronto entre a elite arrogante que nunca saiu do escritório e o povo simples, que só quer produzir e ter um meio de subsistência. Para esta faixa política, as preocupações ambientais são demasiado punitivas, especialmente para um conjunto de indivíduos que já vive em dificuldades económicas.

A PAC consiste num conjunto de leis adotadas pela UE para estabelecer uma política unificada para o setor da agricultura nos países da UE. Criada em 1962 pelos seis países fundadores da então Comunidade Europeia, é a política da UE mais antiga ainda em vigor.

Tudo isto são sinais de que a União Europeia, bem como o Parlamento Europeu que sair da eleição deste ano, deve pensar com sabedoria o futuro do setor agrícola a nível europeu. Depois das sucessivas PAC’s, que permitiram a abundância de alimentos à mesa dos europeus, é necessário encontrar soluções que vão ao encontro tanto da economia, como da ecologia. Será necessário um jogo de escalas temporais, em que o curto, o médio e o longo prazo devem ser bem ponderados.