O planeta e o consumo agropecuário

O ar, a água e o solo são elementos vitais para a manutenção de vida na Terra. O desrespeito pelos seus ciclos reflete-se implacável e nefastamente no clima do planeta, e por inerência na vida do Homem. Saiba mais aqui.

Mónica Barbosa Mónica Barbosa 25 Ago. 2019 - 18:11 UTC
As práticas agrícolas não devem saturar o solo e o tipo de cultura deve ser adequado ao clima da região para mitigar stresses hídricos.

É essencial à saúde do organismo humano, através de uma suficiente e regular ingestão, mas a água é também fundamental para a produção alimentar: agricultura e pecuária. E, no delicado e complexo sistema climático, a importância da água funde-se com a do ar, e este, apesar de não ser constante no tempo e no espaço, atinge algum equilíbrio a uma altitude de cerca de 80 km, já sem partículas suspensas ou vapor de água. O ar seco e limpo, é composto por Azoto (78%), Oxigénio (20,9%) e outros dez gases (cerca de 1%). Qualquer oscilação na quantidade normal dos gases que constituem a atmosfera, qualquer aglomeração ou ação conjunta, por exemplo com o vapor de água, tem repercussões, desde a fluidez da energia radiante, aos movimentos das massas de ar, ou até com o comportamento dos padrões climáticos.

Notícias alarmistas, e parcamente assertivas, difundem a premência da alteração da dieta alimentar dos humanos, aludindo a um maior consumo de vegetais, cereais e leguminosas, em detrimento de carne animal. Legítimo questionar as reais consequências de tal sugestão. Senão vejamos, para produzir um único tomate de 250 gramas são necessários 50 litros de água, entre toda uma panóplia de outros alimentos.

A produção animal desequilibra a atmosfera?

Efetivamente, a produção de um quilograma de carne, requer dispêndio de grande quantidade de água, para além de interferir com a normal atmosférica, uma vez que a criação intensiva de animais para consumo (gado bovino, suíno e galináceo), potencia o aumento de emissões de metano, gás existente nos dejetos dos animais. A presença deste gás na composição da Atmosfera é de apenas 0,00014%, contudo, à escala temporal de um século, ele é cerca de trinta vezes mais eficiente na captura do calor radiante do Sol do que o dióxido de carbono. Isto é, apesar de 0,035% da Atmosfera ser composta por CO₂, quantidade superior à de CH₄, isoladamente, o metano tem um efeito mais desestabilizador no delicado mecanismo do efeito de estufa.

Deve ser destacado que, a acompanhar a contínua escalada demográfica no planeta, ludibriosas correntes consumistas, exponenciam ao aumento da produção pecuária de um modo completamente desfasado – ou não haveria fome no planeta, ou não seriam diariamente, desperdiçados como lixo, milhares de toneladas de carne não consumida. O problema não residirá propriamente no consumo de carne, mas antes nas quantidades excessivas e desnecessariamente produzidas, devendo a estratégia passar por uma gestão eficiente e equilibrada da produção animal, ao encontro das reais necessidades do consumo humano, manifestamente inferiores às actualmente produzidas!

A FAO alerta que a agricultura mundial consome 70% de toda a água no planeta, e 60% da utilizada nos projetos de irrigação é perdida.

E, a produção agrícola, tem consequências negativas para o ecossistema?

O consumo de água nas mais diversas produções agrícolas é assombroso. Considere-se, o trigo e o arroz. Anualmente são consumidos no mundo, cerca de 440 milhões de toneladas de trigo, através da sua utilização para produzir p.e. pão, massas e cerveja. No que concerne ao arroz, falamos de cerca de 355 milhões de toneladas consumidas, refira-se, os milhões de seres humanos que sobrevivem da sua colheita, sendo o arroz a base da alimentação da área geográfica com maior demografia, o continente Asiático. E, perante modas emergentes da adopção de dietas ditas saudáveis, incontornável destacar as leguminosas (lentilhas, grãos de bico), a soja (em grão, e processada, o tofu), o abacate e os frutos secos, e o explicito impacte que estas culturas representam, pela sua ávida necessidade hídrica.

Efectivamente, e no sentido de rentabilizar as culturas, são adoptadas práticas que resultam em consequências gravíssimas para a vida dos solos. Falamos do uso intensivo de pesticidas e herbicidas, que, para além de poluírem a água potável, acidificam os solos, destituindo-os de nutrientes. O desuso das ancestrais práticas de rotação de culturas e do pousio, para possibilitar a reorganização microrgânica, antes de voltarem a ser cultivadas. A desflorestação, para libertar espaço para cultivos, só que, a vegetação endémica evita a degradação dos solos e potencia a circulação de nutrientes. O cultivo de espécies, para as quais o tipo de clima não é o que mais se coaduna, exigindo maior quantidade de água no seu regadio.

Ora, o resultado de más práticas reflete-se na improdutividade, degradação e morte dos solos, sendo depreciado que, uma camada de solo de apenas 2,5 centímetros de espessura, pode levar entre quinhentos a mil anos para se formar. O problema não residirá propriamente no consumo de vegetais, cereais ou leguminosas, passa antes por uma gestão consciente e sustentável da utilização dos solos, como a implementação de técnicas de rega eficientes e eficazes, como sistema gota-a-gota, e reservatórios de água pluvial, os quais também servem para hidratar os animais, assim como, adoptar cultivos, de acordo com o clima de cada região. Comum à agricultura e à pecuária, é a necessidade de minimizar desperdícios, cultiva-se e produz-se largamente mais do que efectivamente se necessita, urge alterar o conceito de consumo!

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