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Resposta à extinção de espécies pode estar na ecologia histórica

O ser humano está a acabar com espécies animais tão rapidamente que a evolução natural não tem conseguido acompanhar. Contamos-lhe mais aqui!

Lobo ibérico é uma das espécies mais ameaçadas em Portugal.
Lobo ibérico é uma das espécies mais ameaçadas em Portugal.

A menos que haja uma intensificação dos esforços para conservação de espécies, muitas desaparecerão nos próximos 50 anos e a natureza precisará entre 3 a 5 milhões de anos para voltar a recuperar, de acordo com um estudo publicado na PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America.

Portugal é um dos países com maior risco de extinção de espécies, posicionando-se na 4ª posição, segundo a International Union for the Conservation of Nature (IUCN). Os dados divulgados apontam para que, em Portugal, existam algumas espécies ameaçadas ou em risco de extinção, nomeadamente o lince e o lobo ibérico, classificadas como espécies em perigo elevado. Ao nível do espaço marítimo, o saramugo é uma espécie criticamente em perigo.

Como se encontra a vida selvagem em Portugal?

Para que uma espécie seja declarada extinta é necessário que não se encontre qualquer registo da sua presença em 50 anos. Face a um potencial de extinção, em Portugal verificam-se 175 espécies ameaçadas de extinção e categorizadas em 3 tipos de ameaça: criticamente em perigo, em perigo e vulnerável. De entre estas espécies, 22 são peixes, 2 anfíbios, 9 répteis, 111 aves e 31 mamíferos.

O lobo ibérico é uma das espécies mais frágeis. Embora não se saiba ao certo quantos lobos ibéricos habitam em Portugal, o censo de 2002-2003 identificou 63 alcateias na região Norte e Centro de Portugal Continental, o que correspondia a 220 e 430 animais, respetivamente. Em 2014, foram estimadas a existência de 47 alcateias, embora estes números não sejam oficiais.

Este predador de topo tem sido alvo de perseguição ao longo de milhares de anos, contribuindo para o seu risco de extinção. A culminar, a diminuição das suas presas naturais aumenta a vulnerabilidade desta espécie. Retenha-se o facto de que quanto mais se realiza a atividade de caça, menor alimento é sobrante para o lobo e perante a escassez, procuram alimentar-se do gado na proximidade das habitações. Perante tal situação, os criadores de gado acabam por perseguir estes animais e abatê-los.

Apesar da permanência de problemas de preservação, em 1988 esta espécie passou a ser protegida em sede de lei em Portugal e, em 2005, integrou o estatuto de perigo no Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal.

Este é apenas um exemplo da fragilidade dos nossos habitats. A título de exemplo, desde 2014, três espécies foram dadas como extintas no nosso país. São os casos do quebra-ossos, do castor europeu e do urso pardo europeu.

Ao nível da Península Ibérica, adensam-se os problemas de extinção de espécies, razão pela qual se procuram soluções para identificar os problemas no domínio da evolução e preservação das mesmas.

De que modo conseguimos analisar a extinção das espécies no passado?

A resposta a esta questão é simples e encontra-se na ecologia histórica. As informações sobre a fauna e a flora antes de 1950 são muito escassas e praticamente não existe conhecimento para o período anterior à Revolução Industrial. De qualquer modo, há soluções concretas para conhecer este passado. Alguns documentos históricos, com descrições geográficas e procedimentos administrativos facilitam esta tarefa, onde também se incluem as observações diretas de fauna e flora.

Uma equipa de biólogos da CSIC estabeleceu uma nova linha de investigação em ecologia histórica e tornaram pública, de modo gratuito, uma base de dados resultante dessa observação das espécies em Espanha no século XVI. As informações sobre esta base de dados foram publicadas agora na revista Ecology.

Esta análise do passado ajuda-nos também a pensar no futuro

Temos provavelmente em mãos um dos maiores problemas de perda de biodiversidade dos nossos tempos. A diminuição da abundância de espécies e o desaparecimento em certas áreas geográficas torna evidente a necessidade de conhecer onde vivemos e quais são as tendências de alteração que estão a ocorrer tão rapidamente.

A valorização da área temática da ecologia histórica torna possível a comparação de diferentes momentos e traçar a história das espécies, aquilo que mudou, o que se perdeu e o que queremos, no caso de ser ainda possível atuar.