As abelhas nunca se perdem: particulas magnéticas podem explicar este fenómeno

Um novo estudo reforça a ideia de que muitas espécies de abelhas possuem uma bússola biológica que as ajuda a orientar-se durante os seus voos. Será mesmo assim? Venha descobrir!

Cientistas identificaram partículas magnéticas em várias espécies de abelhas.
Cientistas identificaram partículas magnéticas em várias espécies de abelhas.

Durante décadas, a ciência afirmava que a capacidade de orientação através do campo magnético da Terra era uma característica reservada apenas a alguns animais, como as aves migratórias, as tartarugas marinhas ou até mesmo os salmões.

No entanto, de acordo com investigações recentes esta habilidade poderá estar muito mais disseminada entre as abelhas do que se pensava, levantando novas questões sobre a forma como as abelhas encontram alimento e regressam aos seus ninhos.

O que é afinal a magnetorreceção e como funciona?

Segundo uma investigação publicada na revista Neurobiology, o conceito conhecido como magnetorreceção descreve a capacidade de detetar o campo magnético terrestre e utilizá-lo como referência para navegação. Embora este fenómeno já tivesse sido demonstrado em abelhas domésticas, um estudo recente analisou dezenas de espécies diferentes e encontrou partículas ferromagnéticas em grande parte delas.

Estes minúsculos cristais, compostos por minerais ricos em ferro, podem funcionar como sensores biológicos capazes de responder às variações do campo magnético da Terra.

A descoberta é particularmente interessante porque as partículas magnéticas foram identificadas tanto em espécies sociais, que vivem em colónias organizadas, como em espécies solitárias.

Isso indica que esta característica poderá ter surgido muito antes da evolução dos complexos comportamentos sociais observados nas abelhas atuais, sugerindo tratar-se de uma adaptação ancestral preservada ao longo de milhões de anos. Apesar desta evidência, os investigadores alertam que a presença de partículas magnéticas não prova, por si só, que todas estas espécies utilizem um verdadeiro "GPS biológico".

O papel do campo magnético na navegação

Demonstrar a magnetorreceção é um enorme desafio experimental, uma vez que exige observar o comportamento de animais vivos em condições cuidadosamente controladas, eliminando outros fatores de orientação, como a posição do Sol, a paisagem ou os odores do ambiente.Por esse motivo, continua a existir alguma incerteza sobre o papel exato destas estruturas.

Para além de serem os mais importantes polinizadores da natureza, as abelhas poderão recorrer ao campo magnético da Terra para encontrar o caminho entre as flores e os ninhos.
Para além de serem os mais importantes polinizadores da natureza, as abelhas poderão recorrer ao campo magnético da Terra para encontrar o caminho entre as flores e os ninhos.

Esta não é, contudo, uma ideia completamente nova. Há mais de duas décadas, diversos estudos já apontavam para a existência de magnetite, um mineral naturalmente magnético, no organismo das abelhas.
Essas investigações sugeriam que estes insetos poderiam combinar informação visual com sinais magnéticos para melhorar a sua orientação durante os voos de procura de alimento.

Ao longo dos anos, experiências demonstraram ainda que as alterações artificiais do campo magnético podem influenciar determinados comportamentos das abelhas, reforçando a hipótese de que possuem uma sensibilidade magnética funcional.

As novas investigações ampliam significativamente esse conhecimento ao mostrar que esta característica pode estar distribuída por uma grande diversidade de espécies. Curiosamente, a intensidade do sinal magnético parece variar entre espécies e tende a ser maior em abelhas de maior dimensão corporal.

Ainda assim, os cientistas não encontraram uma relação clara entre esta capacidade e fatores como o tipo de ninho ou o comportamento social, indicando que a evolução da magnetorreceção poderá ser mais complexa do que anteriormente imaginado.

A importância desta descoberta para a ciência

Compreender como as abelhas se orientam é mais do que uma curiosidade científica. Estes insetos desempenham um papel essencial na polinização de plantas silvestres e culturas agrícolas, sendo responsáveis por uma parte significativa da produção alimentar mundial.

Conhecer todos os mecanismos envolvidos na sua navegação poderá ajudar a perceber de que forma fatores ambientais, como a poluição eletromagnética ou alterações do habitat, podem afetar a sua capacidade de encontrar flores e regressar aos ninhos.

Além da importância ecológica, este tipo de investigação poderá também inspirar novas tecnologias. Os sistemas biológicos de navegação são frequentemente utilizados como modelo para desenvolver sensores e equipamentos mais eficientes, capazes de funcionar em ambientes onde o GPS convencional não está disponível, como túneis, minas ou até futuras missões espaciais.

Embora permaneçam muitas perguntas por responder, uma conclusão parece cada vez mais sólida: as abelhas são muito mais sofisticadas do que imaginávamos. A possibilidade de utilizarem o campo magnético terrestre como complemento aos seus notáveis sistemas de orientação revela que estes pequenos polinizadores continuam a surpreender a ciência.

Referência da notícia

Joseph L Kirschvink , Michael M Walker , Carol E Diebel. (2001). Magnetite-based magnetoreception.