Portugal na trajetória: o modelo europeu prevê um "corredor de trovoadas" no sul da Europa em agosto
Segundo a tendência a longo prazo do ECMWF, evidencia-se a possibilidade de precipitação acima da média em vários países do sul da Europa no mês de agosto, o que converge com a eventual formação de um corredor de trovoadas.

A origem da formação de um “corredor de trovoadas” no sul da Europa no mês de agosto, particularmente em países como Portugal, Espanha e Itália, poderá dever-se à combinação de vários fatores de ordem geográfica e meteorológica.
Entenda o padrão atmosférico que poderá estar na origem das trovoadas em agosto no sul da Europa
Entre os mais relevantes destaca-se o comportamento do jato polar que, ao apresentar uma ondulação mais pronunciada, é capaz de estimular a formação de depressões isoladas em altitude (bolsas de ar frio ou gotas frias), caracterizadas pela presença de ar frio nos níveis médios e altos da troposfera.
Simultaneamente, nos países do sul da Europa, destacando-se em particular a Península Ibérica, o mês de agosto continua a ser caracterizado por uma forte insolação e por um elevado ângulo de incidência da radiação solar, fatores que promovem um aquecimento intenso da superfície terrestre.

O aquecimento é favorável à ascensão do ar, que conduz à formação de nuvens de desenvolvimento vertical e, consequentemente, a uma maior atividade convectiva durante as tardes e início das noites.
Quando se geram determinadas configurações atmosféricas de larga escala, como é disso exemplo o bloqueio anticiclónico escandinavo-britânico (altas pressões que persistem nas latitudes altas), pode ainda verificar-se uma maior persistência das bolsas de ar frio isoladas em altitude sobre o sul da Europa.
Este tipo de baixas pressões pode então favorecer o prolongamento de condições meteorológicas instáveis, que se manifestam sob a forma de aguaceiros, por vezes localmente fortes e sob a forma de granizo, frequentemente acompanhados de trovoadas e rajadas intensas de vento ou outros fenómenos extremos (tornados, downbursts ou até mesmo supercélulas).

Além disto, é importante ainda ter em conta fatores de natureza oceânica: à latitude dos países do sul da Europa, as temperaturas da superfície do oceano Atlântico e do mar Mediterrâneo, já na presente data relativamente elevadas (sobretudo na bacia mediterrânica), contribuem para um maior fornecimento de calor e humidade à atmosfera.
Esta energia extra torna ainda mais favorável o desenvolvimento de nuvens de desenvolvimento vertical associadas às gotas frias, tendo o potencial de agravar os episódios de trovoadas localmente fortes.
Tendência do modelo europeu para agosto, sobretudo nestas datas da segunda quinzena do mês
As projeções semanais do ECMWF, modelo de maior confiança para a Meteored, indicam anomalias positivas de precipitação para o Centro-Sul de Portugal continental, arquipélago da Madeira e algumas zonas montanhosas do Norte, representadas no mapa por tons de verde e correspondentes a valores compreendidos entre 0 e 10 mm acima da média climatológica de referência nas regiões referidas.
Segundo a normal climatológica de 1991-2020 do IPMA, agosto é, na maioria das estações meteorológicas analisadas, o mês mais quente, sendo o segundo mês mais seco do ano em Portugal continental.
Analisando os mapas semanais de anomalias de precipitação do modelo Europeu, constata-se que o sinal de precipitação acima da média se apresenta mais consistente no período que se estende entre os dias 17 e 24 de agosto, abrangendo boa parte de Portugal continental, o arquipélago da Madeira, grande parte da Espanha peninsular e Ilhas Canárias e ainda algumas regiões de Itália.

Importa, contudo, esclarecer que esta análise representa apenas uma tendência de longo prazo dado que abarca um horizonte temporal superior a um mês, pelo que a incerteza associada é bastante elevada, com a previsão a poder vir a sofrer alterações significativas nas próximas atualizações do modelo ECMWF.
Ainda assim, a persistência deste sinal em sucessivas saídas semanais dos mapas de anomalias de precipitação do modelo Europeu reforça a possibilidade de se verificarem condições meteorológicas favoráveis a uma maior atividade convectiva, com valores de precipitação acima da média, nos países já referidos (Portugal, Espanha e Itália), aumentando a probabilidade de ocorrência de aguaceiros e trovoadas, ou de um “corredor de trovoadas” no sul da Europa.