Os 'Niños' do clima

O comportamento do clima do planeta é condicionado por um mecanismo, no qual se processam trocas de energia e humidade, o resultado da interação da superfície e dos oceanos, com a baixa atmosfera.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 05 Abr. 2019 - 14:41 UTC
Alterações nos climas regionais do planeta caracterizam a evolução da sua escala temporal.

Normalmente associa-se a ocorrência de eventos extremos à expressão “mudanças climáticas”. Contudo, convém não esquecer que a variabilidade climática é o resultado da “constante” inconstância de uma série de variáveis que compõem a atmosfera: temperatura, humidade, pressão, vento, elementos químicos, correntes oceânicas, radiação solar, manifestando-se numa distribuição de estados de tempo, os quais caracterizam padrões meteorológicos que se estendem temporalmente, por décadas a milénios.

Tendencialmente, relacionam-se os eventos extremos de precipitação, com as anomalias registadas nas temperaturas de algumas regiões do oceano Pacifico, nomeadamente o aquecimento da TSM, na origem do El Niño, e o arrefecimento desta, originando a La Niña.

Isto é, estes dois fenómenos atmosféricos condicionam e implicam determinantemente, quer com a intensidade dos ventos alísios, quer com o regime e intensidade da precipitação, ocorrendo um aumento pluviométrico com o El Niño e uma antagónica diminuição, até mesmo escassez, com a La Niña, despoletando, inerentemente, a ocorrência de eventos extremos como secas, incêndios, cheias e tempestades, com severos impactes sobre milhões de pessoas em todo o planeta.

Afinal, o que são os Niños do clima?

Comecemos por considerar a interação entre o oceano e a atmosfera na região do Pacifico Equatorial! Digamos que, em condições “normais”, os ventos alísios percorrem o oceano Pacifico na direção leste – oeste, sugando a água aquecida pelo Sol, e transferindo o calor desta para o ar, empilhando-a a oeste (Oceânia), o que provoca uma espantosa elevação do nível do mar até cerca de mais 20 cm, comparativamente com o leste (América do Sul). Ora, mais leve e húmido, este ar aquecido ascende e condensa, originando precipitação a oeste, enquanto a leste, ocorre um fenómeno denominado de upwelling, no qual, as águas frias do fundo oceânico, ricas em nutrientes, são literalmente puxadas para a superfície.

Contudo, quando ocorre alteração a esta dinâmica, com o aquecimento das águas do Pacífico pela contenção da Corrente de Humbolt pelos ventos alísios, surge o el Niño. Ou seja, a água mais quente que era transportada para oeste, passa a deslocar-se para leste, em direcção à América do Sul, transportando consigo maior precipitação. Trata-se de um poderoso evento atmosférico que envolve um volume de energia equivalente à produzida em 10 mil barragens!

Estes eventos podem ocorrer com espaçamento temporal de 2 a 8 anos, persistir por até 2 anos!


Um dos seus impactes, traduz-se no enfraquecimento do upwelling ao longo da costa oeste da América do Sul, o que se reflete na fauna da região, afetando incontornavelmente a atividade piscatória. Aliás, foram os pescadores sul-americanos a batizar o fenómeno, por este ocorrer no verão do hemisfério sul, concretamente na época do Natal, referindo-se ao “menino Jesus” daí a designação “el Niño”.

Mas, o fenómeno oposto também ocorre, e denomina-se de la Niña, tratando-se neste caso, do fortalecimento dos ventos alísios, os quais intensificam o transporte de água em direcção a oeste (Oceânia), aumentando o upwelling na costa oeste do continente Americano.

Tratam-se de fenómenos oceano-atmosféricos, cíclicos, que ocorrem alternadamente, e que afetam a circulação geral da atmosfera. São de difícil previsão, mas ocorrem há milhares de anos, mesmo sem interferência humana, pois fazem parte do complexo sistema caótico que é o clima do planeta. Contudo, a ocorrência destes fenómenos parece estar a aumentar de frequência, assim como de intensidade.

A redistribuição de energia e humidade no sistema atmosférico do planeta é uma constante necessária! Ao Homem cabe a missão de minimizar, quando impossível evitar, a interferência no mecanismo climático, e adaptar-se, reduzindo a exposição ao risco!

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