O ano mais quente da história aumenta os riscos globais para a biodiversidade

Estudo avaliou a exposição de mais de 33.000 espécies de vertebrados terrestres a temperaturas historicamente sem precedentes. Será que o aumento das temperaturas implica risco à perda de biodiversidade? Saiba mais aqui!

Estimam-se 8,7 milhões de espécies na Terra, mas apenas cerca de 2 milhões estão descritas. Ou seja, a maioria da biodiversidade ainda é desconhecida pela ciência.

O ano de 2024 foi o mais quente alguma vez registado, agravando de forma significativa os riscos para a biodiversidade global. Este estudo avaliou a exposição de mais de 33.000 espécies de vertebrados terrestres a temperaturas historicamente sem precedentes.

Constatou-se que uma em cada seis espécies (cerca de 5.368) enfrentou temperaturas extremas em mais de 25% da sua área de distribuição, um aumento de 68% em relação a 2023.

Além disso, a maioria (81%) das espécies já expostas em 2023 voltou a ser afetada em 2024, revelando uma acumulação de riscos.

Calcula-se que cerca de 1 milhão de espécies estejam atualmente em risco de extinção devido às atividades humanas

Pela primeira vez, espécies com áreas de distribuição ampla foram também expostas a calor extremo em mais de 10% do seu território, um sinal alarmante de que até espécies outrora consideradas resilientes estão agora em perigo.

Quais as consequências do aquecimento?

As consequências do aquecimento são especialmente graves porque um único ano de condições extremas pode desencadear colapsos populacionais, como demonstrado por eventos recentes: a morte em massa de macacos bugios no México devido à seca e calor de 2024, ou os milhares de espécies de plantas australianas ameaçadas por incêndios em 2019.

Quando os incêndios são muito frequentes ou intensos, a biodiversidade perde capacidade de regeneração.

Assim, embora previsões a longo prazo sejam essenciais para políticas globais, os autores sublinham a urgência de análises rápidas e de curto prazo para orientar a monitorização e a mitigação imediata.

A análise do estudo

A análise revelou que em 2024 cerca de 20% da superfície terrestre teve pelo menos uma espécie exposta a calor sem precedentes, com maior incidência em ecossistemas tropicais, nomeadamente florestas húmidas de folha larga da Amazónia, Andes tropicais e regiões adjacentes.

Os anfíbios (30%) e os répteis (21%) foram particularmente afetados, seguidos dos mamíferos (11%) e aves (6%). Apesar de o aquecimento absoluto ser maior nas latitudes temperadas e polares, as espécies tropicais estão mais ameaçadas porque possuem gamas térmicas estreitas, pouca variabilidade climática histórica e áreas de distribuição mais reduzidas, sem a possibilidade de migrarem para regiões mais frescas. Assim, em muitos casos, estas espécies só poderão adaptar-se ou extinguir-se.

O estudo testou várias hipóteses para explicar a exposição das espécies: magnitude do aquecimento, variabilidade térmica histórica, tamanho da distribuição, homogeneidade espacial do clima e riqueza de espécies. Verificou-se que o fator mais forte foi a exposição do ano anterior (2023), que explicou mais de metade da variação observada em 2024.

Isto indica que certos locais e espécies estão sujeitos a repetidos extremos, acumulando riscos que aumentam a probabilidade de declínios populacionais e dívidas de extinção, isto é, perdas que podem concretizar-se anos após o evento climático.

Os autores destacam que esta abordagem fornece uma métrica global, transparente e replicável para identificar espécies e regiões em maior risco, funcionando como um sistema de alerta precoce. Contudo, lembram que a vulnerabilidade real depende também da sensibilidade e da capacidade de adaptação de cada espécie, bem como da existência de refúgios microclimáticos, informações ainda escassas a nível mundial.

Apesar dessas limitações, os resultados são alarmantes: 2024 não só quebrou recordes anteriores, como também expôs espécies de grande distribuição que desempenham papéis cruciais no funcionamento dos ecossistemas.

Em conclusão, os investigadores defendem que é urgente utilizar estes dados para orientar planos de ação nacionais e internacionais no âmbito do Quadro Global da Biodiversidade, bem como para reforçar avaliações como as do IPBES e do IPCC. A monitorização e mitigação devem ser otimizadas, dada a impossibilidade de acompanhar todas as espécies, priorizando aquelas já ameaçadas por exposições repetidas e regiões tropicais com elevada riqueza biológica. Só assim será possível reduzir o risco de colapsos ecológicos e extinções em larga escala nas próximas décadas.

Referência da notícia:

C. Merow, B.S. Maitner, A. Schwarz Meyer, A.L. Pigot, J.M. Serra-Diaz, & M.C. Urban, Hottest year in recorded history compounds global biodiversity risks, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 122 (35) e2504945122, https://doi.org/10.1073/pnas.2504945122 (2025).