Do espaço, os satélites revelam as mudanças no ciclo da água
Uma investigação baseada em dados de satélite revela como a agricultura, as barragens e a exploração das águas subterrâneas estão a alterar as reservas de água doce do nosso planeta. Venha descobrir mais aqui!

O ciclo da água é um dos sistemas fundamentais para a vida no planeta, mas a agricultura, a construção de barragens e a exploração de águas subterrâneas estão a alterar a forma como este recurso se distribui pelos continentes.
De acordo com um estudo recente divulgado pela NASA mostra até que ponto a atividade humana está a deixar uma marca mensurável nas reservas de água da Terra.
Publicado a 20 de outubro de 2026, este estudo analisou dados recolhidos entre abril de 2002 e novembro de 2025 pelos satélites das missões GRACE e GRACE-FO, desenvolvidas pela NASA.
Através da medição de pequenas alterações na gravidade terrestre, estes equipamentos permitem estimar as variações na quantidade de água armazenada nos solos, nos lagos, nos rios e nos aquíferos.
Satélites conseguem detetar alterações nas reservas de água
A análise identificou 40 regiões onde as tendências observadas nas reservas de água estavam fortemente associadas a atividades humanas, como a irrigação agrícola, a construção de reservatórios e as alterações na utilização dos solos. Estas relações foram identificadas em todos os continentes não polares, com exceção da Austrália.
A resolução espacial mais detalhada permitiu ainda identificar alterações que análises anteriores não tinham conseguido distinguir com tanta clareza.
Em quatro regiões continentais, um fator associado à atividade humana apresentou uma relação mais forte com as mudanças na água armazenada do que qualquer variável climática considerada no estudo.
A agricultura está a transformar a distribuição da água
Um dos exemplos mais evidentes encontra-se na Califórnia, nos Estados Unidos, onde a agricultura depende fortemente da extração de água subterrânea.
A mesma tendência foi identificada nas Grandes Planícies do Sul norte-americanas, em Chihuahua, no México, e no norte da Índia. Nestas regiões, a captação de água dos aquíferos para regar as culturas está associada a uma diminuição das reservas subterrâneas.

Os períodos prolongados de seca agravam o problema, aumentando a dependência dos agricultores destas fontes de água. No norte da Índia, a análise mais recente revelou uma redução das reservas mais acentuada do que algumas estimativas anteriores indicavam.
Contudo, a influência da agricultura não se manifesta sempre da mesma forma. Em algumas partes da África subsaariana, a expansão de culturas de sequeiro, como o milheto, esteve associada a aumentos das reservas de água subterrânea.
Também no estado brasileiro do Maranhão foram observadas tendências semelhantes em áreas onde a vegetação natural foi substituída por campos agrícolas. Os investigadores sublinham que estes resultados podem ter várias explicações e exigem uma análise cuidadosa das condições locais.
As barragens e os canais também deixam marcas
A construção de infraestruturas para armazenar e transportar água constitui outro fator importante. As barragens alteram a distribuição da água à superfície, enquanto os canais de irrigação podem modificar a quantidade de água que chega ao subsolo.

No deserto de Karakum, no Turquemenistão, o canal com o mesmo nome transporta água dos rios para apoiar a agricultura em zonas áridas. Ao longo do percurso, parte dessa água infiltra-se no terreno, contribuindo para alterar as reservas subterrâneas. A nova análise conseguiu identificar esta influência com maior detalhe.
Estas alterações demonstram que a intervenção humana pode produzir efeitos muito para além do local onde a água é captada ou utilizada.
A gestão de um rio, a expansão de uma cidade ou a transformação de uma floresta em terreno agrícola podem modificar a infiltração da água no solo, a evaporação e o escoamento superficial, influenciando também o risco de cheias e a disponibilidade de água a jusante.
Desta forma, num planeta onde a água circula continuamente entre a atmosfera, a superfície e o subsolo, alterar a quantidade disponível num determinado lugar pode ter consequências duradouras. Reconhecer a marca humana neste ciclo natural é, por isso, um passo essencial para proteger as reservas de água doce e garantir a sua disponibilidade no futuro.
Referência da notícia
NASA Earth Observatory. (2026). The Human Fingerprint on Earth’s Water Cycle.