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Como está a crise climática a causar a escassez de alimentos?

As altas temperaturas, associadas a fortes tempestades, secas, inundações e incêndios estão a colocar a produção de alimentos em risco. Veja aqui quais são as áreas agrícolas mais afetadas.

Trigo
A escassez deste "bem essencial" ameaça a segurança alimentar do mundo.


A Huy Fong Foods, empresa do sul da Califórnia que produz 20 milhões de garrafas de sriracha anualmente (molho à base de pimentas), deparou-se com um baixo stock de pimenta jalapeño vermelha nos últimos anos, agravado pela quebra de safra da primavera.

A causa? Condições climáticas severas e secas no México.

Mas não são apenas as pimentas. Os produtores de mostarda na França e no Canadá afirmam que o clima extremo causou uma redução de 50%, o ano passado, na produção de sementes, levando à escassez do condimento nas prateleiras dos supermercados.

O aumento alarmante das temperaturas, as fortes tempestades, secas, inundações, incêndios e mudanças nos padrões de chuva também estão a afetar o custo e a disponibilidade de alimentos básicos, incluindo trigo, milho, café, maçã, chocolate e vinho.

O impacto nos cereais, na fruta, no café e no cacau

O trigo e outras culturas de grãos são particularmente vulneráveis. Nas Grandes Planícies, onde a maior parte do trigo dos EUA é colhida, a seca deprimiu a safra de inverno. Os níveis de abandono do trigo de inverno nos EUA, principalmente no Texas e Oklahoma, são os mais altos desde 2002. Enquanto isso, em Montana, as inundações ameaçam as colheitas de grãos.

O impacto da crise climática nas plantações de grãos estende-se além dos EUA. Na Índia, uma forte onda de calor prejudicou a safra de trigo devido às temperaturas recordes durante a primavera e o verão. Quando Delhi atingiu 48ºC em maio, o governo proibiu as exportações de trigo, aumentando, ainda mais, os preços face ao aumento após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

As alterações climáticas podem afetar seriamente a produção global de milho e trigo já em 2030, com uma estimativa de queda de 24% na produção de milho.

As maçãs são outro alimento que já está em risco. A colheita de maçã do ano passado em Michigan e Wisconsin, nos EUA, foi comprometida por causa da forte geada na primavera. De acordo com o USDA, mudanças no clima, como o aquecimento, podem levar a rendimentos menores, menor crescimento e alterações na qualidade da fruta.

São já uma série de alimentos que começam a falhar devido às alterações climáticas.

O clima extremo está a afetar o custo do café. Entre abril de 2020 e dezembro de 2021, os preços do café aumentaram 70% depois da seca e das geadas destruírem as culturas no Brasil, o maior país produtor de café do mundo. As ramificações económicas podem ser profundas, pois estima-se que até 120 milhões dos mais pobres do mundo dependem da produção de café para sua sobrevivência.

A crise climática também poderá alterar os locais onde os agricultores podem cultivar cacau e espera-se uma escassez de produtos de chocolate nos próximos anos devido ao clima mais seco na África Ocidental.

Na produção vinícola

No ano passado, a indústria vinícola da França teve a sua menor colheita desde 1957, com uma perda estimada de US$ 2 biliões em vendas. Um vinhedo de champanhe que normalmente produz entre 40 mil a 50 mil garrafas por ano não produziu nada em 2021 devido a temperaturas mais altas e chuvas fortes.

Um estudo mostrou que, se as temperaturas subirem 2°C, as regiões vitícolas podem encolher até 56%. 4°C de aquecimento poderiam significar que 85% destas áreas perderiam a capacidade de produzir bons vinhos.

Produção de vinho em França
Famosa no mundo todo pelos seus vinhos, a França pode passar por uma queda de até 30% na produção nos próximos meses.

Especialistas dizem que, a menos que sejam tomadas medidas, podemos esperar aumento dos preços dos alimentos, diminuição da disponibilidade e conflito pela água, o que afetará principalmente os países mais pobres.