“Antes eram gigantes”: estudo alerta que tamanho médio do bacalhau no Báltico encolheu 48% devido à atividade humana
Estudo liderado pelo GEOMAR, Alemanha, e publicado na Science Advances, revela que a redução do tamanho da população de bacalhaus no Báltico e do comprimento dos próprios peixes se deve ao profundo impacto da atividade humana.

Entre 1996 e 2019 o comprimento médio dos bacalhaus-do-atlântico (Gadus morhua) no Mar Báltico diminuiu cerca de 48%, passando aproximadamente de 40 para 20 centímetros. Segundo um estudo liderado pelo GEOMAR (Centro Helmholtz para a Investigação Oceânica, Alemanha), esta redução resulta sobretudo da pesca excessiva, que exerceu uma forte pressão seletiva sobre a espécie.
O estudo, publicado na revista Science Advances, conclui que décadas de exploração intensiva alteraram a composição genética da população de bacalhau-do-atlântico do Báltico Oriental, demonstrando que a atividade humana pode provocar mudanças evolutivas em espécies marinhas.
Otólitos de 152 bacalhaus permitem identificar perda progressiva dos genes associados a um crescimento mais rápido
A captura sistemática dos maiores exemplares foi favorável à sobrevivência de indivíduos menores, de crescimento mais lento e de maturação mais precoce. Estes peixes escapavam com maior frequência à pesca por serem pequenos, transmitindo essas características às gerações seguintes. Consequentemente, os genes associados ao crescimento rápido e a um amadurecimento tardio tornaram-se cada vez mais raros, podendo até mesmo ter desaparecido desta população.
A investigação baseou-se na análise dos otólitos de 152 bacalhaus capturados entre 1996 e 2019 na Bacia de Bornholm, entre a Polónia e a Suécia, principal zona de desova do bacalhau-do-atlântico do Báltico Oriental.

Os otólitos são pequenas estruturas de carbonato de cálcio presentes no ouvido interno dos peixes, funcionam de forma semelhante aos anéis de crescimento das árvores e permitem reconstruir a idade e o crescimento dos peixes. Analisando estes registos e a genética, os cientistas foram capazes de identificar a gradual perda dos genes associados a um crescimento mais rápido.
“O impacto profundo das atividades humanas em populações selvagens" e o apelo à pesca sustentável
Desde 2019, a pesca do bacalhau-do-atlântico no Mar Báltico está proibida para permitir a recuperação da espécie, que esteve próxima do colapso. Contudo, os investigadores verificam que os peixes continuam pequenos, o que sugere que a recuperação genética é muito mais lenta do que a sua degradação. Ademais, os indivíduos com dimensões mais pequenas geram menos descendentes, dificultando ainda mais a reposição das populações.
Young Han, Reusch e os restantes autores do estudo concluem que este caso demonstra o impacto profundo das atividades humanas não apenas sobre o número de indivíduos, mas também no património genético das populações selvagens. Os investigadores reforçam ainda a importância da pesca sustentável como medida essencial para preservar a biodiversidade, proteger os recursos genéticos das espécies e garantir a sua capacidade de adaptação e sobrevivência a longo prazo.
Referência da notícia
Kwi Young Han, Reid S. Brennan, Christopher T. Monk, Sissel Jentoft, Cecilia Helmerson, Jan Dierking, Karin Hüssy, Érika Endo Kokubun, Janina Fuss, Ben Krause-Kyora, Tonny B. Thomsen, Benjamin D. Heredia, and Thorsten B. H. Reusch. (2025). Genomic evidence for fisheries-induced evolution in Eastern Baltic cod.
Green Savers Sapo. (2026). “Antes eram gigantes”: Sobre-exploração reduz em quase metade tamanho dos bacalhaus-do-atlântico desde os anos 90.