Abelhas surpreendem cientistas ao resolver contas simples de matemática

Investigação australiana mostra que abelhas conseguem aprender regras de soma e subtração em experiências controladas, sugerindo que até cérebros muito pequenos podem desenvolver habilidades cognitivas consideradas complexas.

Experiências indicaram que até o cérebro minúsculo de uma abelha pode lidar com problemas matemáticos. Crédito: iStock
Experiências indicaram que até o cérebro minúsculo de uma abelha pode lidar com problemas matemáticos. Crédito: iStock

Uma investigação conduzida por cientistas da Universidade RMIT, na Austrália, revelou que as abelhas são capazes de realizar operações matemáticas simples, como adição e subtração. O estudo amplia o entendimento científico sobre como cérebros extremamente pequenos ainda podem executar tarefas cognitivas consideradas complexas.

Os resultados foram publicados na revista científica Science Advances e baseiam-se em experiências que avaliaram a capacidade destes insetos de aprender regras numéricas e aplicá-las em diferentes situações. A investigação demonstra que, mesmo com um cérebro minúsculo, as abelhas conseguem lidar com problemas que exigem raciocínio.

De acordo com os cientistas, operações matemáticas aparentemente simples exigem processos mentais sofisticados, como a manipulação de informações na memória e a aplicação de regras aprendidas anteriormente. Estas habilidades costumam exigir que o cérebro retenha regras enquanto trabalha simultaneamente com números.

Pequenos cérebros, grande capacidade cognitiva

As experiências indicaram que o cérebro das abelhas consegue executar tarefas que envolvem diferentes tipos de memória. Segundo os investigadores, os insetos precisam usar memória de longo prazo para lembrar das regras matemáticas e memória de curto prazo para processar as informações apresentadas durante o teste.

Investigadores provaram que estes pequenos polinizadores conseguem realizar operações aritméticas básicas de forma surpreendente para navegar. Crédito: Imagem criada por inteligência artificial/Olhar Digital
Investigadores provaram que estes pequenos polinizadores conseguem realizar operações aritméticas básicas de forma surpreendente para navegar. Crédito: Imagem criada por inteligência artificial/Olhar Digital

“Nós precisamos de ser capazes de manter as regras de somar e subtrair na memória de longo prazo, enquanto manipulamos mentalmente um conjunto de números na memória de curto prazo”, explicou o pesquisador Adrian Dyer, num comunicado divulgado pela universidade.

Ainda de acordo com o cientista, as abelhas conseguiram utilizar a memória de curto prazo para resolver problemas aritméticos. Ele afirma que os insetos aprenderam a reconhecer os sinais de adição e subtração como conceitos abstratos, algo considerado avançado para organismos com sistemas nervosos tão pequenos.

Como foi realizada a experiência

Os testes foram conduzidos pela investigadora de doutoramento Scarlett Howard no laboratório Bio Inspired Digital Sensing-Lab (BIDS-Lab). Cada abelha foi treinada individualmente num labirinto em formato de Y, projetado para avaliar a sua capacidade de aprendizagem.

Durante a experiência, os insetos recebiam recompensas quando acertavam as respostas. Ao escolher o caminho correto, a abelha ganhava uma solução de água com açúcar. Já quando errava, encontrava uma substância amarga feita com quinino, usada como estímulo negativo.

Ao entrar no labirinto, a abelha observava entre uma a cinco figuras geométricas. A cor dessas formas indicava qual operação deveria ser realizada: figuras azuis significavam que o inseto precisava somar um elemento, enquanto as amarelas indicavam a necessidade de subtrair um.

Aprendizadgem após várias tentativas

Depois de observar as figuras geométricas, a abelha precisava escolher entre dois caminhos. Um apresentava a resposta correta da operação matemática e o outro mostrava um resultado incorreto. Para evitar que os insetos simplesmente memorizassem um lado do labirinto, os investigadores mudavam aleatoriamente a posição da resposta correta.

Estes insetos podem aprender a reconhecer cores como elementos simbólicos para resolver problemas aritméticos. Crédito: kritiyakorn Srikum/Getty Images
Estes insetos podem aprender a reconhecer cores como elementos simbólicos para resolver problemas aritméticos. Crédito: kritiyakorn Srikum/Getty Images

No início do treino, as escolhas das abelhas eram basicamente aleatórias. No entanto, com o avanço da experiência, os insetos começaram a demonstrar aprendizagem progressiva ao associar cores às operações matemáticas.

Após cerca de 100 tentativas de aprendizagem — realizadas ao longo de quatro a sete horas — as abelhas passaram a aplicar corretamente as regras de soma e subtração. Com o conhecimento consolidado, elas conseguiram usar a lógica aprendida em novos conjuntos de números.

O que a descoberta pode indicar

O estudo contribui para um debate antigo na ciência sobre até que ponto os animais conseguem compreender conceitos numéricos. Diversas espécies são capazes de diferenciar quantidades, habilidade usada para buscar alimento ou tomar decisões no ambiente.

No entanto, a chamada cognição numérica (que envolve números exatos e operações aritméticas) exige um nível mais sofisticado de processamento mental. Investigações anteriores já apontavam que alguns primatas, aves e até aranhas conseguem realizar operações simples de soma e subtração.

Com esta nova experiência, as abelhas passam a integrar essa lista de animais capazes de executar tarefas matemáticas básicas. Para os investigadores, compreender como cérebros tão pequenos resolvem problemas complexos pode trazer impactos também para a tecnologia.

Segundo Adrian Dyer, estudar esses mecanismos pode ajudar no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial mais eficientes. “Se a matemática não exige necessariamente um cérebro enorme, talvez possamos encontrar novas maneiras de incorporar regras de longo prazo e memória de trabalho em sistemas de IA capazes de aprender rapidamente novos problemas”, afirmou.

Referência da notícia

UOL Notícias. Abelhas surpreendem cientistas ao resolver contas simples de matemática. 2026