Cientistas alertam que um solo degradado intensifica as ondas de calor
De acordo com um novo estudo, os solos degradados aquecem mais rapidamente, intensificando ondas de calor e aumentando os impactos das alterações climáticas no planeta.

Quando se fala em ondas de calor, normalmente pensamos na temperatura do ar- No entanto, os cientistas alertam que o solo está a sofrer um aquecimento ainda mais intenso e silencioso.
Este fenómeno ameaça a agricultura, os ecossistemas e até a capacidade do planeta de armazenar carbono.
Estudos recentes mostram que os solos saudáveis funcionam como reguladores térmicos naturais, ajudando a reduzir temperaturas extremas e a conservar humidade.
Mas um novo mapa global revela que muitas regiões já perderam parte dessa proteção devido à degradação do solo causada por práticas agrícolas intensivas, desflorestação e alterações climáticas.
Porque é que o solo saudável é tão importante?
O solo não serve apenas para sustentar as plantas. Ele atua como um sistema vivo capaz de armazenar água, nutrientes e carbono. Quando rico em matéria orgânica e biodiversidade, consegue absorver calor de forma mais equilibrada, evitando o sobreaquecimento da superfície terrestre.
Os investigadores descobriram que solos degradados aquecem mais rapidamente e retêm menos humidade.
Isso cria um ciclo perigoso: temperaturas mais altas secam o terreno, e solos mais secos aumentam ainda mais o calor ambiente.
De acordo com uma noticia avançada pelo The conversation, e um estudo publicado na resvista Geoderma, os cientistas afirmam que um solo em boas condições pode atuar como um amortecedor térmico, ou seja, um enorme absorvedor de choques para a temperatura.
Retém água e matéria orgânica, como folhas secas, e desacelera mudanças bruscas de temperatura. Porém quando o solo fica seco, exposto ou degradado, essa proteção enfraquece. Durante ondas de calor, as raízes das culturas agrícolas podem estar em solos que aquecem rapidamente.
Além disso, o aumento da temperatura do solo afeta diretamente os microrganismos responsáveis pela fertilidade da terra. Com menos vida no subsolo, diminui a capacidade de regeneração natural dos ecossistemas agrícolas.
O efeito invisível das ondas de calor
Uma das conclusões mais preocupantes dos cientistas é que os extremos de calor no solo podem evoluir mais rapidamente do que os registados no ar.
Em algumas regiões da Europa Central, o aquecimento do solo está a avançar quase ao dobro da velocidade das temperaturas atmosféricas. Neste caso em específico, os autores debruçam-se sobre as "lacunas térmicas" na Austrália.
Em algumas áreas, especialmente no sudeste e centro da Austrália, os solos já não conseguem proteger as plantas do calor tão bem quanto poderiam. Isto é importante porque o solo não é apenas terra em que pisamos, é uma defesa contra as alterações climáticas.
O controlo do solo na temperatura
O solo controla como o calor e a humidade circulam entre a terra e a atmosfera. Quando perde a sua capacidade de amortecimento, a temperatura do solo pode subir mais rapidamente.

Isso pode reduzir o crescimento das plantas, diminuir a produção agrícola e de pastagens, e até afetar o clima e o tempo locais em grandes áreas.
Esta investigação mostra também que características como densidade, teor de argila e quantidade de matéria orgânica influenciam diretamente a capacidade térmica do solo.
Em termos simples: solos vivos e equilibrados aquecem menos e protegem melhor plantas e microrganismos.
Agricultura regenerativa
A boa notícia, segundo os investigadores, é que o solo pode recuperar parte da sua proteção térmica perdida através de métodos agrícolas práticos.
Um deles chama-se retenção de restolho, que consiste em deixar os caules e folhas das culturas no campo após a colheita, em vez de os queimar ou remover.
Esta camada protege o solo do sol e reduz a perda de água. Outro método é o uso de culturas de cobertura, que consiste em cultivar plantas principalmente para proteger e alimentar o solo (não necessariamente para colheita).
Essas plantas mantêm raízes vivas no solo, reduzem áreas expostas e aumentam a matéria orgânicas. Estes métodos não eliminam as ondas de calor, mas podem reduzir o stress causado pelo calor nos solos e nas culturas.
Referência do artigo
Amin Sharififar, Alex McBratney, "Benchmarking soil thermal buffering for climate-smart adaptation in Australia", Geoderma, Volume 471, 2026.
Não perca as últimas notícias da Meteored e desfrute de todo o nosso conteúdo no Google Discover totalmente GRÁTIS
+ Siga a Meteored